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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Repleto

Meu manacá floriu outra vez. Exuberante como  bons pensamentos sobre a primavera em pleno inverno. Passo por ele várias vezes ao dia mas é a noite que ele mais me atrai. Todos que passam por ele não conseguem deixar de  admirá-lo. Percebo que ele perdeu a timidez do início. Sabe exibir-se! Sabe que é lindo e repleto!

Labirinto: o meu!


Tenho um labirinto dentro de mim... Eu nunca pensara nisto, mas de uns dias pra cá ando perdendo a direção dos lugares pra onde quero ir e sinto-me como num labirinto sem entradas e saídas definidas. Estava em minha cama quase pronta pra dormir, tirei as meias de lã que usei em minha ultima viagem internacional, ficaram grandes em meus pés, mas a uso em dias frios. Ao me acomodar sob as cobertas vi um dos pés de minha meia atravessando apressada sobre a cama, levei um susto e tive que explicar... Receosa de não ser levada a sério arrisquei: é que eu vi minha meia correndo em minha direção bem aqui na cama... Olharam-me estranhados e logo vi que minha explicação não combinara nenhum um pouco. Tentei esquecer o assunto, mas outras coisas começaram correr a minha volta, as paredes corriam a mobília também, mas o que mais me deixava curiosa era quando o chão se movia veloz em redemoinho sob meus pés parados no mesmo lugar. Comecei a pensar que talvez meu corpo estivesse se tornando circular. Não combinava também! Não podia ser eu! Eram mesmo as coisas que rodavam! Eu tinha quase certeza, e foi exatamente por causa desse pequeno quase que dei ouvidos quando me disseram que podia ser o meu labirinto. Fiquei animada com ideia e logo de cara me veio o título de um filme que minha mãe gostava: Labirinto de paixões! Ora se eu tenho um labirinto que me faz rodar, posso ter paixões em montanha russa!Fim da história: tenho exames de sangue pela manhã e passarei a tarde toda fazendo testes que avaliam possíveis alterações nas curvas do labirinto. Preciso ir dormir, pois temo não encontrar a saída dessa história, já que meu labirinto está em ação confundindo meus passos.

Ontem a noite

Estive com Clarice ontem a noite. Veio com Beth vestida de vermelho e preto, revezando com um branco suave e transparente adornado com panos leves esvoaçantes a deslizar por sobre os ombros, dando um toque de balé clássico ao seu caminhar...gestos teatrais, voz de sotaque e a mesma graciosidade feminina de outros tempos. Continua fumando muito apesar  das campanhas anti fumo e de minhas inúmeras investidas pra sua renúncia a este vício que já faz parte de seu gestual compondo palavras e frases em cada acender e apagar, levar aos lábios e tragar. Nos distraímos conversando sobre assuntos que nos incomodam positivamente. Beth foi paciente, intercedia apenas quando Clarice a procurava com o olhar. Nascida na Ucrânia de pais judeus,  é mais brasileira que nossa bandeira...misteriosa até pra consigo mesma Clarice insiste nessa busca de sentimentos que retratam sua alma inquieta. Fizemos planos para nossas férias em julho. Vamos escrever juntas, já pensamos em alguns temas para um roteiro de cinema. Clarice continua animada com a  ideia de roteirizar e produzir cinema e eu, nem preciso falar desta paixão acumulada. Apesar da noite deslumbrante com a lua sorrindo tímida pra nossa conversa animada, nos despedimos cedo. Clarice tinha que viajar de volta com Beth e eu estava acompanhada com amigos que tinham compromissos incompátiveis com os meus e de Clarice.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Coragem

Não lembrava mais onde havia guardado sua coragem...procurava por toda parte...e cada parte que encontrava a coragem não estava. Escreveu pedindo ajuda ao mapeador de coragem...entidade que mora nas nuvens, viaja no tempo e escreve poesias com marca d'água no deserto. Conheceu-o num filme de Hitchcock usava uma enorme capa azul com o mapa mundi envelhecido no peito...era uma tarde de janeiro e as ondas do mar eram de Varadeiro, no prato uma omelete de amoras que Benjamin, o Walter, recomendara, no copo, água quase potável, no coração a busca da coragem...novamente... agora noutro tempo, mesma necessidade...Esperou enquanto olhava no firmamento o fenômeno astrológico que a chuva atrapalhou a visão, escutava a música da melhor banda da cidade cujo prefeito desapareceu levando consigo as chaves,  e veio então a resposta, ficou decepcionada nada que já não conhecesse.... afinal quem não sabe que a coragem está dentro dela mesma se compondo feito casulo em borboleta pronta pra voar...mas a dela era diferente...aprendera que há pessoas que temem as borboletas...talvez as mesmas que choram ao invez de escrever, respirar ou simplesmente voar como elas, as coloridas  borboletas.Percebeu que estava mesmo numa situação que exigia muita coragem...continuou procurando sabia que tinha guardada dentro de si em alguma gaveta da estante do solilóquio, pintada nos telhados das casas sobrepostas inspiradas em Escher, sua coragem ao pintar as estações da via sacra, via crucis, calvário de Jesus seu filósofo preferido, estava bem perto de encontrar, moveu novamente os quadros da parede, abriu janelas voou com elas,Lés Maries, as virgens de Chagall, aterrissou num bloco de anotações, próximo a paleta de cores, bisnagas e frascos, fios e condutores de ideias e inspiração...encontrou... estava ali sua coragem pronta para agir...reinventada.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Despedir

Clarice prepara todas as despedidas que quer despedir, todas as conversas que já não quer mais conversar,  todos os pensamentos interrompidos no percurso mal traçado...sobretudo quer despedir-se de sua mais recente chegada...trabalha incansável nessa despedida, põe  nela adereços de carnaval, galões de farda de heroi, perfume matinal...Clarice prepara todos os dias essa despedida que quer despedir, explica por mais de cem mil formas de explicar por que não tem mais sentido consentir e ficar...quer se despedir...junta motivos, lapida o cristal da translucidez necessária...vai se despedir...partir com malas rearrumadas...ficar livre das horas marcadas, dos pensamentos descobertos, dos percursos trilhados sob os holofotes...ficar livre para os mistérios que sempre povoaram sua varanda interior...Clarice quer se despedir .

