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terça-feira, 29 de novembro de 2011

F I M

Era mais um roteiro para meu filme a concorrer no festival do próximo inverno...No contexto pensei nos dias atuais, sociedade tumultuada de informações e multidões que se encontram desencontradas, solitárias e com a responsabilidade de viver com alguma criatividade, por opção. Nesse contexto, as tecnologias são brinquedos que preenchem o tempo vazio, trazem e levam mensagens inconseqüentes pela distância e improváveis pela inconsistência. Na escolha de temas, decidi por algo simples, tentando  linguagem e situação meio trivial, pra  maioria das pessoas, porém margeando a expressão de cinema cult...percursos criativos, finais inesperados, inquietadores... Foi com essa ideia que escrevi esse primeiro ensaio cujo centro temático é o processo amoroso vivido por um casal: um homem e uma mulher. Se conhecem numa manhã de um dia comum num lugar qualquer... Ele estava lá, assumira uma função  do qual não conhecia bem, sentia-se meio estrangeiro naquela sala onde fora um dos primeiros a chegar para a reunião, conferia mensagens do celular, conteúdos do Ipod e lia um texto no editor eletrônico. Ela aparece a porta, meio que sem direção, olha pra ele e pede informação. Olham-se. De dentro dele uma sobra de faísca semi-acesa, é repentinamente soprada...sente-se estranhamente atraído, mais que isso, seduzido pelos encantos dela (confesso que também considero esse um exagero descritivo para uma cena que ainda nem começou, reconheço, mas  me inspirou)...era um jovem intenso, romântico e colecionador de histórias que se classificavam por períodos históricos, contados em décadas, assim: aos 20 de idade teria uma namorada de 30, aos 25... uma de 40, aos 30... uma de 50 e assim buscava completar seu álbum cuja meta era os 100 anos! Não de solidão...esses eram outros cem anos, que ele também cultivava. Carregava seu álbum como uma espécie de troféu - currículo vitae. Nos anexos juntava  histórias complementares com idades e situações intermediárias, um certo pano de fundo do cenário. Dela pouco definimos, tipo enigmático desses que  mantem a imagem sóbria e serena, guarda experiências não classificadas em períodos históricos, mas, abstratos... registros das mais diversas formas de expressão e arte...Ainda da porta, espera a informação que ele busca lhe dar. Ela o olha como uma pessoa comum, fato que vai mudando com o passar das horas, dos dias, das semanas, dos meses....Isso por que ele resolve seguir seus passos, pensamentos, idéias...numa estratégia do  elogio: sobre sua beleza, o sorriso, os olhos, a voz, maneira de andar de sentar... Elogio a tudo...Exercita assim sua capacidade de adjetivação e analogia numa comunicação que aos poucos, surte efeitos inusitados nela, de quem ele não perde mais um gesto sequer, pra transformar em galanteios... Ela  aprende a gostar daquela conversa dele e ele se especializa nos detalhes, pesquisando sistematicamente mais coisas sobre ela, seus gostos, crenças,  autores, musicas,  filmes, paixões. Certa de que tinha controle sobre seus sentimentos e estaria com ele somente enquanto tivesse tempo em seus dias cheios dela mesma, suas fantasias, inventos, manias, brinquedos, lembranças, segredos... experimentou seus beijos... A princípio nada de novo... Beijo forte... Sem roteiro... Ele, atento, no propósito de se esmerar, deixa ela guiar cada movimento, pra se apropriar do percurso que ela fazia... Passou a beijar como ela queria, e ela, já não sabia mais se era ela, ou era ele, que tinha daquele jeito de beijar, a autoria... O tempo foi passando, eles se beijando, ela gostando, querendo e autorizando... Mantinha-se ele o deslumbrado... Com quem ela se envolvia dia mais dia, e na corrida para cada encontro era sempre ele, quilômetros na frente, rompendo a faixa da chegada! Marcando a nova largada. Ela se mostrava disposta, queria cultivar o sentimento desenhando a fórmula pra sua crença no amor tratado feito bonsai melindrado, feito hortelã longe do sol, feito filhote de qualquer bicho desmamado...O romance se desenvolvia, a paixão acontecia e tudo seguia como ele havia sonhado naquele dia...ela cheia de amorosidade, focada no desejo de vê-lo feliz e sereno em seus indefinidos papéis, acostumada a ele, que a fazia, amorosamente feliz e assim, tudo, pouco a pouco, em muito se arrumava como devia ser arrumado. Mas como tudo que é demais arrumado, precisa ser desarrumado pra se arrumar melhor ainda, ele acordou numa noite, meio travado por causa de um sonho meio mal sonhado que o deixou algumas noites acordado, e foi ao encontro dela, num dia que não era o marcado...foi chegando meio torto, meio desajuizado, meio anti-inflamatório, meio relaxante muscular, e foi logo falando de suas incertezas sobre os números, atribuições, total de mensagem do celular, sobre a arquitetura do seu GPS,  o percurso traçado ao encontro dela, lugar encontrado...na verdade, um papo meio furado que ela ouvia atônita estranhada...que cara...totalmente  malucado! Pensava...nem me deu ainda a informação que pedi e está aqui diante de mim como se tivesse vivido comigo um ano, no ano passado...Ela agradeceu a informação que ele não lhe deu e se retirou  pensativa cheia de inspiração pra sua poesia...ele ficou lá contando os 2000 e-mail que receberia até o natal...   escrevendo no celular a palavra do dia FIM. Do filme....

