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sábado, 27 de abril de 2013

30 minutos


Clarice acabara de chegar dos engarrafamentos rodoviários comuns na capital. Exausta, por duas horas dirigindo, apenas uma compensação: a segurança de ter o hotel reservado antecipadamente.
Ao chegar não estranhou a entrada simples com interfone externo e a  senhora que veio atender como se fosse a casa de uma tia sua ou algo parecido.
Deixou o carro à espera do manobrista e entrou.
A recepção era simples. Não se podia imaginar o que havia por traz daquelas cortinas camuflando paredes encardidas.
Fez o pagamento e seguiu o guia afeminado e falante, homem de estatura baixa, bermudas e chinelos que a ajudou com a bagagem.
Desceram varias escadas sem proteção alguma, desviaram de betoneiras, pás sujas de reboco e restos de obra, caixas de material de construção, homens trabalhando. Corredores sem iluminação, portas lacradas por fora. Clarice estava tomada de um suspense que ia aos poucos conduzindo-a naquele fundo de corredor sem iluminação elétrica, apenas a luz que vinha de algumas aberturas na parede, cercada de entulhos . Sua mochila pesava escorregando pelo ombro. A câmera pendurada não acreditava as cenas que perdiam sua objetiva. Espanto e indignação impediam-na de qualquer reação. Vez por outra o homenzinho  fazia uma piada sem graça. Clarice o achara meio sádico, mas não levou a sério sua percepção. Por fim ele parou diante de uma porta girou a maçaneta indicando:
_ É aqui, sem beliches, tem tevê e ventilador.
Num pedaço de papel que jogou sobre a cama estreita, falou:
_ A senha da Internet.
Tudo aquilo era para Clarice, no mínimo emudecedor. Quando ele se retirou ela pode olhar com mais calma a sua volta. Abriu a porta do banheiro buscando um espelho, queria se ver, sabia que estava sem cor e com olhos arregalados, mas não havia espelho. No banheiro nenhuma ventilação. A porta se abria quase tocando na cama para dentro do quarto que não possuía nenhuma janela. Nem mesmo com uma cela ou um cativeiro aquilo parecia. Na parede o fio de instalação corria suspenso pronto para um curto circuito incendiário a qualquer momento. Um pequeno armário de aço branco, parecido com esses de postos de saúde da periferia das cidades grandes, se apertava entre a porta do banheiro e o que sobrava da parede. Sobre a cama duas prateleiras ameaçavam, pela pouca altura, quem se deitasse ou levantasse dela. Era difícil imaginar alguém ficar ali sem ferir-se. Num turbilhão Clarice viu passar na velocidade da luz os últimos acontecimentos de sua vida e neles a consulta ao site de hotéis baratos próximos do local onde teria seu encontro de trabalho. Lembrou-se das fotos dos quartos e constatava agora a farsa que escondiam. Aquele lugar cheirava cena de crime. Pensou na viagem agendada para aquela reunião de trabalho ocasião em que nenhum hotel dos que ela conhecia, havia vaga, só aquele saltava na tela com apenas um quarto disponível, num impulso fez a reserva. Agora estava ali com uma única certeza: não podia ficar. Lembrou-se de Laura com quem cursara direito, agora  policial de elite morava na Capital. Ligou para a amiga numa tentativa de se  comunicar com alguém fora daquele contexto em busca de uma reação qualquer. Contou o que acontecia e Laura a aconselhou sair dali, prometendo vir ao seu encontro e ajudá-la a encontrar um lugar seguro para passar a noite. Clarice pegou todas as suas coisas, fechou a porta e se retirou. Alguns homens que pareciam trabalhar na obra a olhavam. Um deles falava ao celular. Clarice ficou pensando no que falaria na portaria para justificar-se tão apressada. Formulou uma desculpa sobre a antecipação da saída, torcendo pra não ter que explicar muito e nem deixar transparecer que não voltaria mais. Na portaria, tudo abandonado. Clarice deixou sobre a mesa as chaves do quarto, aliviada  por ninguém a ver sair. Nem trinta minutos transcorrera da sua entrada e saída daquele lugar. Seu carro ainda na rua esperava o manobrista para guardá-lo. Sentiu-se em fuga e perseguição. Olhou em volta pra ver se Laura se aproximava, constatou que não houvera tempo. Jogou suas coisas no banco do passageiro e deu partida. Mal podia acreditar naquilo tudo. Quando achava que estava livre, do banco de traz, o tal guia do pseudo-hotel, num gesto veloz laçou-lhe o pescoço, apertando até tirar todo seu ar. Desfaleceu. Ao tentar passar para o banco da frente, ele acionou o alarme do carro, Laura estava chegando, correu até a janela e viu Clarice desfalecida. Imediatamente imobilizou o homem algemando-o. Uma viatura chegava ao local. Entraram para vistoriar o lugar onde encontraram além de inúmeras irregularidades e muambas, bagagens de hospedes possivelmente desaparecidos... Clarice foi escoltada de volta até sua casa. Um banho, uma ligação para os compromissos de trabalho e por fim, o descanso para rever distanciada da cena, aqueles trinta minutos resultados da confiança que atribuiu as informações sobre a hospedagem num site da Internet.

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