Despedida

Tenho construído minha despedida a cada chegada, a cada despertar do dia, a cada encontro com a noite, a cada palavra perdida no olhar, que não consegue mais aportar sem denunciar seu brilho de transmutação pelo desejo e paixão, contidos no cabedal de inspiração que move  dentro dela mesma: a vida de uma poetiza.
Me despeço de mim mesma a cada penetração de meu olhar pelas frestas de minha janela entreaberta, entre muros, entre lugares proibidos e inventados pra ser vividos ainda que só na poesia.
Me despeço do que me aprisiona o pensamento e inspiração ancorada num único porto inseguro por que seguro demais...me despeço da que eu sou quando não quero mais ser a que eu fui a minutos atras...


domingo, 10 de junho de 2012

sobre desertos

Clarice chegara a tempo de ouvir a pregação do jovem pastor empenhado em manter seu rebanho com exemplos de Izac. Numa parceria com o jovem cantor, seu partner, o animador evocava verbos sonoros seguidos das exclamações que finalizavam frases de efeito estufa na medida  em que ficavam contidas todas elas no cérebro de Clarice. Falava sobre o deserto, lugar inóspito e inadequado... onde nada germina, senão sofrimento...Deixar o deserto e sair em busca do ser livre pra ser feliz...palavras do pastor que motivava a resposta do coro: Amém! Clarice se perguntava sobre seus desertos pessoais, desertos de estimação, desertos circunstanciais, desertos acolhedores de seu desejo de encalusurar-se pra ver da janela, o luar dentro dela, sol brilhando, brisa leve a tocar seu rosto enquanto a saudade, um deserto inteiro cabe nela. Clarice então definiu seu deserto.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Beleza

A beleza do vazio está nas possibilidades de seu preenchimento...

A beleza da solidão está nos espaços a serem ocupados dentro dela...

A beleza do abandono está na remota descoberta e reencontro...

A beleza da saudade está na distãncia e impedimentos de suprí-la...

A beleza da tristeza está na espera de chegar a alegria

A beleza da morte está na certeza da vida

A beleza da amizade está na pureza do sentimento

A beleza da prazer está no percurso até se chegar a ele

A beleza da vontade está na escassez que a torna raridade

A beleza da agonia está na expressão de seus motivos

A beleza da desgraça está na lembrança da felicidade

A beleza do pranto está na ausência  do riso

A beleza de escrita está na  mensagem escondida

domingo, 3 de junho de 2012

Toque para Clarice

                    o sol era quase meio dia...
                    a lua se vestia...
               a chuva fina e fria, chovia...

Clarice  acordou com o toque do seu celular avisando-a que na noite anterior, ela dissera a ele que queria caminhar logo no inicio da manhã. Não conseguia abrir os olhos, o corpo reclamava a noite anterior, a festa as pessoas, a definição de identidades, a caracterização de desejos, vontades, papéis... A decoração non sense daquela casa adornada de tudo que se mostrava um nada a se acomodar em cada canto... Paredes cheias de recordações e vazias de inspiração... Histórias sem nenhuma história, sem nada! Virou-se procurando uma posição que a ajudasse despertar... Novamente o celular... E então se levanta... Veste-se e sai na caminhada pra conversar com ela mesma... Alguns minutos e está diante do lago, vendo-se nele refletida... Matando a saudade, fazendo nascer a esperança naquele dia que apenas começava e já era despedida... o sol era quase meio dia.

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A tarde ameaçava anoitecer... Clarice se agarrava as horas pra que não passassem tão rápido... Buscava vencer a vida fictícia e metafórica pra fixar a realidade, na escrita... Sua arte, como uma atitude diante do que é e quer ser, quase sem ar... Alça voo, pipa sem controle do fio... Escapa da rotina estúpida da vida cotidiana, dos conceitos e padrões, do obscurecimento social no isolamento e negação do individuo. Faz no seu silencio a materialização do romantismo  num protesto apaixonado contra o mundo catalogado num elenco de itens que não a incluem...procura o lago e nele seu reflexo, procura a manhã e escuta de novo o toque do celular avisando-a que queria caminhar logo no início da manhã...a lua se vestia...

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Conversava sobre a solidão. Clarice ficava embriagada ouvindo o jovem escritor a descrever sentimentos que a ela, familiares, a tomam desde sempre... Sobre ficar sozinho (a)... Em silencio, contato direto e intenso, total, com o que somos... Dentro de nós, único lugar e abrigo que edificamos para nos manter confortáveis na solidão estética e íntima, manifestada em nossa Quixotesca figura... Em nossos blocos de anotações, albinhos de fotografias, paleta de tintas, tocos de madeira, restos de qualquer coisa que nos resta criar algo novo... Ideias quebradas, pensamentos mutilados pela exclusão que sofremos sem alternativas que não a de voltarmos pra dentro de casa e ficar lá... Aconchegados, sem ameaças, silenciados, ouvindo nossa musica interior, nossa despedida e abraço de quebrar os próprios ossos...Clarice revira-se acomoda-se no travesseiro perfumado e sempre fiel... não consegue dormir, num movimento  decisivo programa o celular...acordar para caminhar no inicio da manhã...adormece com um sorriso ensaiando escapar pelo canto dos lábios...lá fora a chuva fina e fria chovia...