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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Projeto secreto interativo

No meio da noite...numa explosão de atitudes...se casou com a inspiração...fez promessas...jurou eternidade...trocou sonhos...e saiu com sua bagagem de mão...confiante no feito. Um casamento resultado de um projeto secreto interativo...fruto de caminhadas pelas tardes do anoitecer...aurora boreal...no lugar inventado tão real que se pode entrar tomar água potável...respirar música...descansar na esteira sob a mesa do desenho na parede...brincar o olhar no aquário onde brinca o golfinho a espera da baleia amada...janelas abertas...simplicidades sutilezas...perfume...realeza em cada gosto e sabor framboesa...Casamento instituição falida de desejos e sonhos...agora reinventada em outra pauta musical...outra tela e pintura...outra escultura do corpo que se aninha...alongando a meditação da alma em mantra...serenidade...leveza sustentável pelo ser...senha de acesso...códigos da  poesia...casamento na hora da partida...lua de mel a espera de estrêlas...angelitude...nobreza...surreais criaturas... pintura...atitude.

Resgate

Prepara-se para a transfusão de sangue de vida de sonhos que se aproxima...transfusão de saudade para alimentar a esperança do encontro...uma outra vida... outra morte... outra despedida....seguida da chegada...do abraço...do riso. O poeta se engana e viaja pelo mundo com seu passaporte estrangeiro de si mesmo...nos lugares visitados nos livros inventos sagrados...não quer saber o que encontrar...se deixa levado pelo seu guardião...pobre condenado a prover o poeta de ar e luz... alimentos...blocos de anotações na bagagem de mão...baterias...conexões...aparatos...enquanto ele teima entoar  versos esquecidos...entregues ao passado da dor que assombra o gozo da inspiração... a mirar outro alvo...outra cena...outro lado...outro saber...casamento com outra alegria...enlace de fugitivas ideias e secretas passagens no labiritno criado de células do imaginário...recheado de loucura e poesia...troca de promessas daquele encontro  incumbido de fazer o resgate...socorro necéssário pro ar voltar aos pulmões...o brilho ao olhar...o riso na voz...a sede da garganta que escapa pra encontrar...o sussurro da voz na orelha da boca...e o perfume do tempo aspirado pelas mãos das narinas... afaga o lugar de dormir...e fica ali prostrado o poeta...entregue ao acervo de dúvidas...incógnitas...enigmas de si mesmo...dos lugares que habitam seu ser andarilho...colecionador de incertezas. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

60 reais e 60 minutos

Ela tinha sessenta reais e sessenta minutos pra sair e voltar trazendo na bagagem, a coragem de investir sessenta reais no consumo de seus sessenta minutos de prazer, alegria, risos, momentos brincantes...A cumplicidade se fez urgente e com ela a decisão de como investir naquela estranha transação. Sem tempo  a perder, acerta o relógio, confere os valores e prossegue com sessenta reais e sessenta minutos pra gastá-lo sem desgastar o imaginário guardado  no armário da lembrança... daquela tarde em que... sessenta reais bastavam para gastar os sessenta minutos que restaram da esperança de atravessar a margem...dos minutos que faltavam pra se encontrar e se perder de vez.

Nonagésima

Em tempo de ser noventa pode ser cento e oitenta ou...oitocentos...Oitocentas mensagens de incertezas, de busca insana, de encontros e descobertas de outro lugar...outro rio de tantas margens...despedidas...promessas...risos...A nonagésima publicação no criarte...noite de autógrafos...manhã de despedidas! Lugares que saem dos livros e vão para a mira das lentes da câmera fotográfica...registra com a cor da saudade cada lugar da paisagem...e completa esse momento de doce e doída alegria...juramento sem testemunhas...apenas a platéia de estrêlas no firmamento do ser que se encontra na fronteira de se perder...quer ficar... dar a volta no tempo e lugar...refazer a história...proteger a memória...

