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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

quase tudo

Na tarde silenciosa desenha  a janela que falta de vez em quando, pra ela saltar, buscar a saida pro pensamento que teima traduzir o sentimento, ainda indefinido e aprisionado... impedido do salto mortal da alma que se  diz imortal... ainda sem  ter certeza...  só acredita em quase tudo...e nesse quase tudo,  falta uma boa parte para ser tudo e do que já é acreditado, tem ainda um pedaço de nada que nem é tão pouco assim. ...fica insuficiente pro quase, ser tudo mesmo. Tudo, nada, quase tudo e quase nada, na balança avalia o tamanho de sua crença, quando afirma que acredita em quase tudo...que é bem mais que quase nada, mas não é tudo,  também não é nada. Conclui que está em vantagem e se contenta com o quase tudo. Decide então fazer a ligação, disca o número que do outro lado atende a voz que estava quase sempre acreditando que um dia, sua crença nela seria tudo. Mas do seu quase sempre naquele dia, predominava a parcela significativa entre o sempre e o nunca. Mas nunca acreditar era pior do que quase sempre acreditar...que por sua vez, não era melhor que acreditar  inteiramente... mas era bem melhor que não acreditar nunca...contentou-se então em quase sempre acreditar que ela acreditaria em quase tudo do que dizia suas profecias...atendeu e o que ouviu do outro lado: Olha sobre aquilo que sua palavra professou eu acredito em quase tudo e se estiver quase sempre disposta a ouvir meu confuso coração, talvez um dia eu não precise mais de uma janela pra saltar de vez em quando, nem de uma torre pra me prisionar em mim mesma...estou quase acreditando na sua fé e quase pronta a seguir seu Deus...se estiver quase sempre disposta a ouvir o silêncio do meu ruidoso coração que teimoso, só acredita em quase tudo...quase tudo mesmo.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Assim

Sentia-se assim navegando vento a levando exatamente como queria que fosse... Sem amarras, sem ancora que não a do pensamento agarrado aquela lucidez que ensaiava toda manhã no primeiro dia do ano, a se repetir todos os dias, feito dia primeiro... Lembrava-se dele e sua metáfora de barco a deriva... Saudades de sua poesia... Mas ele já partira e daquela maresia já não mais sofria... Ela sim tinha que navegar até o cais todos os dias, atracar-se navio... Pisar a areia molhada, sentir o roçar das ondas preguiçosas se esticando pra tocar seus pés gelando a alma. Sentia-se assim, mesmo atracada, navegando vento a levando, feito veleiro estampado seus panos no pensamento... Era assim mesmo que queria que fosse... Pra que ao sabor das ondas, seu corpo fosse tocado de um lado ao outro, balançando musicado sem rota estabelecida, hora de chegada... de partida... Vento levando sem despedida... Era isso mesmo e assim que queria...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Avatar

Procurava as novas definições de anti-virus pra seus pensamentos...em vão...continuava em risco de total contaminação...todos os bugs do milênio...todas as fraudes da trama, enigmas da solução, enganos, dúvida, confusão, um quadro perfeito pra ser pintado na prisão...um roteiro fértil de trágico-comica e dramática encenação...um poema que dispensa inspiração. Talvez o ar puro da manhã pudesse tocar o sino lá fora e romper o fluxo espasmódico de idéias quebradas que teimavam montar o quebra-cabeças labirintico e sem direção...enfronhara-se dentro de si e perdera-se...até as palavras se esconderam da voz, da escrita, da caneta, teclado digital...busca então um conceito, um bloco de anotações, uma linha demarcatória na tentativa de desenhar o caminho de volta, de ida, de qualquer direção. Soa então o alarme...as definições de virus foram atualizadas...o avatar se abre para o abraço que acolhe, aconchega, quebra ossos,  e aponta a direção do encontro. Lembra a última nota musical que a voz entoou pela manhã, o verso, a rima, a vontade de prosseguir no sonho roteirizado pela esperança teimosa, fé contagiosa num Deus  sem endereço,sem link que não o abraço virtual do ciberespaço. Constatou-se: ciborgue virou gente que virou ciborgue, danificado... necessita reparos...

