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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Sísifo e o amor de Clarice

Clarice escolhera a maldição de Sísifo pra retratar seu jeito de amar.  Precisava de todas as forças pra mover a enorme esfera de pedra montanha acima e fixá-la no topo de onde poderia então descansar seus dias e saborear a brisa suave e pura a pairar sobre os altos.
Missão de todos os dias.
Esforço continuo e permanente.
Razão da existência.
A cada passo rumo ao topo, o vislumbre do amanhã, na realização dos sonhos, o debruçar-se na janela do tempo olhando de dentro da própria alma, o aconchegar-se entre as malhas dos inventos que adornam seu templo!
No entanto, ao ver prestes a atingir o cume, o cansaço é aumentado pelo íngreme do solo inóspito das pedras outras tantas do caminho.
Endireita o corpo tombado, ajusta as garras presas fincando o pé, força toda, braços, pernas, e... Num deslize incontrolável, toda a jornada é perdida, rola montanha abaixo a enorme esfera enterrando-se na lama tornando ainda mais difícil o recomeço da subida.
Hora de curar as feridas causadas pelas ultimas tentativas, de encontrar o aconchego que amorna o coração e deixar molhar a face ressequida, bonsai agonizante.
Beber na fonte da esperança, aprender os ritos da fé e recomeçar a jornada feita de empurrar para cima o desejo de  realizar em cada tentativa seu jeito de amar.
Até rolar novamente.
E voltar todos os dias a luta para consolidar forças e mover o amor fazendo-o refletir nas estrelas.
Ocupar o firmamento.
Transgredir a galáxia dos astrônomos e cientistas, poetas loucos!
Amor que exige o esforço de rolar montanha acima, a pedra que teima rolar abaixo, testando sua coragem de amar desmedido, cada motivo de viver o sonho, e com poesia, cada minuto da vida.
Clarice olhava a pauta diante de sua mesa, seus primeiros escritos sobre Sísifo, sentiu correr um choro silencioso pela face espalhando a tinta, borrando sua alma com a estranha sensação de ver Sísifo sentado sobre a esfera de pedra no topo da montanha apontando para ela o firmamento. Levantou-se, vestiu a roupa mais colorida que havia em seu armário e saiu pela tarde, vento soprando suave, pensamentos voando no tempo...

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Escrita Criativa um lugar


Um blog para o escrita criativa. Uma parede pra fixar lembretes, rascunhos de textos, ideias... Tarefa que acordou esta manhã espreguiçando-se pela pauta em branco. Buscamos nosso primeiro encontro nas dobras plissadas da memória. Antonia nos recebia mãos delicadas, olhar explicativo, voz suave, determinação sutil nos passos deslizantes no salão do Unganbikkula,. Mandalas coloridas do alto testemunhavam nossa curiosidade. A música do Sala Sagrada fazia fundo. Um  aroma de ervas adocicadas vinda do balcão e compunham a atmosfera. Pessoas solícitas e gentis espreitavam a hora de aproximar. Vivíamos a essência do que Solo Le Pido a Dios...A livraria num canto nos provoca o desejo com seus títulos e seus loucos criadores.

Terças feiras de surpresas! Nunca algo definido por inteiro ou rota prevista, mas, uma construção caminhante, um alvo certeiro: Leitura, escrita e leitura da escrita! Encontros de ideias que se fantasiam de personagens, lugares e situações que Antonia, com sua bússola vai sugerindo trilhas, lapidando pedras, esculpindo formas, aperfeiçoando traços, pontuando o belo, perseguindo a arte criativa da escrita livre, desimpedida! Juntos nos guiamos rumo a satisfação do leitor/escritor que partilha sua escrita identificados pelo desejo, motivados pela crença na estética da palavra construída letra a letra, graciosamente! Desejo de ver na frase algo escondido querendo ser descoberto pelo leitor. Algo que lhe faça tropeçar nos sentimentos, arremessar-se na vontade de sair de onde está, atravessar a margem, levitar na nuvem evaporada em pingos de chuva! Juntos nas terças feiras no escrita criativa que se tornou um lugar muito mais que um fazer, em que apostamos no despertar do texto pelo olhar do leitor que se torna escritor de textos adormecidos bocejando  desejosos de acordar.Quem sabe nas paredes de um blog, sem portas ou janelas, apenas paredes virtuais e nelas, ideias fixadas prontas pra se soltar!

domingo, 18 de novembro de 2012

Sem nada

Sem som
Sem sol
Sem sal
Saio pras ruas
Vejo na poça, a lua
E na janela,  a tua
Face que nua
Oculta a minha
Triste figura,
Sem som,
Sem sol,
Sem sal.





sábado, 20 de outubro de 2012

sozinha

Era manhã acabada de amanhecer e Clarice,  de malas prontas, pensava  nos motivos da viagem, os sonhos que a povoavam e as realidades feitas de impossibilidades. Um aperto no peito sinalizava insatisfação ao mesmo tempo que  desafio de poder sozinha levar-se pra longe de todos, naquele sábado de sol embassado a prenunciar o horário de verão. E Clarice imersa na paisagem que passa na janela se revela:

Silêncio
Sou silêncio
Distante silêncio
Ausente e só
Silêncio
Incertezas distantes
Silêncio de ausencias
Indubitável certeza do silêncio
Viável Silêncio
Distante  viável
Silêncio vazio
O que Sou
Distante ausente e só... silêncio...