Legado

Resolveu partir, fugir em busca de um lugar e proteger o tesouro encontrado...perseguido pelos vilões...na noite escura do entardecer vazio e ameaçado...pelos charlatões que violentam sentimentos... e amordaçam as palavras do poeta fugitivo.Na procura desse precioso lugar... o temor da perda...do desencontrar-se de si mesmo...descosturar cada ponto tecido na pele...tatuado...fingindo lugar sagrado...promessas...segredos forjados pra  atar o fio do novelo e trazer de volta, enredado na trama da descoberta, o tesouro camuflado...disfarsado...anjo...princesa...legado.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Insight

De tanto esconder-se por traz do personagem sumiu de vez...Essa era a idéia que a ameaçava desde sempre no papel que representava há mais de décadas na peça em cartaz nos teatros de seu pais e do exterior. Protagonista da história que começava quando era criança, no seio de uma família comum e de outras meninas da casa. No limiar da juventude a identidade se define em seus ideais, ficções, paixões platônicas, rebelião literária, manifesta na vida acadêmica desde tenra juventude... gostos estéticos marginais que migram entre anjos e sepulturas, ao sabor do pessimismo e suas vontades. Passou então a viver a personagem. Num dia de ensaio eis um insight! As luzes do palco fizeram outro percurso... para dentro dela e a mostrou em cada canto de seus aposentos. Ela se viu então no papel composto da personagem com todos os elementos que definiram sua caricatura de atriz: voz, gestos, olhares, linguagem, movimentos, vestiu-se então da roupagem com peças pertencentes a diversidade de tantos outros protagonistas. Nos adereços juntou tudo o que pudesse representar o gosto de todos os modelos do padrão aceitável... fingia padronizada...formatada...modelo a ser seguido seguramente...Era a personificação de um multiculturalismo que se aperfeiçoava a cada respiração e fala do script. Era perfeita! Adorável! Invejável!Até ela mesma imaginava outra dela pra se apaixonar...Com o tempo ...e inúmeras representações... percebe que dela mesma já bem pouco se via...Estava de tal forma caracterizada no modelo e papel aceitável...que não reconhecia os traços definidores do seu próprio ser...Foi quando então, na maturidade dos sentimentos, e das experiências vividas na arquitetura da própria identidade, na causa abraçada, dos valores concebidos, que admitiu pra si mesma a falta de um palco só seu, um script de autoria, um prefácio musical, um ponto alto de amor e vingança dela mesma pela longa demora no papel que lhe fora atribuído. Buscou insana criar esse espaço encontrado na casa simples sonhada, na porta que se abre de surpresa com a chegada, no sorriso acolhedor, no abraço de corpo e alma, no encontro consigo mesma na outra que a habita, nas horas de descanso dela mesma...envolta na música do riso...da cabeça a deitar no ombro amigo, do afago do olhar derretido... do imaginário existente na poesia, revelado nesse breve valioso insight...que nela se fazia.

Grude

A poesia grudou em mim...ficou na minha pele e quando a ignoro vira coceira e me atormenta o sono o dia a alegria...poesia e desejo grudaram em mim e quando finjo que não vejo, gritam ao meu ouvido e me assustam alarido...poesia desejo e saudade grudaram em mim e quando não sei se percebo ou não, me dão um enorme susto que até  meu soluço vai se esconder no alçapão...poesia, desejo, saudade e vontade de ser e fazer grudaram em mim e eu deixo que fiquem assim...me habitando...tornando-me morada pra tantos outros seres pensares e fazeres...que vivem agora assim...morando em mim...sem pressa...num ritmo de caracol...tartaruga...preguiça...em fim para ter tempo de se fazer poesia, desejo, saudade, vontade de ser grudados em mim.

domingo, 14 de agosto de 2011

Sinais

O teatro se abriu para o debate de certa pedagogia dos sentidos, admitindo desde o início a ausência de um deles: o da audição. Como sei disso? Do lado esquerdo do palco uma figura de mulher se posta pronta para transformar em sinais gesticulados com as mãos, braços, corpo inteiro, as palavras proferidas naquele lugar. Ela é a decodificadora da linguagem oral, aquela que só faz sentido se existir o outro, o sentido da audição... Ela está li para dar esse sentido ausente em quem, sabe quem? Onde na platéia estão os que se valerão dela para entender o que falamos nós os falantes ouvintes? Ela reconstrói, nos movimentos gestuais, a linguagem de sinais endereçada aos privados do sentido da audição... que a mim não deu pra saber onde estão...se estão ali ou não...mas ela está... fiel interlocutora entre nós e eles...existentes, presentes ou não. Que mulher é essa que discreta em seu vestir num traje negro se camufla no escuro quase negro das paredes que a cercam... Que mulher é essa cuja pele também quase negra compõe sua figura a capturar meu olhar? Um foco de luz a projeta dando brilho aos gestos traduzidos em sinais, significados... Eu mal posicionada fico a brigar com meu corpo que se torce para vê-la em seu bailado ora suave; ora empostado e dramático... me atrai seus movimentos... quero vê-los todos...sentar-me diante dela...reverenciá-la. Ouvi certa vez sobre o contraditório desejo de que o final de um momento chegue rápido...quando queremos que ele seja eterno...Empresto essa idéia e a experimento a imaginar-me chegando até ela. Que mulher é essa que no anonimato rouba a cena e o meu olhar que fugitivo se desvia disfarçado, pra vê-la mover-se e girar levemente o corpo, dando mais sentidos aos sinais emitidos na velocidade da fala dos falantes audíveis, que nem de longe se dão conta, da existência dos que alí, não ouvem... Ah! Como eu queria vê-la de perto bailando em seus gestos minhas palavras! Ao final quando me liberto do compromisso formal e posso então correr dali, me impedem passar... mas o tempo passou e ela não estava mais. Não pude reverenciá-la, nem tocar suas mãos que falam para os que não ouvem...não pude sentir a cor que tem a voz da mulher que fala com sinais...Hoje a perdi...amanhã voltarei para vê-la, e encontrar na platéia os sujeitos com quem ela fala com seus gestos e corpo, empenhados em dar sentido pra sua linguagem de sinais...Estarei entre eles...os sinais, os sentidos, em busca dos dela e dos meus... nos dela e seus, sinais.