domingo, 15 de janeiro de 2012

Que fazer

Já tinha passado da hora. Ela ainda não decidira sobre o que fazer. Com os cabelos molhados, enrolada na toalha, sentada na beirada da cama, pingando ainda o aroma dos cremes que espalhara descuidada pelo corpo, olhava para o armário de roupas a sua frente sem nenhuma vontade sobre o que vestir...
Talvez se ao menos o corpo ficasse nú quem sabe a alma e os pensamentos seguissem também esse rumo e se descobrissem sob as vestes que ainda não vestira?
As horas voavam e, com elas, uma preguiça se instalava sem demora pra ser fim.
No celular a mensagem pronuncia...o tempo se esgotava...hora de decidir...
Levanta-se, caminha ainda nua, toalha escorrendo pelo corpo, até a janela, e abre um arquivo novo...tarde demais, ja tinha passado da hora.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sobre ter histórias

Perguntei há algumas páginas atras, sugerida por Clarice Lispector,  sobre o que eu faria se eu fosse eu...Fiz lá minhas considerações e agora o que me proponho é saber se assim, de cara, ao me ver, uma única vez, ela ou alguém gostaria de ser eu...e minhas histórias...Eu, essa que escreve, já sou mais ou menos conhecida de mim mesma, mas ela, conheci na semana passada...quando ficou curiosa pra saber minha história, que na ocasião, eu dera poucas pistas, informações vagas e superficiais. Afinal era uma reunião informal e as pessoas só queriam mesmo tomar o café preparado por aquele adolescente em final de férias, que reunia sobre a mesa, copos de requeijão para água, e xicaras de café desencontradas, um bolo de milho feito na padaria, e uns salgados desses que você leva quando te chamam pra uma festinha de última hora. Era divertido vê-lo em  seu ir e vir da cozinha com uma coisa de cada vez espalhando-as sobre a mesa, debaixo dos olhares de quatro mulheres a conversar assuntos misturados: ofício de professora, férias internacionais, variedades domésticas, empregadas, faxineiras, maridos e filhos...amigos dos filhos. Ninguém ali se conhecia muito bem, apenas duas amigas de infância que não conviviam há tempo, estavam se re-conhecendo. A dona da casa, ficou curiosa com minha presença (mais idade, sem vínculo empregatício, aposentada, autonôma de não se sabe ao certo o quê, cultura aparentemente eclética, talvez artista, escritora ou relis professora, fazendo um tipo descolado...difícil saber...só perguntando de pouco...). Percebi que continha-se pra controlar as perguntas todas que queria me fazer...Eu imaginava todas elas, as perguntas, ou pelo menos as que, se eu fosse ela, me faria...Fiquei pensando também se eu gostaria de fazer alguma pergunta a ela, mas falava tanto e sem parar que não me dava tempo de processar alguma curiosidade...ia falando tudo...sem pudor estético, tipo essa comunicação do dia a dia, sem esmêro algum...só faltava de vez em quando coçar o nariz, cutucar alguma parte do corpo pra ficar ainda mais trivial a conversa...talvez por isso não senti vontade de perguntar nada...Ela despejava tudo, numa variedade de assuntos e expressões...eu estava mais que satisfeita com aquilo quase um self service por quilo...meu único trabalho era me ajeitar de vez em quando na cadeira, ficar olhando pra ela atenta pra não escapar... Me senti fora de hora e lugar, arrisquei considerar que exagerara na intenção de me relacionar mais com as pessoas, sair  de casa, aceitar convites, cinema, chá, bate-papo presencial, ficar menos no computador, enfiada em vários livros ao mesmo tempo...agora é isso...ou falo de mim ou deixo ela imaginar...Passamos uma tarde agradável e inconsequente, trocamos nossos contatos da rede social e na mesma noite recebi sua mensagem...você deve ter muitas histórias! Fiquei desconstruindo essa observação,  imaginário otimizado e então inventei mais esse propósito....saber se assim, de cara, ao me ver uma única vez, eu gostaria de ser eu e minhas histórias...minha resposta veio rápidamente, sim gostaria e então inventaria coisas que encheriam de estímulo e de vontades de ter também histórias muitas e incríveis quem as ouvissem, inclusive, eu mesma.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