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Me vejo











Pela janela me vejo
Debruço-me sobre meu peito
Afasto a cortina que me estampa o olhar
E  me impede desnudar por inteiro meu ser.
Procuro a chave da porta principal
A que me leva direto ao ponto
Onde me encontro
Me reconheço
Me acaricio
Pago o preço da liberdade
Salto na rima fora da pauta
Ouço a canção
Um gole de água fresca derrete o calor da garganta
Gosto de menta
Pastilhas interminaveis
Sacio-me da que vejo
Fecho os olhos e sonho esvoaçando meu ser
Pela janela
E me vejo.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Anjo

Acordei e vi, no meio da noite
Alguém o meu sono   velar
De asas, pulseiras e   brincos
Em cima da cama a me olhar

Pensei que era sonho e sonhei
Que um anjo me vinha guardar
Debaixo de suas asas me aninhei
Assim fiquei  até o dia acordar

Sobriamente












Dizer sobriamente o que penso.
Pensar sobriamente o que eu digo.
Sobriamente pensar no que digo.
Dizer o que penso sobriamente.
Conceder  sobriamente ao pensamento, o espetáculo de palavras, sobriamente treinadas pra ser campeãs
Expressar nada além do que  sobriamente penso
Pensar nada além do que sobriamente desejo expressar
Fazer sobriamente o escrito, reverter-se não em meu favor,
Mas daquilo que quer meu pensamento sobriamente dizer

sábado, 22 de setembro de 2012

Laura








Estive hoje no Museu de Arte de São Paulo. Fui ver a exposição do Caravaggio e encontrei-me com Laura. Não a via desde sua visita ao estudio onde trabalho com  fotojornalismo. Continuava com o mesmo entusiasmo da ocasião que a conheci.

Laura é uma jovem senhora elegante e culta. Gosta de arte e coleciona viagens pelo mundo. A vejo como uma personagem saida das telas de Monet, mas não tem uma sobrinha de renda, ainda. Prometi a ela presenteá-la. Laura usa roupas leves e esvoaçantes. Tem o semblante  curioso, gestos delicados, e postura de quem  está sempre se debruçando sobre si mesma. Laura tem um jeito de olhar por sobre os próprios ombros, descendo pelos braços parando nas mãos. Inclina a cabeça graciosa quase sorridente. Conversa comigo olhando para as mãos, ajeitando o colar de pérolas que desliza sobre o peito farto protegido por um exarpe tímida de seda transparente. Tem os pés nús a fala mansa e pausada, os lábios lentos mas prontos para arremessar as palavras.  Compõe o texto de sua fala ao falar.

A convidei pra voltar ao estúdio. Ficamos de marcar.

Nos despedimos diante da Meduza, obra prima de Caravaggio, a nos olhar assutadora. Laura se despediu estendendo as mãos retirando uma das luvas de cetim, um abraço discreto, um até breve.

Acabo de chegar em casa. Estava pensando em Laura. Há algo nela que me inquieta. Talvez essa aparente solidão, ou sua enigmática figura de dama antiga, modelo das pinturas de Monet.

Era tarde e estava tensa da viagem, transito cansado e lento, lua escondida, vento demorado.

Havia pouco o que fazer, um banho, um chá, uma passeio pelo último texto sobre a pauta, e o dia vivia em mim, seu último   momento. Quanto a Laura, virou refém do pensamento.

domingo, 16 de setembro de 2012

Tarde Inquieta

Eu escutava  Clarice com mais uma e mais uma e mais uma de suas histórias. Juntava todas  e escrevia essa.

Na varanda a tarde caia quente e seca. O ar parado mostrava um certo cansaço nas folhas do coqueiro que não tinham como balançar ao vento. As nuvens não se juntavam pra combinar a chuva esperada.  Mais um dia se despedia acenando pra Clarice que  aproveitava pra visistar seus aposentos mais secretos. Acomodou-se na cadeira de vime e mergulhou no aconchego do pensamento. Remexeu guardados e preciosidades do tempo, encontrou-se jovem, e reviu paixões. Releu poemas e revisitou sentimentos. O primeiro amor que não sabia ser o autor da marca dele na pele de Clarice, o desenlace e as buscas de sensações outras. Cada amor uma história de adeus, cada adeus um registro do caminho percorrido, cada caminho percorrido uma experiência.Clarice se emociona, se busca em cada história, se desenha protagonista de si mesma, da que era, que foi e que ainda quer ser ao menos fisicamente. O pensamento mudou e com ele os planos de felicidade. Mas Clarice insiste, é apaixonada pela que viveu tantos amores, sente saudades ainda que não expressa. Se ama aquela de cada história. Fico ouvindo. Ela me pergunta: Não se choca com minhas histórias? Não me acha meio maluca? Claro que não Clarice, é de sua coragem que fala quando conta sua história. Ela então se entrega a um sorrico quase riso inteiro e conta mais uma, e mais uma. Até parece que viveu muito mais pelo que  cabe no seu repertório.  A noite chega no calor da tarde e permanece quente. Me despeço dela. Vou para o meu quarto e arrumo os quadros na parede, uma das lâmpadas do conjunto de três no globo do teto, está apagada. Fico atenta ao efeito de sua falta na claridade e penso nas histórias de Clarice e o quanto elas iluminam sua identidade, mas uma lâmpada continua apagada e ela tenta recuperar sua luz recontando cada história. Quem sabe um detalhe que ficou esquecido possa transparecer e trazer a resposta que identifica essa mulher misteriosa e inquieta de si mesma.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Poema para Tói

















MUNDO FANTASIA
                          Suê Galli (1978)
Vem brincar de sonhar comigo
Vem voar pelo ar, pelo mar
Vem comigo
Viajar pelo tempo
Na garupa do Liberdade 
E ouvir histórias de alento
Esquecer deste mundo a maldade
Vem brincar de sonhar comigo
Anular toda a realidade
Já que somos pequenos demais
Vem sonhar de ser Rei
De ser dono da vontade
Bem mansinho, sem protestos mais
Vem me acontecer
Me fazer viver... Liberdade
Me tornar uma a mais
E depois veremos
O que é que se faz com o mundo
Se mudamos o mar para o ar
Se ditamos a lei do sonhar
E se o mundo todo puder
Todos numa conduta geral
Viver com um Rei, uma fada e um palhaço no olhar
Oito horas por dia amar
O universo seria afinal
Encantado
Todo fantasiado de amor!
 