sábado, 13 de agosto de 2011

Malabares

Ele estava no mesmo semáforo do balão de sempre... magro alto,desbotadas as coloridas vestes...demonstrando, ao fechar o sinal, sua arte ganha-pão, ganha- descaso, ganha- palavrão, ganha o perigo da rua, ganha um sim, um não, ganha o meu sorriso...Eu havia acabado de sair, nem tinha ainda colocado o cinto de segurança...Sinal vermelho...fechado pra passar... aberto pra assistir o espetáculo malabares, sem nem mesmo ter reservado lugar na platéia...com todo o conforto do meu acento, ali sob o sol da avenida......dois carros a minha frente e ele lá...corpo exposto...aos olhares...aos mais cruéis olhares...pensamentos intolerantes radicais...apressados...janelas que se fecham numa velocidade maior que a de seus delicados movimentos equilibristas...estilhaços de pensamentos atingem minha alegria de criança no circo diante do espetáculo...minha certeza da alienação da qual lutei pra escapar...me tira o prazer dessa singela alegria... e me faz sentir responsável por ele, lá fora assim exposto com aquele enganoso sorriso no rosto...Tento dissipar nossas diferenças....inventar uma outra relação pra ele eu...amenizar minha culpa...ele do lado de fora...todos os riscos...eu do lado de dentro seguro e alento, ele artista de rua sobrevivente...eu vazia daquilo que o move e sente...Ele empenhado em ser feliz... aparentemente contente...O riso e a alegria faz parte de seu número...um riso que tira de não sei onde...mas que tem lá dentro da mala guardada pra compor o seu show...e me tirar o sono...Tempo esgotando voraz...lança um único olhar e avista todos os carros e suas janelas...vê meu braço estendido...implorando seu perdão...Chega até minha janela...me sinto mendiga e maltrapilha por dentro...o vejo grandioso diante de mim...Me diz palavras gentis delicadas cheios de muito obrigados e me diz num sussurro que me abraçou pelo ouvido percorrendo meu miserável ser...Olha o cinto!Precisa viver pra voltar e me ver...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Lugar de café e arte pra se tomar chá.

Na falta do que fazer pra fugir do trivial...inventa-se um lugar...com Vivaldi...um chá...e muita arte!Ela decide no meio da manhã...afastar os livros e teclado...fechar os arquivos...trocar o echarpe...manter o vestido...e sair sem compromisso consigo...com quem quer que seja...ela mesma! Encontrar-se com Vivaldi pra um chá da tarde...chega atrasada...o trânsito de um horário normalmente sem trânsito...quis ser diferente pra compor sua parte no invento que se tornou evento de ir ao café com arte encontrar Vivaldi...no meio da tarde. Ele a esperava meio tímido tocando baixinho enchendo o ar com a delicadeza de sua música! Tímido...sentido-se meio despido sem sua batuta regente...Combinaram ficar um pouco em silêncio tomando um chá...ouvindo a cor do sol entrando a ofuscar o olhar...trocam de lugar...Vivaldi prefere o fundo da parede terracota pra contrapor seu traje compositor e poeta...Depois de muitos dias começaram a falar e então ela pergunta sobre sua última La verità in cimento, e ele então apruma o corpo e descreve o libreto de sua 13ª composição na modalidade ópera, dizendo a ela que seria estreada durante o Carnaval em Veneza em 1720, mas destacou apressadamente...mostrando-se atual e coerente com as teorias de seu tempo... que a mesma se encontra também na Internet e permeia conteúdos de quase cem mil e-mails trocados entre apaixonados...pelas tardes nos cafés com arte e um desejo enorme de um... qualquer que seja... simplesmente desejo!

