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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Dormir



Era manhã última do fim de julho. No ar um cheiro de brisa fria, no chão, marcas da noite. Ela mal dormira.  Madrugou de receio de perder a hora. O trânsito.  A carta de motorista vencida e os riscos de apreensão! Tudo para compor o cenário daquela manhã de exame final. O prédio ainda estava fechado, as árvores faziam sombra escurecendo ainda mais o lugar. Ficou dentro do carro esperando o sol vir dar início ao expediente, abrir as portas  de entrar. Aproveitou pra  ler mais uma vez o texto. Estava cansada dele! Incontáveis vezes seus olhos o percorreram...precisava entregá-lo a público. Soltá-lo  com asas feitas por ela. Era naquela manhã. As pessoas foram chegando para começar quando ela já estava quase no fim de sua espera. Sorrisos e suspense, certezas e emoção para dar gosto ao sucesso, para parecer difícil aquilo que pra ela já se tornara natural. As palavras começaram a flutuar na sala e a defesa teve lugar sem ataques, ninguém usou as armas costumeiras...não cabiam  naquele alvo. O tempo escorreu feito baba de calda doce e com ela o fim da solene apresentação. Pronto! É hora de dormir sem pressa. Sonhar com nova onda arrebentando na calçada, refrescando o rosto, umedecendo o sorriso vencedor.

domingo, 21 de julho de 2013

Voltar


Precisava voltar pra casa, mas não queria. Preferia ficar onde estava. Aproveitar o clima de verão estendido, sol interminável refletido nas ruas quentes e movimentadas de pedestres do mundo.
O céu não escurecia antes das vinte e duas horas, exagero de luz!
Sons multilíngues, cores multissons, costumes multiformas, gostos multidões!
Ruas de pedras, paredes de história, janelas abertas, memórias!
Precisava voltar, mas preferia sentir um pouco mais aquele cheiro de lugar distante de casa, de gente com pressa de fazer nada, de pessoas munidas de mapas e bussolas, mas, perdidas!
Ponto de chegada e partida, um presente, uma lembrança  pra levar pra quem não veio e não viu, não sentiu, não cheirou, não ganhou, só perdeu. Ficou! Me espera, me analisa, me confere a lista, me cobra o tempo, me exige chegar voltada pra casa. Eu mesma!
Precisa mudar de roupa, de clima, de meio de transporte, de tema literário, de companhia de  viagem, de cara pra foto, de creme e filtro solar, de cara de boba e feliz, de interesse, de desejo...precisava voltar.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

De Passagem

Era a pequena e antiga estação férrea de Vernon na França. Embora estivesse em grupo de turistas, ficava sempre isolada. Ela e sua câmera fotográfica em busca de uma janela ou o reflexo nela.  O trem chegava e todos embarcavam rapidamente. Em menos de uma hora estaria de volta a Paris. Era tarde da noite e estava frio. Na fila de taxis ela procurava aquecer-se desviando das correntes frias. No quarto, o aconchego e as lembranças do dia. Na madrugada, acordada calculava a hora em seu país. Achava engraçado os efeitos da  mudança de fusos horários , o tempo marcando os acontecimentos dos lugares e suas rotinas...três da madrugada, em seu pais, meia noite...talvez por isso ainda estava acordada, ou não. As flores dos jardins de Monet estavam ainda dentro de seus olhos com todas as cores, formas, perfumes, exuberância. Na boca o gosto da tarde fria e florida, do crema brulê, do anel  de botão, do adeus a Monet.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Pronta?


Estava pronta!
Decorara o roteiro por dias, meses, anos a fio.
Sabia cada vírgula da frase, cada ponto do parágrafo, cada ação do personagem.
Sabia tudo: o que estava por vir e o que já viera. Seus efeitos, desdobramentos, retrocessos.
Nada mais me era imprevisível!

Estava pronta!
Sonhava agora com o inusitado
Desenhava ideias sobre o inesperado, a indignação, o espanto, a surpresa! O desconhecido.
Queria agora um encontro às escondidas do pensamento prévio, do planejamento metódico.

Um lugar novo, uma parada no ponto de taxi, do metrô, do café, da avenida... Ao lado do monumento dos incrédulos, abaixo das escadarias da fama, sobre os viadutos e elevados da noite escura, suspeita, ameaçadora.
Um encontro de suspense, quase doloroso, sinistro, sensual, enigmático.

Estava pronta!
Os últimos retoques no texto, na maquiagem, na bagagem de mão.
Em posse do mapa e linhas a percorrer demarcadas na parede, no peito, no coração.
Um endereço incompleto, um vazio inexplicável, uma torre a espreitar minha decisão.

Estava pronta!