??? Desabitada...


Falava-se tanto em sem teto naqueles dias, pessoas que perambulam em busca de um abrigo pra passar a noite, a vida que leva as vezes muito mais que noites e dias, leva semanas somadas, meses sem ser vivida. Sem teto,  consolo,  lugar,  animação nenhuma pra ver a banda passar, na alegoria do mais um dia de sol... batendo a cada manhã na janela... que pra ser ela, precisa da parede a emoldurar e  sustentar, do peitoril pra alguém se debruçar e olhar a rua la fora, dentro dela...da casa desabitada, a se mostrar recém construída, todos os dias! Prestes a ser entregue e inaugurada... cheirando a tinta, vestígios de obra inacabada... em permanente  andamento,. Espalhados os  pedaços de projetos arquitetônicos de cada compartimento dela....decoração iniciada em teste, elemento cada um, do paisagismo ensaiado, esperando pra se plantar de um lado e do outro dos jardins indefinidos...juntos aos demais todos, locais a espera de serem habitados.

Passo toda manhã pela obra, supervisiono cada canto...Replanejo os assuntos, lugar e seus sentidos. Constato que ainda  leva um tempo pra sua inauguração....há muitos detalhes a serem vistos...coisas que, em uma obra, não se pode deixar pra depois...enquanto isso a habito eu...todos os dias em cada visita de seu andamento...converso com os pedreiros e trocamos ideias, mostro-lhes meu novo anel...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Estranho

Era ainda uma menina e gostava de conversar com as pessoas qualquer uma e lugar, assunto que sua curiosidade desencadeava...fosse por uma situação presenciada, ou  objeto interessante. Trabalhava no centro comercial da cidade. Aos sábados o expediente terminava as doze horas mas ninguém conseguia sair antes das duas da tarde, quando ela se dirigia para o ponto do ônibus...Naquele horário, o burburinho da cidade dava início a um outro clima...menos pessoas transitando...lojas fechadas...filas diminuindo, transportes coletivos reduzidos, o que aumentava  a espera de voltar pra casa...

A menina, afeita a redação e leitura, adorava brincar com as palavras, tudo  lhe nutria uma curiosidade regada de entusiasmo, revestido de perguntas. todas elas  quase sem tempo pra esperar as respostas...ia assim  bebendo cada imagem, desenhando significados, criando histórias  pra elas e delas, personagens...

Naquela tarde uma surpresa a esperava...acostumada a encontrar sempre as mesmas pessoas no  ponto de espera,  pelo fato do transporte,seu destino  e local da cidade,  viagem direta mesmos caminhos e paradas....

Ao chegar,  a menina já  procurava com o  olhar as pessoas que costumava ver, havia uma em especial de quem se aproximava sorrindo puxando conversa, notando que havia sempre uma resistência  pra começar...