Pronta pra viagem

Desarrumou o armário todo pra arrumar-se e com ela a mala de viagem... Remexeu cada canto das gavetas entreabertas entrefechadas entre si mesmas e ela,  em todas elas e nela mesma... Revirou guardados de viagens outras, desses que não se usa  onde se vive cotidiana e presentemente: luvas, chapéu, guarda-chuva, guarda sentimentos e lembranças  a granel...E nessa desarrumação toda a mala e ela foram se arrumando em cada escolha, cor, peça, adorno, cosméticos inúteis, adereços complementares das idéias e do corpo...falam com ela... perguntam se vão ou se ficam. Todos querem como ela ficar na mala pra sair do closet e do armário... do quarto, da casa, do bairro, da cidade, do estado, do pais,do Planeta! De si mesmo! Num zoom de dentro dela pra fora do quarto... de um ponto pro todo...micro e macro se misturam sensações...ampliando lentes desfocando até não ver mais... perder a nitidez do armário arrumado de todo dia...de todo dia arrumado pra ser um bom dia...moderado...conformado...ajuizado...equilibrado...dia de alegria pra ser guardado na agenda do passado. Ele, o armário, e não o dia... agora desmontado, revirado, misturado, deslocalizado em seus locais, rigorosamente encontrados no dia a dia... ela se via. Completamente desarrumada para a viagem por alguns dias...completamente pronta pra sair de viagem!

Volta ao texto

Antes que o tempo acabe e o poema se encolha dentro de minha inspiração secando  meu sangue em suas  linhas, vertendo seus raios sangrando-me as mãos,  volto ao  texto, viro-me  avesso e faço com que todos entendam a razão...de flutuar minhas asas de cavalo marinho  e  voar  nas nuvens do fundo mar,  saltar de golfinhos nas plumas das tardes, compor a canção no claustro da torre da própria prisão...sem ar nos reservatórios de água, sem luz nas fogueiras de carvão, sem tinta na caneta a tinteiro, sem sinônimos pra falta de inspiração...E pra que todos entendam  razão esta que move entranhas do cérebro, resquícios do nada repleto de um tudo do que sou feito, procuro nas páginas das tantas versões a prova concreta  dest’alma  secreta que  me aprisionou na inspiração, a gritar os desejos que moram sozinhos nos cantos das tardes, nos cafés com arte e sem medo do encontro com o nada....  que revive musas e poetas seresteiros  e posta uma carta ao cavaleiro inexistente ...Em tempo de me  dispor ausente...fico neste poema morando quem sabe pra sempre....

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Benjamin

Vivia até então entre os filósofos-poeta prediletos, acariciado nos momentos da escolha de uma citação e referência, mimado nas horas de sede literária filosófica, ou de simples necessidade de um fundamento que rebuscasse ou sedimentasse o argumento. Walter Benjamin! Aquele que inspirou as obras escolhidas, ao maior poeta francês do século XIX: Charles Baudelaire, um lírico que viveu e transgrediu em versos, no auge do capitalismo. Eis sua origem Benjamin! A fonte do seu nascedouro! Onde ela foi te buscar! Benjamin e Baudelaire juntos certamente inventavam palavras que escondiam significados inaceitáveis aos que vivem a sociedade dos padrões de aceitabilidade.Característica que atravessa os séculos como se o tempo estivesse parado. Tudo igual! Ela o tirou de lá Benjamin e o trouxe para o Século XXI, com Baudelaire e sua poesia imortalizada nas musas...princesas surreais e nas invenções que promovem, com sua surrealidade, ou surrealeza pelo poder de rainha que carrega a matriz. Você veio para habitar seu polimundo feito de poliautorias de invenções; polisentimentos e razões; polivontades de mudar o mundo; polilugares a descobrir e criar; poliseres, fazeres, sonhares...Veio habitar o tempo dela e de tudo que nele comporta e dele transborda...pra conviver aventuras intelectuais, românticas, desfazer-se risos ficções, compor juntos, debater significados e sentidos, colecionar idéias, inventar pessoas e lugares em outras margens de um mesmo rio.Passou a viver nessa dimensão com ela independente de ter sido quem era Walter Benjamin.Ganhou identidade própria ao participar dos mais secretos desejos incompletos....revelados no pedido, mais que um jogo de palavras e sentidos,  no final da noite ao tombar cansado o corpo, sedenta a alma: Meu bem beija a mim Beijamin que me beija em mim Benjamin...beijo que não tem fim...por que mais que beijo é Benjamin... ao que ele então se liberta, prisioneiro das páginas a serem tocadas com dedos do olhar, galopa cavalo marinho com asas que ganhou no desenho de pequeno príncipe, navega longe da penumbra austéra das bibliotecas. Agora... tela iluminada, sites biográficos, sonhos do poeta no imaginário que o torna menino Benjamin, travesso e incompreendido; homem feito sem fronteiras apaixonado; adulto invejável em sua sabedoria e polidez: um príncipe com quem qualquer princesa ainda que surreal, sonha coroar seu Rei.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Gabi