 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Clarice e Loren


Clarice estava exausta depois de mais um dia de trabalho no novo setor da redação do New York Times... Contrato pontual de três meses  para escrever episódios do universo fantástico, numa das colunas reservadas a cultura literária. Como de costume Clarice fez seus próprios horários o que a  mantinha muitas vezes por mais de 12 horas na redação...hoje era um desses dias.

Ainda agitada com as ideias textuais, atravessando vielas do pensamento,  tomou um banho e vestiu-se com sua roupa confortável de dormir, na esperança de fazer repousar o corpo enquanto a mente se mantinha escrevendo por mais algumas horas.

Seu celular acusa mensagem. É  Loren, seu amigo de inspiração poética  e ficção filosófica. Loren acumula  dentre suas preferências a música brasileira.  A mensagem dizia:

_ Olá Clarice! Vamos ver um show comigo hoje? Trata-se  de uma cantora brasileira de voz e repertório que tenho certeza vai gostar. Aguardo seu retorno. Abraços. Loren.

Clarice resolve ligar para Loren.

_ Olá Loren! Acabo de chegar da redação...estou podre! Tomei um banho mas ainda não relaxei...estou terminando uma ficção pra edição de amanhã...a que horas é o show?

_ Bem mais tarde...dá tempo de descansar...é na Broadway onde tudo começa a meia noite...Vamos?

_ É penso que se conseguir descansar podemos ir . Pode me acordar daqui umas duas horas?

_ Sim claro...descanse, tem tempo. Passarei pra te pegar as 23hs.

_Ótimo... assim dá pra encarar. Ah Loren...pode me trazer aquela calça sua que eu gosto? Aquela saruel  indiana que sua admiradora fez pra você?

_ Sim claro não vou usar estou com aquela sua que me emprestou da ultima vez...a samurai...vou com ela...tudo bem?

_ Pode usar...fica linda em você! Te espero! Até mais tarde! Beijos.

Chegaram a Times Square, Manhattan   em tempo de caminhar pela praça com seus estúdios onde concentra a maior indústria do entretenimento no mundo. Os inúmeros anúncios luminosos de publicidade, a noite, tornam-se uma atração peculiar. Clarice estava animada...refizera-se do cansaço...Loren estava feliz em usava a calça samurai de Clarice e a costumeira exarpe no pescoço exibia seu porte artístico mais que atletico...Clarice vestia uma calça modelo saruel indiano de Loren...Os dois viviam trocando as roupas...tinham gostos parecidos preferências iguais.

Chegaram ao teatro e não demorou ela estava lá...a filha encarnando a mãe. Maria Rita/Elis Regina numa reconciliação em tempo de fazer 30 anos da separação...

Clarice e Loren ficaram na intimidade da companhia um do outro...juntos abraçados...como se a cantora estivesse ali unicamente pra cantar a eles...a noite se despediu com a musica, o show de iluminação e o gestual performático da cantora que reencarnava a mãe em cada agudo...

Clarice e Loren acordaram juntos.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Anjos e epitáfios













Combinamos, Clarice e eu  de sairmos numa tarde dessas, cinzentas promissoras de chuva, para  fotografar os anjos dos túmlos do cemitério tradicional de Paris...e fomos.
Tomamos o metrô  e descemos bem próximo do  Père-Lachaise...Clarice estava mais interessada nos epitáfios e nas fotos antigas dos mortos ali sepultados, eu nas imagens dos anjos debaixo do ceu cinzento. Pelos corredores que espremiam os túmulos, o chão úmido mostrava a ausência do sol...Ele por sua vez,  por mais que se esforçasse não conseguia chegar ali...tão fechado o lugar...Clarice quis ver o  Muro dos Federados,  dirigentes da Comuna de Paris   fuzilados em maio de 1871, ficamos um bom tempo paradas ali...Clarice anotava em seu bloco os dizeres em homenagem aos federados...saimos depois para buscar outras celebridades como, Rousseau, Isadora Ducan, Oscar Wilde, Kardec, Piaf, e tantos outros...Os anjos que capturei com minhas lentes eram todos envelhecidos e escuros...num contraste com o ceu cinza claro dava uma certa melancolia ao olhar demorado. Voltamos pro hotel e terminamos a noite revendo nosso feito...eu com minhas fotos e Clarice com suas anotações...

Regras Construção do Texto


ENSAIO: REGRAS DE CONSTRUÇÃO DO TEXTO (Suê -10/07/2012) Fundamentado em Aspectos de uma polêmica de Jean-Paul Sartre
REALISMO

Pensamento claro e distinto  - Mundo  – direito (como  contrário ao avesso, anverso)
Lógica é direita “lógica Aristotélica” -  baseada no princípio de identidade – que não comporta contradição – ou seja: O que é é - O que não é, não é e nada pode ser e não ser ao mesmo tempo. Indivíduo existe
Tipo – uma estrutura dada  - Homem – instrumento - Existe uma racionalidade confiante ou não.

PERSONAGEM – uma pessoa que existe, tem definidas e comprovadas suas características físicas, ocupa um espaço com endereço e delimitações, mostra-se tal qual se vê.  

 TEMPO – demarcado pela explicação do presente real, do passado acontecido, compreensível e sem sinais de ficção ou conjecturas. É senso comum.
 
ESPAÇO – como o tempo é também delimitado, reconhecido sem esforço do leitor por retratar o universo real e conhecido. Explicita limites claramente perceptíveis. É senso comum.
 

AÇÃO – são próprias da realidade, possíveis de serem realizados e aceitos, quando causadoras de espanto, os detalhes ajudam o leitor a visualizar e entender facilmente. É senso comum.