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

TOKOMYSTICKO

Eu terminava de dar a entrevista completanto...Claro que eu conhecia bares como aquele mas, entrar em um deles, cumprimentar os freqüentadores presentes e me encostar no balcão sem querer consumir coisa alguma, eu nunca fizera em minha vida...Por isso, fazia...Eu estava lá num desses botecos  de esquina que acolhe a homarada no seu tempo livre...uns  com todo ele  livre, outros com apenas algum, se reúnem pra conversar, beber,  beliscar cubinhos  de animais mortos há algum tempo, congelados e queimados ao ar livre em pequenos espetos pra facilitar o enterro final e merecido do animal.Cheguei no meio do fim da tarde, sentia-me fazendo uma visita, não apenas ao dono do bar, mas ao bar inteiro incluindo os presentes que me olharam curiosos acenei um boa tarde e fui direto ao balcão e então o vi... Entre um afazer e outro me cumprimentou quase sem me olhar, depois ficou conversando... sobre sua saúde ...não comigo...eu sim fiquei conversando com ele – olhei seu rosto conhecido em outro rosto e vi nele guardado os sinais de um ar enigmático e misterioso, próprio dos tais conquistadores...jeitão que deixa as mulheres atiçadas a decifrar seu enigma e descobrir os mistérios...e vão se deixando levar e ele por sua vez vai colecionando aventuras distribuindo no caminho corações plantados...Preciso apressar meu imaginário...o tempo passava rápido...eu tinha que entrar naquela história e então quando fui me despedir dele falei:Precisa de um balconista? (palavra mais bizarra balconista...)Ele mostrou-se desentendido, reforcei: um ajudante pro bar?Ele então num sorriso econômico pergunta... É pra você? E antes  que respondesse explicou-me ...nosso negócio aqui é de família, já tenho ajudante e não temos planos de investir em funcionários, nossa renda é pequena e não comporta...Estava gostando do caminho que percorríamos nossa conversa...Eu insisti...só quero um estágio, sem remuneração em um dos períodos apenas...o que acha? Ele então responde, não entendo muito de estágio vou ter que falar com minha filha mais velha...mas se não tenho gasto aceito, pode começar amanhã a partir das 17hs...E o que farei exatamente, posso melhorar a decoração, colocar musica ambiente, um paisagismo...ele interrompeu já com ar de chefe...ficará encarregada de preparar e assar os espetos de carne, nesse período é o que mais sai...Engoli seco quase a língua foi junto me sufocando...olhei pros lados pra mudar de foco...uma desconhecida me olhava...meio rindo...parecia se divertir  com minha quixotesca situação...pra não chorar distrai o olhar percorrendo as mesas e sua clientela que comia ou bebia...todos Sancho panças, um frio percorreu meu corpo inteiro...uma boiada com milhares de bois uns sem pernas, outros sem cabeças, todos faltando membros partes do corpo sangrando, vinham velozes em minha direção babando desenfreada... Pensei  em acordar de um pesadelo, mas isso já escrevi antes...e a história estava boa demais...pra um fim usado...a boiada aumentava quanto mais eu me demorava em decidir o que fazer...O tempo escorria rapidamente e eu comecei a ter pena de minha triste invenção...eu faço isso comigo as vezes...mas desta vez...não sei não... No dia seguinte  eu estava lá pro meu estágio de acesso ao inferno carnívoro. Ele veio ao meu encontro surpreendendo-me com um sorriso que eu não conhecia... menos pão duro, mais solícito, acho que tirou lá do fundo do seu velho baú um restinho do ser enigmático misterioso que sobrou esfarrapado...Simpático pergunta-me: e então... disposta? Tem alguma ideia pro churrasco...temos uma horta abandonada ai nos fundos...alguns tomates insistem e dão o ano todo...nossa...essa foi boa...Respondi de pronto: Sim tenho muitas idéias pro seu churrasco...muitas...muitas ideias...Isso ja faz seis meses. O bar hoje é 100% vegetariano...temos música ambiente 24hs., sucos de frutas com ervas perfumadas, o de abacaxi com hortelã é especialidade da casa, a filha mais velha cuida do cultivo e do suco e me ajuda em meu estágio...herdeira do negócio era interessada, empenhou-se. Ele passou a praticar yoga com a filha de vez enquando a esposa arrisca uma postura, temos um espaço de meditação nos fundos próximo da horta...Está totalmente curado  voltou pra ativa seu olhar enigmático e misterioso. Está feliz e a mulherada do lugar ainda mais...os corações voltaram a ser plantados fertilizando o caminho dele...delas...meus...seus que lê agora essa história...Semana que vem inauguramos a franquia TOKOMYSTICKO com mais dois pontos na região...terminei agora de atender a imprensa...Conclui meu estágio.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Acordada dormindo


