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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Indefinida.



Da janela de seus aposentos, Clarice debruça sobre seus dias e olha em volta de si mesma.
Constata: o tempo tem sido generoso. A cada passagem dele, um anúncio para o coração apaixonado pela poesia da vida:
É preciso ser livre Clarice! Para sonhar e ser simplesmente:  livre e indefinida!
Ultimamente Clarice tem estado às voltas com seus desígnios buscando incansável aconselhar seus sentimentos. 
Ela sabe que, deste caminho que escolheu trilhar seu coração, já o fez o suficiente. Hora de  olhar o horizonte, voltar, regar os bonsais, ler  Neruda, pensar Borges, desenhar lugares aos  milhares, escrever versos, aninhar-se nos recantos da filosofia e sentir-se inteiramente livre! Dona única de seus pensamentos, inventos e prazeres na busca de ser melhor e merecer ter sido imagem e semelhança do Criador. Sem apegos! Sem grilhões! Sem definições!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O tempo



O tempo tem passado veloz para todas as coisas, apenas se demora um pouco mais nos sentimentos. Mesmo assim, sinto as mudanças neles...sentimentos e tempos. Reclamamos da novidade que se esvai com a repetição dos dias e noites, tardes e tempestades, risos, desencantos...Reclamamos a falta de tantas oportunidades...cenários novos, lugares inventados, emoções bordadas no tecido na própria pele.O tempo tem passado...

sábado, 12 de outubro de 2013

Sou eu

Helena sentada diante do teclado da máquina em sua humilde sala de estudos estava mais uma vez a pensar sobre  seus enlaces literários. Amante das palavras e da escrita  Helena fazia parte de uma história de perseguição política durante o holocausto da guerra mundial. Judia professora de canto vivia com a família em Cracóvia na Polônia. Sem  dinheiro sobrevivia dos contos que o jornal local aceitava publicar pelos trocados da única refeição diária. Resolvi fazer Helena pensar. A trouxe para mim nas perguntas que amo fazer sobre personagens ou seres reais.
Vivemos de fato ou somos ideias, ficção de nós mesmos?
Nossa poesia é mero código arrumado pra ter sentidos ao leitor, ou simplesmente sonho, fantasia, desejo de ser um dia...
Escrever eu prometo... Com ou sem Helena... Eu prometo!
É  mais fácil viver  pra realizar uma promessa do que não ter nenhuma pra cumprir? Quem vai cobrar o que escrevi ?Eu mesma?Qual será o compromisso do escritor com as afirmações que faz ? Apoia-se  na liberdade poética? Criativa? Não tem mesmo que pensar sobre os efeitos de sua escrita?No leitor... Nele mesmo o autor?

Permitir o amor liberto de grilhões da paixão na escrita é a mesma coisa que deixar a pipa, ao sabor do vento, estraçalhar-se nas torres, rasgar-se toda nos galhos, incendiar-se no fio elétrico? Ser cinza voando com sobras de eternidade...


Confessar o desejo de perpetuar no amor é mais fácil que juntar nossas coisas e partir sem direção que não a do coração sem juízo... a nos indicar caminhos íngremes intransponíveis pela razão...


Somos fruto de nossa própria ficção... Solitária ou repleta de momentos feitos de inspiração a percorrer cada dia desta vida sem nunca ter certeza se somos real ou se mera e brincante fantasia...Que para Helena começou quando, aos nove anos de idade, se viu diante da imensidão do mar a contemplar a teimosia de uma onda que corria pra dentro dele, se enchia de mais água e mais forças, e se deixava depois voltar para praia se arremessando contra uma pedra gigante que não se movia jamais... Foram horas, dias, anos inteiros reproduzindo tal imagem... Deixo Helena agora... Tornei-me a onda em todos os seus momentos, a pedra, o mar, o lugar... Nunca mais me senti limitada em meus horizontes... Todos os diagnósticos doentios tentaram me explicar à menina a jovem a mulher que fui me tornando... De mar virei rio e até riacho algumas vezes, pedra também tive que ser pra não deslocar-me da vida... Mas permaneço aquela onda que se deixa engolir pelo mar que sou  com meus sonhos, ideias e crenças que içam vela ao vento e me navegam mar afora, adentro, naufragando-me nele, em mim mesma sem Helenas pra fingir que não sou eu.