 FANTÁSTICO

Universo determinado por leis (contextos que determinam o que pode e não pode ser) Sistema fechado - Mundo do avesso – anverso - Lógica do avesso – inversão – ilógico  Proliferação de signos que nada significam - Universo movediço (sem estabilidade alguma) Subversão da racionalidade - Homem está dentro do universo (como fantástico, também ele pode ser, o é)

 PERSONAGEM – seres, elementos, identidades que são parte do universo onde tudo pode ser o que não é pela lógica racional. São despidos de toda e qualquer possibilidade de explicação ou justificativas que não sejam próprias do contexto. São livres de qualquer limitação do possível ou do aceitável pelo senso comum.
 
TEMPO – independente de situar-se entre as regras do presente, passado e futuro. Pode ser qualquer um, todos eles e nenhum deles. Um tempo descrito como inexistente por exemplo. Dispensa explicações para provar sua veracidade histórica, lógica.

 ESPAÇO – como o tempo é também livre de protótipos conhecidos pelo senso comum. Assume características  do contexto e suas especificidades fantásticas.  De identidade coerente com o tempo, personagem e ação o espaço se insere movediço subvertendo qualquer ordem da estabilidade ou equilíbrio.

 AÇÃO – responde ao tudo pode o que permite a invenção. É livremente deslocada do possível, aceitável e do conhecido pelo senso comum. As ações promovem e dão asas ao imaginário numa desacomodação e desequilíbrio que vai do desconforto a busca de organização mental para apropriação da imagem e ou da sua descrição. Promete aventura sem limites ou regras que não, inseridas no universo.

 ABSURDO

Deslocamento de sentidos - Dentro de um mundo em anverso - Total ausência de um fim ou de um objetivo - O homem está fora do universo.

 PERSONAGEM – Não se define como seres, elementos, coisas em qualquer padrão ou modelo pois não tem para ele um universo descrito, explicitado em suas formas e leis.

 TEMPO – causa espanto por não se situar num contexto. Espanto sem direção. Era um dia de sol na noite que se perdeu no celeiro e deixou os soldados sem munição. O baile já ia começar e um maremoto levou a cidade para as nuvens, então se comemorou o aniversário do menino que não nasceu.
 
ESPAÇO – como o tempo, o espaço não tem vinculo algum com o personagem o tempo e a ação. Ele se inscreve independente.
 
AÇÃO – não se corresponde com personagem, tempo ou espaço. Limita a fazer o quer fazer, sem preocupação com ser aceita dentro de qualquer regra ou senso de conduta. Causa espanto sem conexões que permitam compreensão. Não querem ser compreendidas a partir de um modelo.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

bagunça

O tempo vai e vem dia após dia...inaugura fatos sentimentos...recupera lembranças...quer viver...quer ficar no passado com o de melhor vivido...passar o rascunho, a limpo.O tempo chega novo hoje em dia...Clarice espreitava a noite... madrugada se aproxima sorrateira pela janela entreaberta de seu quarto, alma viajante...Clarice olha em volta e dentro dela...uma bagunça se instalara em seus aposentos mais íntimos...Tenta por ordem ao caos que já não define mais  o lugar das coisas, desiste, fecha o arquivo sem terminar o texto que nem começou... deixando em branco a folha. Sente o peso do dia mal acabado, apressado adiado em cada minuto seguinte...desliga tudo, fecha as janelas e leva-se pro quarto segurando-se pelas mãos, a sua a dela mesma...na outra que é ela.

sábado, 4 de agosto de 2012

Tempo de dizer

Surpreendia-me a caixa cheia de mensagens e nenhuma...a que eu esperava...costumava me escrever  todos os dias e hoje...já passava da meia noite e nada...silêncio manifesto em ausência de noticias...Tentei entender aquela mulher religiosa e dedicada a palavra...sabia que era seu dia de ir a Igreja...conversar com Deus...torná-lo ainda mais cheio de significados com sua súplica sobre algo novo para ela ou para um amigo... reparte sua fé com os que ignoram o que é amar e sentir-se amado por Deus. Pensava nela e no que a teria feito silenciar hoje...encontrara será, uma nova motivação que não a de enviar mensagens cheias de esperança e alegria que já faziam parte do meus dias? Lembrei-me que nunca dissera isso a ela...falha minha...sim uma enorme falha...Eu estava agora mais que nunca decidido a lhe dizer  sobre os efeitos de suas mensagens em meus dias...o quanto elas me remetiam a significados para momentos insípidos que me fazem as vezes  desejar retornar ao útero materno...mesmo sabendo que ele já não há...Hoje eu preciso dizer...e o farei em resposta a essa mensagem que espero agora com o coração apertado num nó que estrangula a respiração...feito gravata de seda barata...do vendedor de enlatados...portas cerradas...venda fracassada! Bolsa vazia...dívidas!
Esperei um pouco mais...um banho...um capitulo da leitura...e então o toque  anuncia no celular sua comunicação por fim...Uma sensação estranha me toma,  uma espécie de pavor inexplicável me impedia de ler...busquei um copo  d'água...vaguei pela casa arrastando os cintos do hoby soltos pelo chão...copo entre os dedos...cansaço pendendo sobre os ombros...melancolia...um cheiro adocicado me enjoava o estômago trazido pelas narinas numa náusea que lembrava mêdo misturado com ansiedade...cólicas emaranhavam minhas entranhas contorcendo-me...Respirei fundo e resolvi encarar todos aqueles sintomas e ler a mensagem...acessei seu nome e lá estava:

Resolvi partir pra te fazer sentir  falta...mas já passa da meia noite e você ainda não notou  minha ausência...conclui então que não faz diferença minhas mensagens atravessando suas manhãs, tardes e noites... minhas palavras te saudando com esperança e desejos de felicidade plena para seus dias...minha insistente vontade de te provar o que somos e podemos ter...acabo de saltar do nono andar do local onde enviei flores no dia dos namorados...ocupei todos os espaços de sua mesa de trabalho com rosas vermelhas gigantes como o meu amor...rubras como o sangue que certamente escorre de minha boca quando estiver lendo essa mensagem...se correr na janela verá o movimento aqui embaixo onde meu corpo é recolhido...Eu só queria que sentisse falta de minhas mensagens e me dissesse um dia...mas tantos se passaram e nunca me disse...então resolvi saltar fora dessa nave...desafiei minhas asas...aquelas onde você  se aninha...mas constatei... só funcionam com você sob elas...adeus.