Levantei acordada com uma nova ideia a se estrebuchar na cabeça...O dia estava longe de clarear a manhã... Não sabia se me alimentava com um chá... se me aquecia... O frio da manhã era inóspito e com meus pés descalços, poucas vestes, enregelando inteira, não queria perder tempo, sabia... A inspiração me aqueceria mais que meias grossas e casacos quentes...me arremesso ao escritório poucos passos do meu quarto...o máquina digital a minha espera, arquivos salvos na noite anterior, dos sobressaltos profissionais, compromissos intelectuais e pra me salvar, a poesia a alimentar o  merecido recreio com cada verso, cada palavra cheia de vogal...me esperando, algumas abertas querendo uma ilustração...o texto de Rocinante o cavalo de Quixote...passou a tarde comigo ontem...conversamos sobre sua missão de transportar o louco poeta alucinado que busca salvar Dulcineia sua amada, dos monstros que a atacam pobre coitada e inocente...e que ele tem que destruir todos os dias...são os moinhos de vento com suas pás que o trucidam pensamento, fatiam seus sonhos e inventos com as lâminas afiadas pelo vento...moinho de vento. São os monstros que ameaçam sua musa Dulcineia...Cervantes sacrificou Rocinante muito mais que Sancho o escudeiro de Quixote, figura meio tonto, meio irresponsável a seguir quase cego o trotar de Rocinante,  passos lentos ora a pé ora sobre seu burro velho e embriagado. Preciso de uma foto que não tenho em meus arquivos...quero Rocinante o cavalo, quero uma escultura de metal...meio Picasso meio Di Cavalcanti, meio qualquer outro que me inspire a imagem de Rocinante...pego a câmera, olho em volta, uma escultura de metal sobre a estante, me chama atenção, um cavalo magro e musculoso, diferente de Rocinante que era velho,  muito magro, nada atlético, muito menos modelo pra escultor se inspirar... era fiel a Quixote...mas fidelidade são traços que não aparecem na silhueta... Com a escultura nas mãos fui buscar o lugar, locação, andei pela casa, paredes de fundo, e fui pro quintal a grama crescida com as chuvas dos últimos dias estava perfeita para esconder a base da escultura afundando, deixando as patas de Rocinante sobre a relva... perfeito! Ilustramos! Nova criação nos espera...o frio passou, o calor agora me lembra de alimentar-me, e entrar oficialmente para o dia...as pessoas da casa dormem...e nesta hora ainda tão cedo...meu dia está mais vivido mais sábio e maduro... Escrito e postado... Já sou como todas as pessoas que estão se levantando pra acordar mais um  dia...o meu já pode ir dormir...e é assim que viverei esse dia...acordada dormindo em mim...velando o desejo de ser e permanecer como sou... Assim...