Foto Suê - 2011

A menina chegou com seu riso amendoado olhos negros arregalados me pedindo pra pintar uma tela, um desenho, um qualquer traço brincar. Fazer companhia, fingir a história, pular na bola, chutar a corda, contar estrelas, brilhar ovelhas, mentir o azar, sonhar a casa fazer a festa e por fim, sair a passear na floresta. Trocar sem pensar Chapeuzinho vermelho na paleta de cores na tela menina que é só fantasia, me inspira me move pra essa poesia. Chegou a menina boneca nas mãos, no olhar de hortelã doçura de mel, me tira do sério me leva pro céu. Ficou a menina, pra sempre vestida de nostalgia, nas lentes, na mira de minha saudade, da sua magia de tão poderosa alquimista a me temperar, os versos sem rima, sem ponto final aberto no arquivo, sem âncora algum lugar pra parar e recomeçar.

Segredo

Depois de tantos convites recusados ele resolveu visitá-la. Os anos passaram e ele continuava com a mesma doce expressão de serenidade e uma sombra incógnita no olhar. Sempre assim enigmático, calado, suas palavras saiam pelo olhar, seu sorriso também...a boca ficava quase sempre apertada segurando não se sabe o que entre os dentes...Veio direto do aeroporto elegante e simples como na juventude guardava a beleza que beirava os sessenta aniversários...Ela como sempre segura da escolha feita o deixava, com sua alegria, ainda mais triste e solitário. Cumprimentam-se formalmente ela o convida pra sentar segurando-lhe as mãos, carinhosamente. Ele então fala:...Não vou me demorar sei que está ocupada vou ser rápido só vim lhe trazer um presente e lhe dizer... Quando nos despedimos naquela tarde decididos cada qual seguir seu caminho... eu não cumpri minha parte...continuei pensando em você durante esses vinte anos...De longe...acompanho seus passos, seus feitos, sua arte, sua vida...mudei de cidade e dei um jeito de ocupar os pensamentos...conheci uma mulher me casei com ela, tive dois filhos mais uma menina que ela trouxe de um primeiro amor...meus amigos dizem que eu me tornei ainda mais melancólico... do que era quando caminhávamos quilômetros declamando nossos poetas favoritos...o tempo não existia para nossas intermináveis conversas...elas ficaram pra sempre como companhia nos meus dias tristes...seus filósofos preferidos...suas brincadeiras literárias...seu riso...seu espírito de liderança arrastando nosso grupo pra aventuras teatrais que inventava e que nos encantava a todos...íamos onde queria sua fantasia...Houve um tempo em que fui colunista do jornal local quando eu sei, você também o era na cidade onde vivia...minha coluna versava sobre nossa história com pitadas de ficção pra proteger meu segredo...mas agora...você já pode saber...não aceitei nenhum de seus convites pois não saberia me portar no meio em que passou a viver...recebi pelo correio o exemplar de seu primeiro livro, não respondi seu pedido de opinião sobre a obra...meu silêncio a fez esquecer ainda mais rápido de mim...os demais livros tive que comprar... não me enviou mais com dedicatória como no primeiro. Não fui a nenhuma de suas noites de autógrafos... me surpreendia você me convidar...ficava ainda mais triste pois percebia que pra você eu era apenas um nome na lista dos convidados. Quero me desfazer desse segredo e pra não deixá-lo jogado em qualquer canto, resolvi dá-lo de presente a você... você que protegi do meu amor a vida inteira não me aproximando, não respondendo, não vivendo...ele agora é seu e não vai te dar trabalho algum, pois é comportado como todo segredo! Sem palavras ela o abraça com ternura, aceita o presente e delicadamente o leva até a porta onde se despede. Os dias pra ela nunca mais foram os mesmos... em posse do segredo que lhe sussurrava poesias e risos guardados nos tempos, passados, presentes!