Era uma mulher por volta de seus quarenta anos ...um lenço enrolado na cabeça como um turbante emoldurando  seu rosto maquiado ...boca contornada de marrom preenchida de um batom vermelho...talvez um desses vermelhos pouco usados naquela hora do dia...sobrancelhas negras delineadas...cílios espessos, engomados de tinta preta...sombra sobre as pálpebras feito arco-íris, cores cintilantes...esmaltadas de um vermelho sangue as unhas compridas e pontiagudas seguravam a bolsa de listras cores vivas, alças curtas ...no pescoço alongado um colar de pérolas imitadas  se debruçavam sobre seu peito exuberante, saltando em par os seios, que empurravam pra cima seu colo. A  saia  justa engessava sua silhueta marcando quadris largos, cintura apertada. Os  sapatos pretos em verniz, saltos finos e altos traziam um laço com strass na altura do peito do pé...nos pulsos pulseiras de arcos coloridos e um anel dourado com pedra vermelho  rubi...era uma diversão para os olhos da menina que em seus 17 anos, não usava nem mesmo batom de cor alguma...os cabelos compridos e claros, pele branca com muitas sardas, olhos verdes meio amarelo, mãos inquietas, fala cantante orquestrada pela curiosidade com perguntas sem fim...De todas elas, eram poucas as que  a mulher respondia. Simplesmente ignorava quando não queria falar sobre o assunto...a menina não se cansava...queria saber seu nome, onde morava , de onde vinha naquele horário, porque não embarcava nos ônibus que paravam, por que ficava tanto tempo naquele lugar, se não ficava cansada de ficar em pé tanto tempo, ou se tinha medo de assalto, onde arrumava aquelas roupas tão alegres,  se alguém a esperava em casa, se tinha uma mãe brava como ela, por que era tão séria, se gostava de crianças, se tinha marido, namorado, coisas assim que desfilavam no seu interminável questionário...até que seu ônibus chegava e ela se despedia as pressas, deixando a mulher no mesmo ponto. Ficava com o olhar pregado no vidro da última janela, vendo aquela figura se distanciando até sumir. Nesse dia, no entanto foi diferente.

Ela estava bem próxima dela conversando com a mulher, quando    diante delas um carro da polícia estaciona, descemdo dele três policiais e um civil que apontava para a mulher dizendo, foi ela, roubou-me antes de prestar o serviço e ainda me espancou na cabeça, mostrava a testa com um raspão na pele meio sangrando... Os policiais se aproximaram da mulher que num gesto de desespero abraçou a menina segurando-a  contra o peito...dizendo ela está comigo...não posso ir com vocês  preciso levá-la pra casa...a mãe me confiou...A menina entontecida com a confusão e mais ainda com o perfume forte e adocicado que invadiu suas narinas apertadas contra o peito da mulher...Não conseguia falar uma única palavra...Os policiais arrancaram-na dos braços da mulher que gritava enquanto era  jogada no camburão...a menina chorava sem parar...um dos policiais a acompanhou até sua casa, num segundo carro chamado por eles...A tragédia não terminou ai...
A família da menina, gente simples e honesta, se vê assombrada com o carro de polícia a sua porta e a filha saindo de dentro, acompanhada pelos policiais...a mãe desmaiou antes de ouvir qualquer coisa...o pai indignado mal conseguia esperar a explicação dos policiais e esta sim foi bombástica: Sua filha estava em companhia de uma prostituta é bom o senhor conversar com ela...A menina ouvia pela primeira vez aquela palavra com quatro belas vogais, falada por alguém...já a conhecia do dicionário...adorava procurar palavras obscenas e outras curiosidades...mas assim proferida, quase cantada na voz alta e tudo...era a primeira vez...olhou pro pai que a puxou pelo braço despedindo e agradecendo aos policiais. Em seguida socorreram a mãe e então era hora de conversar... Conte-me tudo menina... Conte-me tudo... E então ela contou exatamente como era de se esperar que contasse...