Indefinido absoluto

foto Suê -2011 - Tributo a Rocinante
O que torna possível levar o sonho de Quixote  adiante é contar com ,além de Sancho seu escudeiro, também com o fiel Rocinante que o transporta sobre seu dorso pra batalha, e que o trás de volta no fim dela, exaurido, ferido, mas persistente. Rocinante representa a viabilidade ainda que tênue para os sonhos de Quixote, pois não teria como transportar-se, o corpo debilitado por tantas lutas, a mente adoecida de tantos inventos e proezas, o coração tremulante de amor e desejo de manter-se vivo pra continuar se inventando poeta...se vivendo a vida que sonhou... Interromper o galope de Rocinante é colocar em risco toda a poesia da humanidade pensante que constrói utopias das mais alucinantes. É paralisar Quixote na luta que trava pra salvar vidas que pensam poder viver sem sonhar um sonho impossível, um invento sem fórmulas, deserto sem mapa, sem pistas, sem bússola ou lupa que facilite a descoberta da trilha que leva ao essencial da vida. Quixote vem de novo cavaleiro da triste figura nada errante, pois só erra quem acredita na explicação exata, na certeza absoluta, na verdade inquestionável... na inspiração condicionada... Cavaleiro da triste figura? Triste? Nem tanto... sua tristeza é relativa... é uma melancolia de fundo, cheia de poesia que a justifica e a lança de novo na batalha contra os moinhos. Que moinhos? Os mesmos de sempre que explicam coisas, justificam sentimentos, planejam o por do sol, interpretam o silêncio, calculam o tempo, catalogam desejos, definem a ilusão, cobram exatidão, fazem gráficos medidores da emoção...Nessa batalha de Quixote, pra manter nos sonhos sua Dulcineia, essa louca que ele inventou com o vento que move os moinhos que o atacam todo o tempo...essa grotesca figura que ele finge ser a virgem dos lábios de mel, mas que na verdade o assombra e vez por outra, quando sai de sob seus olhos, o coloca em riscos todos os seus inventos, deixa-lhe na boca o gosto de fel. Rocinante fiel, sempre pronto ao galope rumo a batalha pra derrotar os que buscam assaltar Quixote, revelando-lhe a identidade de Dulcineia, mostrando-lhe a engenharia dos moinhos destruindo-lhe o sentimento de luta e conquista dos prazeres de sonhar, quebrando em pedaços sua lança, única arma de combate aos ladrões de seus inventos e  pra conter os moinhos de vento. Rocinante o cavalo de Quixote carrega sobre o dorso o peso da responsabilidade de levar ao outro lado e em segurança o próprio Quixote a travar sua batalha interior, com seus moinhos de vento que dentro dele fazem o maior estrago questionando sobre cada um de seu alucinado sentimento que não tem como ser catalogado nem respondido... apenas sentido indefinido e absoluto.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Cavaleiro errante

Castelo medieval - foto Suê - 2011- dedicado a Quixote sem castelo algum
Dom Quixote, o cavaleiro errante, munido de seus apetrechos sai mais um dia pra lutar pelos sonhos que lhe são a razão da própria vida e vivê-los dia após dia aperfeiçoando cada  pensamento. Juntou todas as aprendizagens que julgava possuir, preparou o corpo para a jornada exaustiva que sabia ia ter e partiu antes mesmo da tarde cair por inteiro sobre o dia. Durante o caminho foi pensando em seus propósitos...encontrar Dulcinéia, tirar-lhe as vestes que escondem  a silhueta projetada na pintura da noite que ele sonhou, mostrar a ela sua beleza inigualável e amá-la debaixo das estrêlas, mostrando-lhe uma outra forma de sonhar a vida e de fazer acontecer o amor... e depois então levantar novamente sua lança e enfrentar  como de costume os moinhos de vento que insistem ser monstros gigantescos a atacá-lo ameaçando destruir seus sentimentos, e acordá-lo enlouquecido pela manhã em seu quarto rodeado de julgamentos e condenações, por aqueles, que como ele não sabem sonhar...não conhecem Dulcineia a virgem de lábios de mel,  e nem sabem dos perigos dos moinhos em suas pás cortantes...predadoras. Olha pra si mesmo e vê as cicatrizes da última batalha, alguns ferimentos ainda vivos causam dor e sofrimento mas não o suficiente pra impedi-lo avançar lançando-se contra o inimigo, seu corpo frágil e desejoso de viver e amar, morrendo em cada batalha pela certeza de que é só sonhando com cada invento sonhado que consegue acordar com gosto pela vida.Olha mais uma vez pra Dulcinéia em sua expressão de quem nada sabe sobre ele,  Dulcinéia que nenhuma certeza tem sobre seu papel naqueles sonhos, sem nem mesmo saber o que fazer com ele e o pior como ficar nele. Quixote cheio de melancolia se  vê nos olhos dela refletida, sua triste figura errante...de sonhos errantes, certezas errantes, que colocam em risco permanente, seu ser poeta criado por Cervantes.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Um chá sem chá.