La Vie En Rose

Cheguei fim da tarde... a porta entreaberta...estava no banho e gritou la de dentro...fique a vontade...tem um café que acabei de fazer...já to acabando...Entrei olhei em volta...Mozart na aparelho de som enchia a casa com Don Giovanni sinfonia vibrante e melancólica...Flores sobre a mesa... primavera...no sofá o estojo aberto com todos os instrumentos de sopro que nele cabiam...o saxofone, flauta transversal, contralto, doce e o jogo de gaitas de blues... Imaginei que deve ter tocado a tarde inteira daquele dia...partituras espalhadas...anotações musicais... uma desordem de quem mora só e sabe se achar no meio dela.... Lembrei daquela casa tempos atrás... clima de separação...caras amarradas...descontentamentos...agora...música clássica, flores sobre a mesa, instrumentos musicais repletos de digitais recém tocados...Chegou banho tomado corpo ainda meio molhado e foi logo me mostrando as novidades...enquanto falava comigo ajeitava os instrumentos dentro do estojo...me passou o texto que queria que eu lesse...peguei os óculos e busquei a concentração que o tema exigia...ele me deixou...saiu para fora da casa com o saxofone e lá no meio do pequeno quintal fez o solo de La Vie Em Rose...fiquei paralisada com aquele som...um aperto na garganta e uma vontade chorar...Fiquei pensando por que as pessoas apaixonadas sofrem tanto...por que a sensibilidade da alma artista tem que se alimentar de sentimentos muitas vezes, tão desastrosos...Olhei pra mim mesma e o vi em mim...mesma história...mesma loucura escamoteada pelos padrões sociais...mesma fantasia de felicidade...mesma tristeza fingida...travestida de um entusiasmo doentio e contagiante que atrai vampiros desleais...famintos de nossa energia sutil... nossa beleza...La Vie En Rose teimou repetidas vezes...imaginei os vizinhos...queria ser um deles...ouvindo no meio da tarde um solo daquele...magia pura. Terminei a leitura sugeri algumas poucas alterações...Me preparava para despedir quando ele me fala...e então você está bem...A pergunta era outra...e então o que está achando de mim...eu estou bem...como estou... O que vê...Respondo apressada...engulindo as palavras...estamos bem...vai passar tudo passa o que é bom e o que é ruim passa...vamos ficar bem...vou poder partir sem medo...você ficará ainda mais inteiro pois terá a parte de mim que dei a você cada dia de nossas vidas... Um abraço rápido pra ser suportado me despeço...La Vie En Rose fica no ar grudada nas folhas das árvores do entardecer... Mozart sai na janela pra me ver partir...

Tudo pode ser

Como sempre que se põe a vaguear pensamentos... não tinha a menor idéia de como as coisas iriam acontecer...saiu do lugar, mudou de lado, trocou de acento...pediu um chá e esperou. Um livro lhe fez falta...seus olhos não tinham o que percorrer...precisava distrair dos últimos acontecimentos, os mesmos que geram a sensação de ser vigiada por meio da sua criação...talvez a denúncia da folclórica frase: Tal mãe tal filha...ou tal filha tal mãe...ou ainda é filha de quem? Na constatação de que, se saiu de mim aquela idéia, é por que sou ela ou uma parte dela...Dai então a nossa conhecida e temida censura que ronda e ameaça a espontaneidade da criação artística literária, plástica, musical...e até mesmo dela própria jeito de falar, de se mover, de olhar, de sorrir...a revelar do que é feita...A obra revela o autor...ou traços de sua identidade! Como então fazer pra guardar os mistérios da criação para que ela perpetue na imaginação e no alimento da alma do leitor? Como desvincular a doentia loucura do autor da beleza de seus versos? Por que manchar a obra com a história funesta de seu criador? Na mesa ao lado uma pessoa curiosa com sua presença tentava cruzar o olhar pra se fazer notada... não facilitou...não queria...afinal o chá estava perfumado...as mãos frias...disseram que a temperatura iria a 4º...ela transpirava sob o casaco pesado...seu único... comprado no brechó próximo da 5ª. avenida em New York nos anos 80...roto e desbotado mas com histórias secretas e dispostas ao imaginário...mais um chá por favor...ficou ali esperando a chuva...o bom livro...a cena de romance desfilando, cheiros, ruídos, tudo num coquetel a depurar os sentidos...e desenhar as coisas que iriam acontecer se continuasse ali...sem saber como aconteceriam...inspirada a escrever...desmedidamente...até esgotar a última letra que se recusa a formar sílaba...a última sílaba enfrentando-a, contrariando-a quanto a composição da palavra. Não tinha a menor idéia do que ia acontecer...continuou seu chá...trouxeram-lhe um livro...um filme...uma viagem a Paris...ou a Praga...quem sabe...talvez lhe traga uma idéia de como as coisas vão acontecer...e então, ai sim, tudo pode ser.