A partir daquele dia estava proibida de falar com estranhos na rua ou em qualquer lugar...estranhos, não podia nunca mais! E então ela se inquieta pensando num murmúrio: hummm... Então é isso... Era preciso processar pra  entender por meio daquela experiência, o que era: falar com estranhos e o que era uma prostituta estranha,  o assalto com escoriações na vítima, o trabalho do policial, voltar pra casa no carro da policia, a mãe desmaiar, o pai conversar com os policiais e agradecer o favor, a proibição de flar com estranhos, e agora o enígma para ela...o estranho.
Além é claro de deduzir ainda algumas coisas sobre aquela mulher interessante que lhe causava tanta curiosidade, por que ficava sempre naquele lugar e se vestia daquele jeito? Que motivos teria ela pra falar tão pouco? O que escondia afinal? Ser Prostituta é perigoso? Como era o trabalho dela?Será que a veria de novo? O que fizeram com ela? Será que ela estava triste? Como vivia quando não estava naquele ponto? Seria uma artista? Uma freira disfarçada? Seria uma mulher como qualquer outra?Por que era considerada uma estranha? Por que se tornara estranha? Eram infinitas perguntas a ocupar a mente da menina. Passou a esperar, todo sábado, que ela viesse para o ponto, queria poder abraçá-la e dizer o quanto fizera falta sua presença nos dias todos que se seguiram daquele dia. Como esperar o ônibus  ficara sem graça sem ela  com sua  enigmática figura.Queria dizer como achava lindo seu jeito de pintar os olhos,  amarrar o turbante na cabeça, dizer-lhe  que seu perfume nunca mais saira de seu vestido, que agora não podia mais falar com estranhos e que contava com ela  pra ajudá-la a saber mais sobre estranhos...coisas assim e outras tantas mais...
O tempo passou nunca  mais a viu. A menina se tornou mulher e contava essa história quando queria dizer aos filhos pequenos sobre os perigos  de se falar com estranhos, o que eram os estranhos,  como as pessoas se tornam estranhas, onde os estranhos moram, como identificar um estranho, as histórias escondidas no estranho, como o estranho pode ser interessante e belo, por fim ela mais confundia do explicava pois, os pequenos, nunca tiveram a certeza sobre o perigo de se falar com estranhos. Ficava-lhes  a grande dúvida sobre  o que de fato era um estranho...suspeitavam de que a mãe fosse uma...falar com ela poderia ser perigoso?Ouvi-la todos os dias então seria fatal? Concluiam por fim o quão estranho era o ensinamento sobre o perigo de se falar com estranhos...uma vez que não se sabe ao certo o que é uma pessoa estranha...entranho fato.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ser artista

Ser artista é confiar em si mesmo
É acreditar que pode o que quer
É fazer o que acredita que pode
Ser artista é ser semelhante a si mesmo
Ser a expressão do que sente
Saber sentir o que inventa  
É ter coragem de transgredir
Buscar e ser diferente
É fugir do trivial, obvio e banal
Ser artista é ser original do pensamento ao fazer
É ser capaz de transtornar o conforme
Mudar de lugar o sempre no mesmo
É fazer de cada ideia um novo tempo
Ser artista é ir além do pensamento
É incomodar, inconformar é estar atento
Ser artista é saber ler o sentimento
É expressar de multiformas  o conhecimento
É reinventar.
É intrigar, inquietar, desajustar,
Fazer arte é promover o desequilíbrio que exige a busca de uma nova posição para se manter em pé
Um novo foco, enfoque, olhar
É não concluir o que ainda não transformou
É titubear diante da definição pronta e acabada...
É suspeitar da perfeição...
Indagar...indagar...indagar...
É durante o sono acordado, construir pontes
Travessias pra liberdade
Ser artista é não descansar até esgotar
...a arte de criar, criar, criar....