Sessão de fotos - 20/08/2013. - Conto



       Executiva de  multinacional, estabilizada financeiramente e beirando os cinquenta anos de idade, Léa sempre fora atenta à  saúde, cultivava alimentação natural, exercícios físicos e tempo para o lazer e estética.  Nas férias anuais viaja uma parte do tempo e descansa em casa o restante dele, lendo, vendo  filmes, recebendo amigos, visitando parentes próximos. Léa mora numa alameda de sobradinhos com varandas e janelas para a rua, num bairro antigo da capital, que sobreviveu às demolições modernizadoras, mantendo-se reservado a moradores. Com árvores adultas dos dois lados da rua, mantém o ar bucólico e uma vizinhança madura que se encontram toda manhã a caminho da banca de jornal, da padaria ou passeando seus cães.  Localizado próximo aos lugares mais importantes da cidade, com acesso ao metrô e outros meios, possui teatros, restaurantes, lojas e um comércio de arte e feiras em geral. Léa vive sozinha com a vizinhança, há mais de vinte anos 
        Naquela semana Léa retomava as consultas médicas e exames de rotina do seu check-up anual. Começou com o cardiologista, seguido da endocrinologista e, quando iniciava os exames solicitados pela ginecologista teve uma surpresa. Saira do laboratório de exames devendo aguardar na sala de espera para ser dispensada. Menos de quinze minutos, a porta se abre e quando ela esperava como de costume a técnica do laboratório dizer: Dona Léa a senhora está liberada! Ela ouviu:
- Dona Léa, vamos ter que refazer seu exame. A  senhora, por favor, aguarde que a chamaremos em alguns minutos.
       Léa, que estava em pé desde que ouvira seu nome, ficou em silêncio. Sentou-se novamente, acomodou a bolsa no colo e levou as duas mãos na nuca jogando a cabeça para traz, como se estimulasse a circulação do pensamento. Depois, curvou a cabeça sobre o peito e, descendo as mãos da nuca, afastou a echarpe florida que deslizava sobre a blusa de linho cru, colocou-as em concha uma em cada seio e ficou assim com eles abraçados pelos dedos esguios, unhas pintadas, pele branca... As outras mulheres que aguardavam para fazer seus exames olhavam Léa, no esforço de alcançá-la com um sorriso, uma palavra de encorajamento e esperança pelo olhar, mas ela não via ninguém, como que em transe, com os seios nas mãos e um carrossel no pensamento.
       Veio-lhe a mente as viagens acumuladas nos arquivos pessoal, as fotos,  as sensações de bem estar  na praia, chutando as ondas quebradas aos  pés nas caminhadas ao entardecer, o corpo ao sol, a alegria simples, os frutos do mar exalando sabor  típico de férias. Como estas, outras lembranças desfilavam apressadas para dar lugar a tantas que somavam sua vida até aquele momento.
       Léa não tinha uma religião específica, aprendera na infância sobre Deus,  o Pai de bondade infinita e conhecedor de todas as coisas do mundo e dos homens. Não ousava pedir nada, apenas pensava sobre sua vida até ali.
     A porta se abriu e ela ouviu:
_Dona Léa, por favor, por aqui. 
    Novamente o exame, a espera, e outra vez a técnica:
_ Dona Léa, venha por aqui, a médica encarregada do setor que lhe falar.
  Léa  seguiu a moça pelo corredor que se estendia interminável sob seus pés.
  Aqui, indicou a técnica abrindo a porta.  Léa entrou tentando se conter, olhando em volta, à procura de uma mesa com fotos de família, agendas, trofeuzinhos de bronze, esses objetos que definiram como apropriados para um consultório médico.  Avistou a cadeira do paciente e foi logo se apoiando nela como que para manter-se em pé.  A médica ainda bem jovem fez um gesto para que se sentasse. A porta se fechou atrás dela e então ouviu:
- Dona Léa, a senhora precisa retornar o quanto antes a sua médica. Seu exame deu uma alteração que requer providências com certa urgência. A Senhora tem retorno agendado?
      Léa acena qualquer movimento da cabeça, perguntando:
_ O que houve doutora? Eu estou com câncer?
     E então ela responde:
_ Sua médica é quem explicará melhor, mas há um nódulo de dimensão preocupante que deve ser investigado. É bom não esperar.
    Léa levantou-se segurando os exames junto com uma das alças da bolsa deixando a outra pendurada, assim como ela naquele momento. A médica perguntou:
_A senhora está sozinha? Quer que chamemos alguém de sua família? Está de carro? Tem  alguém  esperando em casa?Não deve se preocupar até ouvir sua médica. Apenas tome providências.
    Léa responde que está bem, abre  a porta que dá para a sala de espera. Atravessa rumo a saída envolvida por todos os olhares. Cada mulher ali presente sabia o que se passara com Léa e que podia também lhe acontecer. 
    O exame de mamografia, obrigatório para toda mulher a partir dos quarenta anos de idade, é o mais eficaz na detecção de nódulos e tumores. Sua realização anual é recomendada para identificar a doença no início. No entanto, eles podem aparecer após o exame de resultados normais e causar danos inestimáveis. A mama, órgão duplamente valioso na amamentação e na sexualidade, identifica a feminilidade ao mesmo tempo em que atua como termômetro da sensibilidade nos períodos e ciclos da mulher. Além disso, os seios tem lugar de destaque na estética feminina.  A ameaça da doença reproduz todos os tipos de medos.
 Léa pegou seu carro no estacionamento próximo e foi pra sua casa.
    Ao chegar, ligou para a ginecologista e agendou retorno em dois dias. Depois foi para seu quarto e ficou parada diante da porta. Soltou a bolsa no chão, jogou os exames sobre a cama e ficou ali sem pressa alguma. Olhou todos os seus objetos, roupas, a estante de livros ao fundo, a mesa de trabalho, os livros, o computador com tela de 20 polegadas onde vê seus filmes, a cadeira giratória comprada no último verão, decidida a escrever um romance inspirado em suas viagens, CDs, DVDs, um cabide com echarpes de todas as cores, estampas, tecidos, outro com colares das mais diversas formas e procedências, suspensos, decorativos, cheios de história e digitais do corpo, do tempo.
    Léa foi tirando as roupas e jogando sobre a cama, ligou o som da cabeceira chamando Nina Simone pra cantar, pegou seu roupão e entrou no  banho. A água morna deslizava em seu corpo, contornando cada pensamento a voar pelo quarto, pela casa... Espalhou o sabonete líquido pelas costas, braços e parou com as mãos nos seios, lembrou-se dos amores que marcaram sua vida, os beijos pelo corpo, as carícias confortáveis e macias... Olhou para eles e deixou as lágrimas desprenderem-se caindo em cascata. Terminou o banho, vestiu-se pegou sua agenda e discou para um número dizendo:
- É do Studio do Rigel? Ele está? Diga que é Léa.
Do outro lado:
_ Oi Léa! Surpresa, tudo bem com você? Quando faremos aquelas fotos que te prometi de presente?
_ Hoje mesmo se tiver horário.
_ Claro que tenho vem pra cá! Já pensei numa produção com chapéus e trajes do seu gosto.
_ Sim, chego em uma hora.