Me convidei pra tomar um chá comigo...preferia é claro uma companhia diferente, que me apontasse outros sabores pro meu chá...mas não tinha ainda certeza nem mesmo se eu aceitaria o convite...andava meio ressabiada...fugidia, evitando-me certos questionamentos...engolindo rápido pra não dar muita atenção ao sabor ou dissabor que se me impunha estado de enércia a costumeira inquietação...Mesmo assim fiz o convite, afinal era uma segunda feira espremida entre um domingo e um feriado que não tiveram tempo de me levar pra nenhum lugar, além dessa possibilidade da escrita lúdica e de sentar-me comigo tranquila sem pressa e tomar um chá. Demorou um bom tempo pra vir a resposta tropeçando desejosa de reduzir o tempo, apressar o que sobrou para o mais rápido possível chá comigo mesma, empurrar o tempo até mais perto da ideia de outros sabores apontados por algo diferente...Fui ao meu encontro mas quem não compareceu foi o chá...ficamos lá garganta seca...e sem nada pra falar pensar ou inventar a não ser mesmo esperar...única alternativa...rezar com todas as palavras que encontrar pra ser rápido....voltar pra casa...na esperança de que possa atender meu pedido de falar tomando um chá comigo...

Bloco

Um bloco de casas de Budapeste me remetem a outros blocos, de ideias e de atitudes que se solidificam no momento necessário da edificação que acolhe e abriga os seres e suas necessidades, como os sentimentos  mas, que o tempo quando não corrói o petrifica não tendo mais como modificar silhueta. Budapeste guarda sua imagem de unidade no entanto está ela também como eu, modificada em seu interior, deixando petrificada apenas a faixada...quanto amim, nem mesmo ela eu quero assim...

Lento

Já conheço o caminho onde vai dar a escolha por essa escrita que faço agora...não dará certamente transpor obstáculos, libertando-me, nem tampouco me dará o olhar de águia que num único lance sobre as montanhas mais altas da regiões mais amplas...ver e absorver toda a paisagem e seus secretos lugares que me acolhe as incertezas e o meu próprio ser inquieto de perguntas mudas...silenciadas antes mesmo de proferidas...sei que minha escolha desencadeia ainda mais incertezas e desejos de buscar o desfecho... sem ter ainda consagrado o enlace do sonho inventado pra ser o eterno começo...que se esvai,escorre lento...

Entrelinhas

Passei horas conversando com ele e ao perguntar sobre sua arte era da minha que ele falava sem nem me conhecer...sua inspiração, o que o movia a uma nova empreitada pelas telas e tintas...tudo igual, era ele, era eu...era uma cem mil outras pessoas que pensam ser únicas...intransponíveis. Numa mistura de Van Gohg e um acadêmico dos mais amadores possíveis seus quadros se me mostravam meu próprio amadorismo diante da vida e suas armadilhas...diante de minha inconsistência filosófica...tardia vontade de saber sempre o que fazer diante das entrelinhas...espaços obscuros entre quase tudo e quase nada... enigmáticas mensagens...enganadores sentimentos que burlam a razão...chantageiam  e mantém refém o desejo...