Corri para o banheiro segurando o vômito...não sabia o que fazer...me sentei no computador abrindo arquivos, procurando pistas, portas de entrada...janelas que me permitissem saltar... voltar no tempo...Nada! Já ia desfalecer  quanto um toque insistente em minha porta me tira dali. Desço as pressas como se esperando se completar a tragédia...quem sabe encontraram meu endereço em suas coisas e estão vindo me chamar...abri a porta...

- Oi! Ocupada?

Eu disse: sim, não, isto é, estava escrevendo um  conto novo...venha quero ler pra você...

Era a pessoa que  organizava os arquivos dos diálogos do meu novo livro...Lí para ela o conto trágico...aprovou como sempre fazia...trabalhamos o resto da tarde.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Pimenta rosa

Estávamos Clarice eu numa feira dessas que se vende desde chapeus e luvas até condimentos e artesafos de cozinha...Passarámos por Lyon e agora dormiriamos em Saint Rèmi. Clarice estava encantada com os condimentos...foi logo pedindo ao vendedor, arranhando seu francês espanholado...
- me mostre por favor...me ensine sobre todos!
O vendedor simpático a acolheu com interesse...eu a seguia de perto...me surpreende como essa mulher se encanta com tudo o que vê...fico emocionado...e cada dia mais apaixonado também...estar ao seu lado me acalma os dias.
Acabou comprando a pimenta rosa em grãos...saimos de lá combinando nosso embarque da manhã seguinte...sabia que era difícil pra ela sair cedo da cama...gosta de ficar caraminholando ideias e pensamentos, recordações e invenções que não se cansa de inventar.
Foi uma bela viagem...rápida mas dinâmica...visitamos lugares bucólicos...Clarice escreveu vários projetos literários.
Chegamos hoje pela manhã...ela ainda dorme...estou aqui preparando nossa salada para estrear  a pimenta rosa...já sinto saudades daquela tarde condimentada que se distancia e me perco nas folhas azeitadas e refrescantes...Vou acordar Clarice.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Sobressalto

Clarice acordou no meio da noite com as ultimas imagens do sonho que sonhara...estava
convencida de ter feito tudo que devia fazer...consciência calma...peito sereno...coração
sossegado...caminho por fazer rumo ao  plácido anoitecer...fizera tudo o que devia fazer...explicara a si mesma as condições para sua felicidade...a necessidade de um
calçado confortavel pra pisar solo pedrento... um casaco a próva do vento...maremoto do
coração rebentado e vazando pelos olhos em dias de sobressalto...era necessário...Veio
então a  paz tão procurada...perseguida como escape da melancolia...grito de liberdade
ainda que tardia...Clarice sabia...não era noite, não acordara e nem eram ultimas as
imagens...não era sonho e também não sonhara...vivera de fato tudo aquilo que sabia...era
o que esperava. Dera o primeiro passo...e mesmo tendo se desviado...sabia...tinha como
voltar...Clarice adormeceu no meio da tarde...novidade...no meio da tarde.

sábado, 28 de julho de 2012

Vivi só...sem amigos...

Vivi só...sem amigos...
Frase inicial  de Saint ExuPèry no Pequeno Principe.
Estar só ou rodeado de amigos - eis uma figuração digna de soliloquio.

Clarice acreditava  viver só...revelava isso na maioria dos escritos que conheci. No entanto ao buscar esse seu estar só...na escrita endereçada  percebo que era rodeada de amigos que moravam no seu imaginário e que a inspiravam. Amigos que viravam personagens  representados por ela mesma...todos eram ela...que continuava acreditando não ter nenhum...

Um amigo para Clarice, foi o nome da campanha que iniciei como pessoa preocupada com o destino dessa mulher que se perde em cada esquina da maquete de seu mundo. Ao se perder e ter que voltar descobre outros caminhos que a levam para mais um pouco do desconhecido que compõe seu quadro.

Surge  o primeiro candidato a amigo de Clarice...disposto a ouvi-la, percebê-la e partilhar com ela suas angustias, dúvidas, prazeres e alegrias...desafiado a compor sua felicidade.

Clarice aceita e passa a escrever novos textos sobre seu estar só sem amigos...tem agora com quem conversar esse assunto. Nos diálogos que seguiram Clarice se apaixona e o amigo torna-se então seu amor...Nova dúvida vem alimentar o tormento criativo de Clarice...sobre  amor se tornar amigo, amigo se tornar amor...

Achei melhor passar a tarde de hoje com Clarice, mostrar-lhe um novo quadro que comecei pintar e combinar com ela uma caminhada na praia e aproveitar o sol que neste inverno tem sido ponto de ouro das manhãs.

Ela aprovou a ideia queria também me mostrar seu novo projeto literário um ensaio sobre: Viver só sem amigos...

Fico pensando se devo insistir ou se Clarice é tudo isso que a inspira inexplicável, ilógico, e que torna sua sensibilidade aliada a originalidade de seu ser desprendido de rotulações e identidade. Me distrai com os pensamentos e a perdi de vista...


