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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Abraço de mãos

De longe eu a vi como sempre nesta época, veio chegando na tarde. Trazia alguns livros de leitura todos começados segurando nas mãos apoiando com os braços para não caírem tantos eram. Tinha na mesma bolsa de sempre, suspensa num dos ombros, bagagem pra poucos dias ou horas e, em uma das mãos competindo com os livros, uma garrafa azul com água para beber. Na lapela do casaco escuro aquela flor que me deu de presente na sua viagem a Mont San Savino, nosso encontro só dela. Uma flor perene como seu amor por mim e o meu... por ela. Na expressão o teimoso desejo de me reencontrar. Estava serena e me procurava. Olhava pra todos os lados, pra cima, pra baixo, pra ela mesma. Procurava-me dentro dela como estive no começo por ela aprisionado. De longe... ficava lá... com seu jeito curioso fingindo tranqüilidade e certezas. Pra poupá-la da espera apareci devagar sem sobressaltar seu silêncio. No caminho fui observando-a de dentro pra fora com meu olhar de genitor. Havia nela sinais de mudanças, seus movimentos já leves estavam ainda mais, sua respiração zen, num ritmo quase parado movia as narinas imperceptível, mais magra, além do yoga a natação tem sido com afinco, tenta acalmar sua agitação intelectual e inquieta alma de artista. Sinto-a mais esclarecida sobre nossa atual condição, meu lugar, seu lugar, nossos tempos. Escreveu-me sobre isso em vários lugares. Mostra-se aprendendo humilde estudiosa, tem amigos de crenças antes não aceitos, ouve histórias sobre a bíblia e não mais somente sobre os clássicos da filosofia ou teóricos obstinados um pouco como ela. Pude sentir nela a presença de todos que a amam e a fazem feliz. Fiquei também feliz por todos e por ela e por mim nela. Como se num caminho interminável no ritmo dos pensamentos que me vinham sobre ela, cheguei e a toquei os ombros fazendo-a virar-se para mim. Ela esperava...deixou-se mover e olhou-me nos olhos... livrei suas mãos dos livros, soltando-as e as segurei entre as minhas que, ainda calejadas ao tocá-la perfumaram nosso ar. Num movimento circular ela inverteu nosso abraço de mãos e levou o dorso das minhas aos lábios e, num quase sorriso teimoso misturando o beijo com as palavras a me dizer...eu sabia que vinha , me perdoe a certeza mas obrigada por vir...desta vez ficarei o suficiente pra mergulhar seu olhar e te mostrar que continuo te amar. Tempo suficiente pra refazer meu convite: se quiser de vez quando me visitar... vou gostar...tenho novidades pra você sempre, além de que podemos ter aquela conversa, posso terminar a leitura da biografia de Trotsky que comecei naquela noite...mas também posso ficar calada assim abraçando seu olhar em minhas mãos como agora ao me despedir mais uma vez... ... ... ... ... ...

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