Saguão do cinema

Era um filme israelense...fui assistir naquela tarde onde as nuvens se espalhavam cobrindo o sol e sua luz...um clima europeu...de um quase prenúncio de inverno...mas era o Brasil tropical e sofrido em suas estações climáticas desajustadas, alteradas...Fui ao cinema...imagens de Israel e lugares vizinhos num desarranjo estonteante de imagens e situações...um manancial de emoções fertilizadoras da criação imagética...uma história inusitada...um corpo transportado para um sepultamento não autorizado...cômico-trágico...Ao sair do cinema ainda no saguão avisto uma mulher de meia idade na cadeira de rodas olhando a programação de cinema...aproximo-me me curvo, olho no rosto e sorrio perguntando-lhe...e aí alguma sugestão...o que vai assistir...e ela magra e delicada mãos finas e alongadas em seus cinqüenta e poucos anos sabe-se quanto deles ali sentada... devolve-me o sorriso e diz quase cantando voz sussurrada...vou ver este aponta o cartaz com as mãos...é do mesmo diretor de um outro que gostei muito...e você o que vai ver...e respondo: acabei de ver o israelense...mas pretendo voltar na 5ª. feira com uma amiga...talvez veja esse que sugeriu...novamente um sorriso que se mostra desacostumado em se abrir por inteiro...olho de novo pra ela, me imagino em seu lugar...observo nas mãos magras,brancas e lisas uma meia luva que deixavam nuas apenas as pontas dos dedos...senti vontade de tocar aquela mão, desnudá-la por inteiro...descobrir nela um anel um registro qualquer de felicidade naquela mulher de mais de meia idade e uma cara de saudade de dar dó...dó dela? Dó de mim?... Saudade do que ela pode ter sido? Do que fui? Resolvo presenteá-la e então invento pra ela tantas histórias e aventuras que a transporiam daquele lugar prisioneira...Ah que vontade de dizer a ela...tudo aquilo que me inspirava sua figura doce e trágica figura...Meu corpo estremece por inteiro controlo a vontade de abraçá-la pra poder ser abraçada no meu abraço pra ela...mas penso... ela jamais permitiria o abraço desconhecida ...sua condição a limita a essas espontaneidades e ímpetos que me assolam assim...na saída do cinema... após assistir a um filme israelense.