Dentro de mim

Assim que o vi constatei: era  o  lugar indicando no sonho que sonhei ou inventei...não vem ao caso... Restava-me agora galgar as paredes até o teto de vidro e na perspectiva...do olhar do sobre e para baixo, me ver revolvendo-me nessa pequenez de ser humano que busca crescer o olhar, o sentimento e a gratidão de ver esse lugar...longe tão perto e dentro de mim...imenso em sua beleza e amplidão me reduzindo...me impedindo esconder-me ainda que dentro de mim...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Rosa choque

Passou a noite revirando-se entre leituras, desenhos, grafias e pinturas de idéias desconexas prontas pra ser edição...um esboço do pensamento que vagueia pelas páginas do tempo e do acervo construído pra relaxar o desejo de criar desmedida e sem freios... O cansaço anuncia  e chega sem lugar pra se acomodar...vai rodeando tonto lento sem chance de ficar...expulso pra outra hora e lugar. Ganha  dele sempre a inquietação criadora que revolve  montanhas de  prospectos da fila interminável, onde esperam editar o pensamento, dar forma , identidade... roteiro transgressor das regras de compositor de versos, prosa e cem mil outros gêneros...cantos de origem tribais, celestiais e tantos outros ils e ais. Mas desta vez dirigiu-se a sua paleta de cores atraída pelo ruído que vinha há dias provocando-lhe os sentidos... Aproximou-se debruçada sobre as  bisnagas meio alteradas pelo  uso na última obra pintada e exposta  na ante-sala do tempo de criar. Havia uma discussão entre duas cores no interior da paleta de cor: azul turquesa despertado no meio da noite, assombrado com sua participação arbitrária no sonho dela: o rosa choque... Há tempo ela engolia seco a vontade de enfrentamento...O trouxe para o seu sonho, como um  invento...vinha astuta e vibrante macia derretendo-se pela porta de saída da bisnaga  espalhando-se,  borrando abstratas figuras por todo o espaço que o entorno oferecia...azul turquesa , na surpresa esfrega os olhos procura a tela pedindo socorro ao pincel e sua pintora. Atordoado, sem entender que mistura era aquela que rosa propunha. ..ela por sua vez não lhe dava tempo a pensar...pobre coitado foi se encolhendo dando-lhe espaço quase sumiu ...não pretendia enfrentar, não sabia por que o faria...cheguei a tempo no sonho dela...pois dele não sobraria nem mesmo a marca no rótulo pra recompor, na sua falta, as cores pro meu céu  cobalto com  turquesa, nuance de brilho  lento  a contornar o firmamento...Dele avisto  recostada  no parapeito de minha janela, agora vestida de cor rosa,  choque intenso da inspiração, que me leva da pauta escrita,  ao mais abstrato borrão de tinta...e no  grafite que,  de desenho em desenho, vou tatuando o coração, o dela e o meu. Ela Imponente chega bem próxima de azul turquesa e o avisa...precisamos conversar...veja bem você...aqui na pauta e na paleta, sua origem é  de proveta...sua voz...de fundo,  sua dança é no escuro, seu brilho, do  avesso...aqui na pauta e na paleta eu dou o tom, sou concebida de inspiração e por isso... sou sempre eu mesma a inspiração e com razão, a minha dança é solo, é centro, é sempre. Meu canto é maestro,  sou batuta em punho, coordeno  a sinfonia, meu brilho é o farol de cada novo invento a se projetar a espera de criação. Sou rosa e chocante quando precisa, suave  e delicado quando adorno as vestes da menina, e também quando sou uma delas...sou forte e  até consigo ser vermelho se preciso e, por isso mesmo eu te aviso: azulzinho turquezinha veja  bem qual é o seu  tom e com que azul vai misturar...fique atento mas se precisar estou aqui pra  mostrar seu lugar. Fiquei de fora daquela afronta pois sobraria partes pra mim que sem saber das conseqüências, trouxera  o pobre azul turquesa  naquele dia...  ausência da inspiração titular,  me dando  ar de transgressão...na sua volta  a viu  se destacando entre as cores...me perguntou sobre aquilo...mas não esperou respostas foi ela mesma inventado...passou pouco tempo e então vi que juntou idéias e  definiu-se cor oponente  pra ter moral e enfrentar aquele azul  de sobrenome  turquesa, e defender seu posto  e domínio pela inspiração. Fiquei de fora...a observar o que fazer, se um poema, uma pintura...um riso talvez... acabei aqui...novo arquivo... pra escrever.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sem cabresto