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Desmorrer


Ela estava deitada em sua mortalha coberta de flores brancas sob o véu de rendas. Seus olhos semicerrados deixavam uma fresta de luz entrar...sua pele ainda mais branca não se esfriara de todo...me esperava pro nosso adeus...na capela, o velório... amigos anônimos se misturavam com a curiosidade daquela morte inexplicável...em hora errada...ela parecia feliz ultimamente... a mãe cansada de chorar aguardava o sepultamento torcendo entre os dedos um rosário cujas contas gastas e amareladas eram torturadas numa prece tátil. Me aproximei  daquele leito de madeira que a vestia agora. A situação não era de acreditar era sim de fazer alguma coisa pra reverter tal cena... Fazê-la quem sabe, desmorrer. Conhecemo-nos um ano antes desse dia... Queria se casar ter uma casa só dela com paredes pra pintar... eu procurava  um segundo emprego pra complementar renda...tempos difíceis... Estava recém-divorciado... Casamento fracassado... Sonhos demolidos. E ela a me relatar incansável seus planos. Achei que estava brincando de descrever detalhes minuciosos...o que fazia muito bem...Confesso que não levava muito a sério mas acabei me apaixonando por suas ideias...passei  a partilhar  sobre ter  paredes próprias e pintar nelas nossas cores e palavras refazendo o conceito de vandalismos de pichadores. Nos casamos mas nossos momentos descompassados dificultavam nossos planos de sonhar juntos...No mês passado nos despedimos ela se mostrava bem apesar de triste... não queria que terminássemos daquela forma...Nossas paredes ficaram inacabadas, obras pela metade outras apenas rascunhadas...no mesmo ritmo de nossos sonhos...rascunhados. Viajei a trabalho, assumi novos projetos e ontem pela manhã recebi o telefonema  avisando sobre isso. Estou agora diante dela a mulher que sonhava ter paredes  próprias pra fazer delas suas telas móveis...estava morta.Não tive como realizar todas as promessas que fiz a ela...ela não teve como esperar seu tempo era outro, os momentos descompassados lembram? Me aproximei e inclinei sobre ela beijando-lhe a face sussurrando...o que quer que eu faça pra você desmorrer? Posso derramar lágrimas em seus olhos pra despertar...quer isso? Pode me mostrar? Ela então num movimento imperceptível disse me beija. A emoção me fez brotar lagrimas que caiam sobre seus olhos semi cerrados pelas fretas que deixavam entrar ainda a luz, lembram? A beijei então e ela abriu os olhos como se despertasse de um sono adiado...pergunta-me: Vamos mesmo nos dar aquelas paredes?

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Sem elas mesmas!

Era o final da festa beneficente, poucas pessoas resistiam sem vontade de ir embora.  As barracas de alimentação já começavam desmontar quando recuperei uma ideia agonizante...a salvei em tempo. Me dirigi ao animador um locutor de voz de tenor e falei:

_Vamos provocar esse pessoal? Pode por favor anunciar esses livros?

_Sim, vai projetar também? Perguntou-me.

_ Sim já estou com os arquivos,  é só falar no microfone para chamar atenção...

 Os livros eu levara para doar no bingo solidário. Não foram aproveitados. As outras prendas foram mais interessantes segundo a organizadora...Mas eles ainda estavam ali, o bingo tinha terminado, mas tínhamos o microfone, o animador, as pessoas que queriam permanecer...e poderiam render alguns dinheiros para a Instituição que apoia crianças e mães carentes. Num telão aparecia a imagem da capa do livro e seu valor, quase simbólico.  Ao lado, a tela se dividia, mostrando  na pesquisa Google o  preço real do livro nas livrarias, cinco vezes mais caro! Pensei comigo vamos vender todos! Meu entusiasmo me fez buscar mais e mais exemplares de dicionários, literatura infanto-juvenil, romances e documentários...Senti uma  felicidade latente vendo aquele final para a festa barulhenta e cheirando a churrasco e quentão.
O apresentador ia mostrando um a um.
De repente olhei em volta... As pessoas que ainda conversavam e bebiam começaram ir embora.

A festa acabou.

Os livros?

Voltaram todos pra minha estante.

As pessoas? Foram pra suas casas sem livros... Sem elas mesmas!

domingo, 1 de julho de 2012

Marché aux puces


Era mais um daqueles dias gelados que me tirava do abrigo adptado para morar e trabalhar, aquecido pelas brasas da lareira.
Bem antes do dia clarear, saía com a bagagem de caixas e mochilas de lona onde carregava minha mercadoria para uma dessas feiras com diversos vendedores que se reúnem ao ar livre para comercializar bens antigos, semi-usados e outras quinquilharias, inclusive peças de arte de fabricação artesanal.
Era o conhecido  "Marché aux puces" de Saint-Ouen, nos subúrbios do norte de Paris, um dos quatro mercados ao ar livre, lá existentes.
Antigamente, a venda de peças de roupas, muitas vezes infestadas por pulgas deu o nome a esse brechózão, tão procurado pelos turistas de toda parte do mundo.
Eu montava minha banca entre a de um ourives belga e um escultor em joias de madeira, brasileiro com cidadana europeia-italiana. 
Muitos estrangeiros se valiam daquele comercio para sobreviver, outros para ocupar o tempo aliando a arte do comercio uma de suas riquezas.
Eu vendia palavras e letras.
Meu produto ficava exposto em uma bancada de madeira sobre um cavalete, e coberta com tecido de juta claro. Nela espalhava as letras de um lado e as palavras de outro.
As pessoas se acercavam e eu ia logo mostrando a elas meu tesouro.
No início ficavam estranhadas, pareciam não entender muito bem pra que serviam aquelas letras e palavras, ou melhor por que as comprariam. Era quando eu entrava com meu argumento, construido também de letras e palavras,  arrumadas para construir a frase ideal pra pessoa certa.
Eu olhava pra elas e numa quase brincadeira, jogo ou magia, eu dizia: Suas letras devem combinar com a cor de seus olhos, a tecitura de seus cabelos e o tom de sua voz, portanto, fale algo que traduza o que gostaria de ser e saber sobre si mesma.
E então a pessoa se mostrava enternecida com a experiência proposta e começa a falar timidamente no início, depois mais entusiasmada e por fim quase exclamando dizia: e que palavras acha que cairiam bem em mim?Eu poderia ter uma frase?
Dai pra frente tudo era arquitetado na direção da poesia metafórica. Instalava-se o perfume no ar. Letras, palavras e frases flutuavam sobre a mesa num texto mágico.
A pessoa saia com suas letras num pequeno envelope, como se levasse um tesouro. O meu! O seu!O de quem reconhece nas letras, as palavras que nos levam a lugares, cheios de lugar nenhum... a espera de serem construidos os  que quisermos.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Repleto

Meu manacá floriu outra vez. Exuberante como  bons pensamentos sobre a primavera em pleno inverno. Passo por ele várias vezes ao dia mas é a noite que ele mais me atrai. Todos que passam por ele não conseguem deixar de  admirá-lo. Percebo que ele perdeu a timidez do início. Sabe exibir-se! Sabe que é lindo e repleto!