   Léa vestiu-se: a saia preta longa de sempre, uma camiseta colada ao corpo, um casaco jogado por cima, calçou as alpargatas pretas da última viagem. Desligou  o som, pegou a bolsa  que a esperava ainda no chão. Olhou novamente o quarto, puxou o ar pelo nariz ainda molhado de lágrimas, jogou os cabelos para tras endireitando as costas, cabeça ereta, olhar congestionado, sorriso escondido, determinação.     Saiu com seu carro e foi ao encontro de Rigel, seu amigo dos tempos de estudos de Artes cênicas e fotografia. Um japonês descolado, eu diria semiótico, pela gama de linguagens e significados que sua figura causa, seja pelas roupas, tatuagens, joias esculpidas em formas extravagantes, ou pelo jeito coreográfico de andar ao som de uma fala agradável, num português levemente adornado pelo sotaque japonês misturado com inglês.
   O Studio fotográfico de Rigel fica no centro pobre e decadente da cidade, no meio de comércios informais e outros estabelecimentos parados no tempo. Uma porta grande e pesada, recuperada de demolição guarda sua preciosa madeira nobre, debaixo da cor vermelha e verde, com pinceladas em dourado, emoldurada pela parede preta fosca. Uma fênix  em relevo no alto tem no bico suspenso um fio que desce indicando o interfone  eletrônico do lado direito. Eu diria um visual punk bizarro. Ao se abrir  a porta uma escadaria leva ao Studio e aposentos  onde vive Rigel .
    Léa chegou com um pequeno buquê de rosas vermelhas  comprado na rua. A  porta destrancada a esperava. Foi entrando como quem está acostumada com o lugar, tirou o casaco, jogou a bolsa sobre uma bancada chamando alto:
_ Rigêêêêêlll! Cheguei. Léa!
     Da mesma idade de Léa, de aparência mais jovem talvez pelo visual e jeito brincante que exibe, Rigel, exalando perfume amadeirado, entra enxugando as mãos numa pequena toalha que coloca em volta do pescoço, e abraça Léa.
_ Que bom que veio rara flor.
 _Também gostei de vir. Quero fazer as fotos.
_Sim vamos entrar, já arrumei algumas ideias.
      Léa afastou a cortina negra, entrou e sentou-se num divã roxo sobre um tapete ocre. Enquanto Rigel ia buscando algumas peças ela foi tirando a camiseta colada ao corpo. Estava sem sutiã, soltou os cabelos e quando ele entrou ela foi logo dizendo:
_quero fotografar meus seios, faça com que eles fiquem ainda mais lindos e exuberantes.
     Léa tinha seios pequenos e proporcionais ao seu porte. Apesar da idade não eram flácidos. De pele alva e auréola rosada formavam um lindo par no peito largo, sustentados pelos ombros torneados e fortes. Rigel ficou surpreso. Não era o que havia pensado e muito menos para Léa com quem mantinha uma descrição quase severa.
_ Sim, claro, vamos então ao chuveiro quero fotografá-los sob a água corrente e depois sob sedas transparentes... O que acha? Gosta?
_ Sim e quero também que use as pétalas das rosas que eu trouxe... Pense em alguma coisa, cubra-os com elas... Quero flores frescas e perfumadas para eles.
_Vamos fazer.
    Rigel sempre descontraído com moderação, ligou o som com uma música instrumental  que enchia o ambiente de um clima alegre, calmo e ao mesmo tempo sensual, aspergiu uma fragrância perfumada no ar e ligou o vaporizador escondido atrás de uma coluna, exalando uma fumaça úmida enchendo de mistério  o ambiente.  E foi para o Box onde Léa o esperava apoiando uma das pernas num desses bancos alto de bar, enrolada em uma toalha da cintura para baixo. Ele abriu o chuveiro com água morna. A água caía nos ombros de Léa espirrando no rosto e pescoço, descendo pelo peito um rio entre os seios em direção ao umbigo. Fios mais longos dos cabelos desciam grudando-se com a água. Esse ritual deu às lentes de Rigel as mais belas imagens. Léa estava serena. Depois de secar os cabelos e o corpo foram para o divã. Léa envolta em uma canga indiana sem muitas cores segurava abaixo dos seios as pontas dela. Deitou-se deixando os braços abertos caindo  para os lados numa entrega aos céus enquanto  Rigel vinha com as pétalas vermelhas das rosas espalhando espaçadamente sobre seu peito e abdômen. Ele nunca imaginara fazer aquilo, nada original, quase brega, sabe-se lá o que mais. Mas, sabia que Léa estava diferente e não queria invadir seus aposentos internos. Amava ver a amiga feliz.