Na berlinda em julgamento sobre suas planagens, vôos... Subterrâneas paisagens... enigmáticas expressões de ser e se encontrar em algum lugar... Sem lugar algum pra de fato estar... Mergulhos em nuvens... naufrágios...decolagem ao subsolo... Observatório da alma escondida... sem querer se mostrar...pra ninguém e si mesma...Encontra-se assim quase sempre... inconseqüente postura de quando tomada pela paixão que a move sem censura. Sente-se solta, a inventar inventos, adivinhar coisas... mover pensamentos...proposituras, numa espécie de alegria rara...desmedida...expressando-se feito mulher de riso fácil, vida dura, riscos sem fronteiras... levita feito pipa com muita linha...vento desmedido, a projetar-se desequilibrada, assim como quando o fio não está de todo esticado...ela fica...pipa com muita linha...que se desenrola sem freio nas próprias mãos como se nas de um menino que não sabe...mas se aventura, aproveita o vento... solta de uma só vez... sem dar tempo de se aprumar pra subir...fio esticado tenso, seguro e controlado na mão que dirige e recolhe em tempo do vento autorizar...pipa descontrolada e com fio demais...é ela...solta... desguiada de si mesma...vez por outra  a ameaça de cerol...tempestade de vento cortante que arranca pedaços das asas e da rabiola...desequilibra sem cabresto...mesmo assim teima em planar...sem mostrar nunca desejo de aterrissar...pés no chão...firmeza e segurança do solo...âncora que segura o barco pra não se soltar correnteza rio adentro...morro abaixo...porto seguro...linha curta e firme...atada ao braço forte do menino que é ela mesma... e que... não facilita as cabeçadas da pipa...que sem cabresto se aventura... Tomada pela paixão obscura de viver por si mesma cada imaginura, que traduz na pintura, na poesia e na própria arquitetura...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Prometo que aprendo

Entre uma observação e outra ouvíamos alguém em busca de compreender algo sobre a repetição das coisas que de tanto se repetirem não sabem mais sobre os efeitos da variação, da mudança e da transformação. Questão filosófica questão da razão...ciência sem lógica...Ele então declinava com a mesma serenidade de sempre seu argumento que vinha em minha direção...pra mudar a música você deve tocar outra tecla, outra nota musical...tem que mudar sua percepção da melodia para saber que mudanças buscar...tem que entender sobre sua atual condição musical e o que nela precisa, deseja ou necessita mudar...mas pra começar deixe desta tecla que tem tocado incessantemente....é isso que está te trazendo essa sensação de desconforto...essa  sintonia padronizada...sem nuance de musicalidade, sem matizes de diversas cores e sobretudo, sem a luminosidade que reflete linhas dando brilho e leveza a sua pauta. Afaste-se mude seu corpo de posição diante da partitura que é o seu foco, da vez, incline-se, alongue-se e posicione-se em outra postura...agora preste atenção olhe pra tecla que está tocando há tanto tempo... sua posição, seu tom, seu lugar na pauta...olhe em volta...a volta toda a sua volta...veja se reconhece a existência de outras teclas...olhe novamente pra sua e então desvie-se dela, toque a próxima a outra ao lado acima, abaixo, a frente atrás,  toque várias ao mesmo tempo faça ritmo... sabe como? Defina o tempo de cada toque, sua interrupção e continuidade... assim constrói o tempo da música e seu movimento o que lhe dará mais sentido e percepção aos ouvidos e ao corpo inteiro...Mude a tecla...sabe como? Aquela conversa eu sabia onde ia dar...na mesma margem que já conheço do rio...conhecer o rio, a margem, suas águas, seus afluentes e sobretudo sua velocidade em relação aos meus propósitos...a musica dele e o meu rio...A noite foi produtiva sai com seus acordes em meus ouvidos, sua voz calma...trombando com a minha agitação mental, inquieta e mutante de tecla a todo instante .... E sua voz ecoava...tem que mudar de tecla é isso o que precisa fazer e então tudo estará resolvido até o momento de mudar outra vez...e  outra vez...Queria lhe perguntar sobre o contrário, como se dá...quando fico a tocar cem mil teclas todas e sem parar...devo estar andando ao contrário...tocando pelo avesso a musica em minha pauta...estarei por acaso atravessando o meio do rio ao invés da margem? Sou ao contrário devo buscar uma tecla única pra esse jogo dar certo? Uma mesma tecla...pode me ensinar por favor? Prometo que aprendo...