Labirinto: o meu!


Tenho um labirinto dentro de mim... Eu nunca pensara nisto, mas de uns dias pra cá ando perdendo a direção dos lugares pra onde quero ir e sinto-me como num labirinto sem entradas e saídas definidas. Estava em minha cama quase pronta pra dormir, tirei as meias de lã que usei em minha ultima viagem internacional, ficaram grandes em meus pés, mas a uso em dias frios. Ao me acomodar sob as cobertas vi um dos pés de minha meia atravessando apressada sobre a cama, levei um susto e tive que explicar... Receosa de não ser levada a sério arrisquei: é que eu vi minha meia correndo em minha direção bem aqui na cama... Olharam-me estranhados e logo vi que minha explicação não combinara nenhum um pouco. Tentei esquecer o assunto, mas outras coisas começaram correr a minha volta, as paredes corriam a mobília também, mas o que mais me deixava curiosa era quando o chão se movia veloz em redemoinho sob meus pés parados no mesmo lugar. Comecei a pensar que talvez meu corpo estivesse se tornando circular. Não combinava também! Não podia ser eu! Eram mesmo as coisas que rodavam! Eu tinha quase certeza, e foi exatamente por causa desse pequeno quase que dei ouvidos quando me disseram que podia ser o meu labirinto. Fiquei animada com ideia e logo de cara me veio o título de um filme que minha mãe gostava: Labirinto de paixões! Ora se eu tenho um labirinto que me faz rodar, posso ter paixões em montanha russa!Fim da história: tenho exames de sangue pela manhã e passarei a tarde toda fazendo testes que avaliam possíveis alterações nas curvas do labirinto. Preciso ir dormir, pois temo não encontrar a saída dessa história, já que meu labirinto está em ação confundindo meus passos.

Ontem a noite

Estive com Clarice ontem a noite. Veio com Beth vestida de vermelho e preto, revezando com um branco suave e transparente adornado com panos leves esvoaçantes a deslizar por sobre os ombros, dando um toque de balé clássico ao seu caminhar...gestos teatrais, voz de sotaque e a mesma graciosidade feminina de outros tempos. Continua fumando muito apesar  das campanhas anti fumo e de minhas inúmeras investidas pra sua renúncia a este vício que já faz parte de seu gestual compondo palavras e frases em cada acender e apagar, levar aos lábios e tragar. Nos distraímos conversando sobre assuntos que nos incomodam positivamente. Beth foi paciente, intercedia apenas quando Clarice a procurava com o olhar. Nascida na Ucrânia de pais judeus,  é mais brasileira que nossa bandeira...misteriosa até pra consigo mesma Clarice insiste nessa busca de sentimentos que retratam sua alma inquieta. Fizemos planos para nossas férias em julho. Vamos escrever juntas, já pensamos em alguns temas para um roteiro de cinema. Clarice continua animada com a  ideia de roteirizar e produzir cinema e eu, nem preciso falar desta paixão acumulada. Apesar da noite deslumbrante com a lua sorrindo tímida pra nossa conversa animada, nos despedimos cedo. Clarice tinha que viajar de volta com Beth e eu estava acompanhada com amigos que tinham compromissos incompátiveis com os meus e de Clarice.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Coragem

Não lembrava mais onde havia guardado sua coragem...procurava por toda parte...e cada parte que encontrava a coragem não estava. Escreveu pedindo ajuda ao mapeador de coragem...entidade que mora nas nuvens, viaja no tempo e escreve poesias com marca d'água no deserto. Conheceu-o num filme de Hitchcock usava uma enorme capa azul com o mapa mundi envelhecido no peito...era uma tarde de janeiro e as ondas do mar eram de Varadeiro, no prato uma omelete de amoras que Benjamin, o Walter, recomendara, no copo, água quase potável, no coração a busca da coragem...novamente... agora noutro tempo, mesma necessidade...Esperou enquanto olhava no firmamento o fenômeno astrológico que a chuva atrapalhou a visão, escutava a música da melhor banda da cidade cujo prefeito desapareceu levando consigo as chaves,  e veio então a resposta, ficou decepcionada nada que já não conhecesse.... afinal quem não sabe que a coragem está dentro dela mesma se compondo feito casulo em borboleta pronta pra voar...mas a dela era diferente...aprendera que há pessoas que temem as borboletas...talvez as mesmas que choram ao invez de escrever, respirar ou simplesmente voar como elas, as coloridas  borboletas.Percebeu que estava mesmo numa situação que exigia muita coragem...continuou procurando sabia que tinha guardada dentro de si em alguma gaveta da estante do solilóquio, pintada nos telhados das casas sobrepostas inspiradas em Escher, sua coragem ao pintar as estações da via sacra, via crucis, calvário de Jesus seu filósofo preferido, estava bem perto de encontrar, moveu novamente os quadros da parede, abriu janelas voou com elas,Lés Maries, as virgens de Chagall, aterrissou num bloco de anotações, próximo a paleta de cores, bisnagas e frascos, fios e condutores de ideias e inspiração...encontrou... estava ali sua coragem pronta para agir...reinventada.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Despedir

Clarice prepara todas as despedidas que quer despedir, todas as conversas que já não quer mais conversar,  todos os pensamentos interrompidos no percurso mal traçado...sobretudo quer despedir-se de sua mais recente chegada...trabalha incansável nessa despedida, põe  nela adereços de carnaval, galões de farda de heroi, perfume matinal...Clarice prepara todos os dias essa despedida que quer despedir, explica por mais de cem mil formas de explicar por que não tem mais sentido consentir e ficar...quer se despedir...junta motivos, lapida o cristal da translucidez necessária...vai se despedir...partir com malas rearrumadas...ficar livre das horas marcadas, dos pensamentos descobertos, dos percursos trilhados sob os holofotes...ficar livre para os mistérios que sempre povoaram sua varanda interior...Clarice quer se despedir .