Primeira quinta

Era de novo quinta feira, agora a primeira do novo ano
O dia  claro  ensaiava ser quente e abafado neste janeiro
Nela,   janelas  todas abertas, cortinas esvoaçando
Vento leve, toca ainda sobras da noite, o travesseiro
Enquanto ela, mergulha pensamento, ensaia o escafandro
Pensa borboleta e sonha cada sonho ser inteiro
Riso do aconchego alcançado, suave o ar perfumando
Mais um dia  cheio de versos, sem dúvida,  prazenteiro
Pensa  Deus, afasta demonios e resgata a si mesmo
Era de novo quinta feira, ainda a do novo ano,a primeira
Tarde  preanunciada, riso escondido olhar a esmo
Tempo dos sentimentos depurarem-se no escoadeiro
Processamento de todos os lados do rio, e do abismo
Arquitetura da trilha e do percurso: o verdadeiro 
Luar clandestino servido em cristal da boemia 
Noite madrugada, silêncio postado feito escudeiro
Protege o amor,  o invento, a inspiração e a poesia
Era de novo quinta feira, despedindo-se de ser do ano, a primeira
Mas não era ele, o protagonista do poema desse invento
Janeiro era só o lugar daquela quinta feira
O ano de tão novo  tudo nele era primeiro
E ela, quinta feira, se preparava pra deixar de ser
Nova já não era, experiente se despede e anuncia
Sexta feira, esta sim é a nova primeira...
Tanto quanto ela no começo da manhã,o era, a quinta feira