Chez-moi

foto arte Suê 2011
De repente, sua paixão pela leitura e criação literária tornou severa obsessão. Produzia tanto que não havia mais espaço físico para os textos que se reproduziam na mente de leitores que os multiplicavam inifinitamente. Precisava de um lugar para eles e então como já conhecia as possibilidades, resolveu  mudar-se de vez para o ciberespaço, construiu e foi morar num blog. Um novo estilo de vida, interação e comunicação. Lugar simples e aconchegante,espaço imensurável, impalpavel mas existente e fiel ao seu posto de plantão infindável. Passou a cuidar do blog como de sua alma. Passava horas construindo seus significados. Revisitava  história de cada obra...seus segredos de ficção suas vestes de poesia. Rearrumava desarranjos esquecidos, correções necessárias. Ia e voltava...e ia de novo...saudade do que motivou a criação de cada um. Passou a esmerar na decoração do blog casa, e fez dela, a arte literária e visual, sua sala principal. Pra cada texto um bom pretexto pra conversar, ouvir música, pintar, fotografar e intervir com as ferramentas eletrônicas trazidas pra dentro de sua caixa de tintas, pincéis, grafites, talismãs. Com elas foram aceitos com todas as honras da casa, os volumes do Petit Dictionnaire Français, Houaiss da Língua Portuguesa, e outras reliquias das quais um(a) escritor(a) não abre mão. Nunca mais ficou sozinha: leituras, escritas, sentimentos e criação compunham sua vida todos os dias... nos dias todos de sua vida. De vez em quando, era obrigada a sair de casa, trazer chama e alimentos de sobrevivência da casca e da inspiração. A noite antes do sono, bem tarde então, rememorava as emoções, as invenções, os pensamentos, elucubrações, afinação do sentimento que fez o dia em cada momento. São uns que ficam, outros que não, na rigorosa seleção do: só fica o que é bom. Depois percorre os livros trazidos pra cabeceira...canetas e lapiseiras...papel em branco...espalhados...Todos eles...os livros começados... marcadas as páginas da última parada... Pega um deles... situa o texto...lê um capítulo... processa a leitura e seus encantamentos...relações de idéias e pensamentos...letramento....toma o papel  a codificar...fragmentos que a completavam o imaginário...frases...palavras...desenhos...Outro livro...outro capítulo...outra escrita...e assim a noite alta trazia o sono...no chão os papéis e os escritos...pedaços de textos...poemas...palavras soltas olhando pros lados buscando com quem combinar de ficar...juntar uma frase...um parágrafo inteiro...virar texto...ganhar uma ilustração...Acorda...num salto que alonga e avança...aciona o botão...uma fruta na mão...lapiseira em punho...resquícios da leitura...junções...links...Evoca todos os seus autores...agradece pelo saber... que um dia lhe deram saber...escreve...salva...corre dentro do blog casa, ateliê, biblioteca...e publica... visualiza...comemora mais uma escrita.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Abraço de mãos

De longe eu a vi como sempre nesta época, veio chegando na tarde. Trazia alguns livros de leitura todos começados segurando nas mãos apoiando com os braços para não caírem tantos eram. Tinha na mesma bolsa de sempre, suspensa num dos ombros, bagagem pra poucos dias ou horas e, em uma das mãos competindo com os livros, uma garrafa azul com água para beber. Na lapela do casaco escuro aquela flor que me deu de presente na sua viagem a Mont San Savino, nosso encontro só dela. Uma flor perene como seu amor por mim e o meu... por ela. Na expressão o teimoso desejo de me reencontrar. Estava serena e me procurava. Olhava pra todos os lados, pra cima, pra baixo, pra ela mesma. Procurava-me dentro dela como estive no começo por ela aprisionado. De longe... ficava lá... com seu jeito curioso fingindo tranqüilidade e certezas. Pra poupá-la da espera apareci devagar sem sobressaltar seu silêncio. No caminho fui observando-a de dentro pra fora com meu olhar de genitor. Havia nela sinais de mudanças, seus movimentos já leves estavam ainda mais, sua respiração zen, num ritmo quase parado movia as narinas imperceptível, mais magra, além do yoga a natação tem sido com afinco, tenta acalmar sua agitação intelectual e inquieta alma de artista. Sinto-a mais esclarecida sobre nossa atual condição, meu lugar, seu lugar, nossos tempos. Escreveu-me sobre isso em vários lugares. Mostra-se aprendendo humilde estudiosa, tem amigos de crenças antes não aceitos, ouve histórias sobre a bíblia e não mais somente sobre os clássicos da filosofia ou teóricos obstinados um pouco como ela. Pude sentir nela a presença de todos que a amam e a fazem feliz. Fiquei também feliz por todos e por ela e por mim nela. Como se num caminho interminável no ritmo dos pensamentos que me vinham sobre ela, cheguei e a toquei os ombros fazendo-a virar-se para mim. Ela esperava...deixou-se mover e olhou-me nos olhos... livrei suas mãos dos livros, soltando-as e as segurei entre as minhas que, ainda calejadas ao tocá-la perfumaram nosso ar. Num movimento circular ela inverteu nosso abraço de mãos e levou o dorso das minhas aos lábios e, num quase sorriso teimoso misturando o beijo com as palavras a me dizer...eu sabia que vinha , me perdoe a certeza mas obrigada por vir...desta vez ficarei o suficiente pra mergulhar seu olhar e te mostrar que continuo te amar. Tempo suficiente pra refazer meu convite: se quiser de vez quando me visitar... vou gostar...tenho novidades pra você sempre, além de que podemos ter aquela conversa, posso terminar a leitura da biografia de Trotsky que comecei naquela noite...mas também posso ficar calada assim abraçando seu olhar em minhas mãos como agora ao me despedir mais uma vez... ... ... ... ... ...