Despedida

Tenho construído minha despedida a cada chegada, a cada despertar do dia, a cada encontro com a noite, a cada palavra perdida no olhar, que não consegue mais aportar sem denunciar seu brilho de transmutação pelo desejo e paixão, contidos no cabedal de inspiração que move  dentro dela mesma: a vida de uma poetiza.
Me despeço de mim mesma a cada penetração de meu olhar pelas frestas de minha janela entreaberta, entre muros, entre lugares proibidos e inventados pra ser vividos ainda que só na poesia.
Me despeço do que me aprisiona o pensamento e inspiração ancorada num único porto inseguro por que seguro demais...me despeço da que eu sou quando não quero mais ser a que eu fui a minutos atras...


domingo, 10 de junho de 2012

sobre desertos

Clarice chegara a tempo de ouvir a pregação do jovem pastor empenhado em manter seu rebanho com exemplos de Izac. Numa parceria com o jovem cantor, seu partner, o animador evocava verbos sonoros seguidos das exclamações que finalizavam frases de efeito estufa na medida  em que ficavam contidas todas elas no cérebro de Clarice. Falava sobre o deserto, lugar inóspito e inadequado... onde nada germina, senão sofrimento...Deixar o deserto e sair em busca do ser livre pra ser feliz...palavras do pastor que motivava a resposta do coro: Amém! Clarice se perguntava sobre seus desertos pessoais, desertos de estimação, desertos circunstanciais, desertos acolhedores de seu desejo de encalusurar-se pra ver da janela, o luar dentro dela, sol brilhando, brisa leve a tocar seu rosto enquanto a saudade, um deserto inteiro cabe nela. Clarice então definiu seu deserto.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Beleza

A beleza do vazio está nas possibilidades de seu preenchimento...

A beleza da solidão está nos espaços a serem ocupados dentro dela...

A beleza do abandono está na remota descoberta e reencontro...

A beleza da saudade está na distãncia e impedimentos de suprí-la...

A beleza da tristeza está na espera de chegar a alegria

A beleza da morte está na certeza da vida

A beleza da amizade está na pureza do sentimento

A beleza da prazer está no percurso até se chegar a ele

A beleza da vontade está na escassez que a torna raridade

A beleza da agonia está na expressão de seus motivos

A beleza da desgraça está na lembrança da felicidade

A beleza do pranto está na ausência  do riso

A beleza de escrita está na  mensagem escondida

domingo, 3 de junho de 2012

Toque para Clarice

                    o sol era quase meio dia...
                    a lua se vestia...
               a chuva fina e fria, chovia...

Clarice  acordou com o toque do seu celular avisando-a que na noite anterior, ela dissera a ele que queria caminhar logo no inicio da manhã. Não conseguia abrir os olhos, o corpo reclamava a noite anterior, a festa as pessoas, a definição de identidades, a caracterização de desejos, vontades, papéis... A decoração non sense daquela casa adornada de tudo que se mostrava um nada a se acomodar em cada canto... Paredes cheias de recordações e vazias de inspiração... Histórias sem nenhuma história, sem nada! Virou-se procurando uma posição que a ajudasse despertar... Novamente o celular... E então se levanta... Veste-se e sai na caminhada pra conversar com ela mesma... Alguns minutos e está diante do lago, vendo-se nele refletida... Matando a saudade, fazendo nascer a esperança naquele dia que apenas começava e já era despedida... o sol era quase meio dia.

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A tarde ameaçava anoitecer... Clarice se agarrava as horas pra que não passassem tão rápido... Buscava vencer a vida fictícia e metafórica pra fixar a realidade, na escrita... Sua arte, como uma atitude diante do que é e quer ser, quase sem ar... Alça voo, pipa sem controle do fio... Escapa da rotina estúpida da vida cotidiana, dos conceitos e padrões, do obscurecimento social no isolamento e negação do individuo. Faz no seu silencio a materialização do romantismo  num protesto apaixonado contra o mundo catalogado num elenco de itens que não a incluem...procura o lago e nele seu reflexo, procura a manhã e escuta de novo o toque do celular avisando-a que queria caminhar logo no início da manhã...a lua se vestia...

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Conversava sobre a solidão. Clarice ficava embriagada ouvindo o jovem escritor a descrever sentimentos que a ela, familiares, a tomam desde sempre... Sobre ficar sozinho (a)... Em silencio, contato direto e intenso, total, com o que somos... Dentro de nós, único lugar e abrigo que edificamos para nos manter confortáveis na solidão estética e íntima, manifestada em nossa Quixotesca figura... Em nossos blocos de anotações, albinhos de fotografias, paleta de tintas, tocos de madeira, restos de qualquer coisa que nos resta criar algo novo... Ideias quebradas, pensamentos mutilados pela exclusão que sofremos sem alternativas que não a de voltarmos pra dentro de casa e ficar lá... Aconchegados, sem ameaças, silenciados, ouvindo nossa musica interior, nossa despedida e abraço de quebrar os próprios ossos...Clarice revira-se acomoda-se no travesseiro perfumado e sempre fiel... não consegue dormir, num movimento  decisivo programa o celular...acordar para caminhar no inicio da manhã...adormece com um sorriso ensaiando escapar pelo canto dos lábios...lá fora a chuva fina e fria chovia...