domingo, 1 de janeiro de 2012

Incidente

Eu sabia que eles viriam, eu também costumava vir... Fiquei a espera, posicionada num ponto estratégico para desfrutar de cada cena que construi, com o olhar com o qual acordei nesse primeiro dia do ano 2012. Seria minha versão de uma cena do Incidente em Antares do modernista Veríssimo. Sempre desejei reproduzir algo parecido em minhas ficções, hoje a ideia veio perfeita.
Primeiro dia do ano... Dia mundial da paz, feriado, o único do calendário me parece, inteiramente respeitado pelas culturas... Nele todos os serviços param inclusive, os que nunca o fazem, por exemplo, os shoppings centers: cavernas que Saramago descreve como um mundo de ilusão a nutrir o prisioneiro do consumismo induzido, que caracteriza o homem do Século XXI. Caverna protegida para dar aos visitantes as condições favoráveis ao desapego ao dinheiro suado, pra gastá-lo com coisas desnecessárias, vazias de significados e utilidades. Passarelas de prazeres e belezas artificiais que estimulam o desejo de ter coisas, tirar da vitrine de cristal com seus espelhos reluzentes e perfumes estonteantes, o objeto do desejo e levá-lo pra casa: mundo particular, limitado, povoado da verdadeira realidade que acorda cedo com o relógio, pra mais uma jornada  de trabalho, ter mais dinheiro, e no final da semana ir ao shopping, comer condimentos que enganam o paladar, consumir ilusões que se mostram como solução pra conter a melancolia: depressões que perfazem o perfil psicosocial do homem moderno.
No Shopping Center todo o conforto resguarda o sagrado momento da compra, gesto feito de sedução que impulsiona a escolha, a prova, e por fim poder levar consigo a ilusão. Sair com ela numa caixa embalada, sacola colorida a desfilar marcas e produtos, cheios de nada...desse mundo de ilusão e trevas, cegueira que impede a consciência sobre estar nessa caverna pós-moderna...lugar que implanta e faz crescer o vicio do consumismo, nas sociedades sob os desígnios de um modelo que tem na indústria e no comércio dos produtos, a mola da cidadania e protótipo de felicidade.
Mesmo sendo feriado eles viriam meio que autômatos, desavisados de que hoje o shopping estaria FECHADO! Fiquei observando e pouco a pouco, no horário em que dia normal estaria se abrindo, os carros foram chegando concorrendo vagas no estacionamento. Eles foram descendo, com sacolas de presentes do natal pra serem trocados, ou ainda pra comer um Big lanche, ir ao cinema comer pipocas, ver vitrines e provocar vontades, distrair olhares, sentimentos, necessidades de atenção, excessos de desamor, distrair o tempo, a vida, pra viver mais rápido... Estarrecidos se deparam com as portas do paraíso de ilusões fechadas... O temor se lhes assaltam ao ver que lhes restam a realidade do não poder entrar e viver o doce engano, forma mágica de se suportar...
E então a cena mais chocante de meus ensaios literários desfila diante de meus sentidos. A multidão foi crescendo, se agrupando em direção as entradas... começavam a caminhar em volta do enorme prédio como se fosse o estranho monolito da Odisséia de Stanley Kubrick  a emitir sinais de outra civilização, interferindo no nosso planeta, neste caso, os sinais estranhos emitidos pelos shoppings centers neste começo de século, não seriam decodificados pela equipe de astronautas liderados pelo experiente David Bowman e Frank Poole enviados a Júpiter na nave Discovery, controlada pelo computador HAL...pois não   existia desconforto ou suspeita sobre ele  e seus efeitos nas pessoas... Continuam rondando feito zumbis como que expulsos de seus cemitérios –  vidas que já não sabem mais viver sem a ilusão da caverna – e assim, meio que lhes faltando partes dos corpos em decomposição, diferentes estágios, seguem circundando o enorme prédio de centenas de andares, acessados pela portas que se abrem, automaticamente, ao sinal da presença de um humano, em situação de consumo... Hoje... FECHADAS!
Passei a observar o estado emocional daquela multidão fantasma, sedenta por entrar... Espalmavam as mãos nas enormes portas de vidro, grudavam a cara nelas pra tentar atravessar com a insana vontade... o inalcançável, anular o efeito do estar trancado, com o desejo de estar dentro...
Atenta e descritiva fixei seus corpos e faces... Estavam transtornados, emitiam grunhidos aterrorizantes, os cabelos grudados nas cabeças disformes, molhados de uma gosma esverdeada. De suas bocas vazavam um liquido escuro e aquoso; dos olhos escorriam sangue misturado com linfa arroxeada; das narinas um ar acinzentado com cheiro de gás e um odor de morte passada da hora que morreu...
Escrevi meu Incidente em Antares... os mortos em decomposição, da sociedade hipócrita e carcomida nas suas entranhas. Insepultos de mau cheiro exalado, sem dúvida, constituem um símbolo e revelam bem a decrepitude ética e moral  a que retratamos na forma do consumismo exacerbado e viciante, cuja contaminação resulta epidêmica, do modelo que tem no lucro, a referência e no consumo, a sobrevivência do sistema capitalista!
Quando as portas dos Shoppings centers se fecham, abrem-se as tampas dos caixões e desmascaram a sociedade morta, putrefata na ausência da consciência crítica...
Continuo observando aquele cortejo mórbido, desolado que perambula sem controle do certo e errado, seguem assim levados, amputados na chance da consciência... Ficam ali, passam a tarde, a noite, nem percebem o que fazem,  precisam entrar, respirar o ar condicionado ao comprar... Amanhece novo dia e, no horário comercial de dia normal, sem que seja o dia da paz universal... Triste ironia... As portas se abrem e então a mentira, mais uma vez vitoriosa e triunfante, retoma  seu lugar, baile de mascarados, logotipo de fachada Shopping Center lugar de felicidade!

Olho pras pessoas diante de mim, café da manhã sobre a mesa,noite dormida aos pedaços de panetone e frutas secas, conversas sobre o fim do planeta em dezembro de 2012...pergunto a elas, sabem se o shopping abre hoje? Alguém diz: hoje não abre nada! E eu insisto, e como vão fazer as pessoas que costumam ir ao Shopping em dias como hoje ? Alguém me fala e o que você acha que elas vão fazer?
Em alguns flashes vi tudo o que acabo de escrever causando mais esse incidente dentro de mim, não o de Antares, nem o do espanto diante do monolito negro,  mas o da consciência que me arromba os sentidos, em dias que os  shoppings se abrem, os homens se iludem  e o mundo se acabe.