  Passaram a parte e começo da noite fotografando, aproveitando a luz do sol se despedindo por trás dos janelões do estúdio, o cair da noite até ser escuro total, dando brilho as velas e lanternas chinesas que Rigel cultiva em meio aos spots eletrônicos, luz dicroica, design moderno e tecnologia sofisticada.
     Despediram-se. Léa parou em um restaurante próximo de sua casa para uma ceia leve. Chegou em casa bem tarde. Tomou banho e foi dormir. Dois dias se passaram e Léa estava diante de sua ginecologista que lia atenta seus exames.
_Léa, temos um desafio a enfrentar com suas mamas. Faremos novos exames para mapear o tumor com precisão. Em  seguida, a cirurgia para biopsia e então iniciarmos o tratamento já conhecido. Vamos marcar já. Amanhã mesmo você volta ao centro radiológico leva esses exames para orientação técnica. Minha secretária cuida dos agendamentos. Vão te ligar. Quero você tranquila, sua disciplina e cuidados com a saúde farão a diferença agora mais que nunca.
    Léa ouvia silenciosa, calma, assentindo com a cabeça. A médica levantou-se para abraçá-la, Léa despediu-se. Foi para casa. Antes passou no estúdio de Rigel, queria ver as fotos.
   Ao chegar a porta estava destrancada, havia muita música, janelas abertas, cortinas voando, as pétalas vermelhas do dia anterior espalhadas no tapete ocre, cheiro de missoshiro vindo dos fundos. Léa foi avisando que chegara:
_ Rigêêêêêlll! Cheguei Léa!
     Sorrindo ele entra com as mãos ocupadas com algumas fotos reveladas artesanalmente.  Aproxima-se de Léa empurrando-a com seu corpo fazendo-a cair junto com ele no divã, depois mostrava as fotos colocando-as no rosto de Léa numa alegria infantil, riam alto, riam juntos, riam completos.  As fotos estavam prontas! Rigel feliz com os resultados. Léa não se decidia se ficava feliz ou se contava tudo a Rigel que falou:
_Léa rara flor, nossa produção surpreendeu-me, ficou iluminada, não tenho como explicar o que aconteceu... As rosas bregas, tudo! Veja.  
   Léa sorriu agradecida. Decidiu deixar em segundo plano o assunto dos exames e depositar toda sua esperança na beleza das imagens que Rigel, com sua sensibilidade, arte e generosidade captou de seu corpo. Realmente as fotos revelavam um nível elevado de qualidade artística  e técnica.   Sentindo-se numa experiência terapêutica, tamanha era sua calma, Léa pegou duas fotos, uma da água corrente e outra das pétalas de rosa, dizendo:
_ Rigel tenho que ir, estou no check-up anual e tenho exames amanhã. Assim que terminar todas as revelações me avise.
   Beijando-a na face, Rigel, cúmplice do que vira no negativo das fotos, falou baixinho:
_Sim rara flor aviso
    Pela manhã Léa voltou ao centro radiológico e fez agora exames específicos. Neles se identificaria a dimensão, localização e tipo de tumor. Passou a manhã toda e quando esperava para ser liberada, foi chamada pelo médico responsável que lhe perguntou:
__ Dona Léa, a senhora pode me dizer qual o motivo do pedido desses exames? E quando a senhora fez este aqui?

_ Fiz há dois dias, os de hoje são desdobramentos dele. O que houve doutor?
_É que seus exames de hoje mostram muita luz contornando suas mamas, a senhora sofreu alguma radiação ou coisa parecida de lá pra cá? Pois não encontramos mais esse nódulo aqui... A Senhora fez alguma coisa que pode ter alterado o quadro?
      Léa sorriu tombando a cabeça até tocar o peito com o queixo, depois levantando o olhar perdido na lembrança da luz dos flashes da câmera de Rigel, da chama das velas, o calor da água morna descendo em cascata regando sua pele, as rosas, e o que aprendera sobre Deus na infância, tudo junto, com a música, o perfume no ar, a presença de Rigel, sua habilidade artística, sua generosidade humana. Responde:
_Sim fiz: uma sessão de fotos! Foi isso!

domingo, 6 de outubro de 2013

Olhar pelas lentes da câmera

Eu estava ali para uma cobertura fotográfica  espetacular.
Os convidados, pessoas que buscam uma nova cultura de diversão, iam chegando com suas fantasias comunicando com elas, seu ideal sobre ser outra coisa, outra expressão e significado, naquela noite reservada pra ser o lugar que cada um almeja, pra viver sem amarras ou restrições, uma fantasia.
            Multicores adereços e identidades diversas se misturavam criando aos poucos um cenário surreal, fantástico  beirando o absurdo!
           Super heróis, Cinderelas, seres do futuro, do passado, de tempo algum, provocavam um espanto risonho, uma sensação entre a degustação de um  alimento desconhecido e a lembrança mais doce da infância.
           Eram invenções e adaptações de tipos como o pirata bailarino, o palhaço encantando com o olhar sedutor do monge tibetano, a bruxa amarrotada a clamar poderes pra parar o vento frio lá fora, o príncipe tribal com joias e armas futuristas, o avatar e seu par  encarnando o chefe escoteiro das galáxias, e outras composições curiosas. Vez por outra  algumas mal arranjadas  deixavam cair pelo caminho, fragmentos de plumas, pétalas de flores do colar havaiano; ou ainda abandonadas propositalmente como a sombrinha da equilibrista apoiada num canto da entrada, o capacete do astronauta provávelmente  mal adaptado na cabeça do triatleta, jazia no encosto de uma cadeira ameaçando rolar a qualquer toque.
          Havia também os que   exibiam detalhes de arte final, esmeros pra serem vistos com lupas, pedras preciosas presas em lenços de renda e seda, fidelidade no tipo encarnado acompanhado de gestual convincente da ficção que intencionada.
          Enquanto isso, a primavera  sulferino derrubava suas flores improvisando um tapete na recepção.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Visita




Eu não passava por aqui há meses!
Saudades!
Saudades de mim mesma, de quando vinha aqui com frequencia!
Escrevia diariamente.
A inspiração transbordava da mente escorria pelas teclas, virava poema,conto, crônica, poesia!
Hoje resolvi dar uma passada.
Ler os últimos escritos
Lembrar do que os inspirou
Lembrar de mim, do gosto pela escrita, minha paixão!
Faz tempo que eu não passava por aqui!
Tenho pensado muito em passar um tempo... de volta
Visitar meus aposentos
Tirar o pó
Cortar o mato do jardim lá fora, aqui dentro.
Mudar de lugar os móveis,
Redecorar a sala,
Pintar uma nova tela,
E escrever...nas paredes, nas pautas, nos fios de tecido
Tenho pensado em voltar e quem sabe, ficar, e ficar e ficar...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

casa na árvore

A lua estava morando na árvore quando me aproximei
Os galhos emaranhavam o caminho de chegar até ela
A janela da casa estava aberta e eu podia vê-la

terça-feira, 13 de agosto de 2013

sobre o tempo



Passa o tempo e nele, o começo de tudo se faz presente.
Lembranças do tempo passado: presente!
Primeiro encontro e olhar,
Primeira palavra a perguntar.
Passado que quer ficar,
Presente que quer parar... o tempo!
Futuro a se debruçar na janela... do tempo,
Quer se mostrar num tempo que ainda virá
Futuro inexistente  no tempo presente
Sacola cheia de passado, vazia de futuro
E nesse tempo apertado
O  peito se abre feito  o livro do poeta 
Rima inacabável, inspiração constante!
Busca do tempo busca da poesia
Lembra do amor que veio um dia
Olha pro canto da sala vazia
Lá está ele sentimento calmo, braços abertos 
Passa o tempo e nele o presente é ainda o maior:
Presente!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Dormir



Era manhã última do fim de julho. No ar um cheiro de brisa fria, no chão, marcas da noite. Ela mal dormira.  Madrugou de receio de perder a hora. O trânsito.  A carta de motorista vencida e os riscos de apreensão! Tudo para compor o cenário daquela manhã de exame final. O prédio ainda estava fechado, as árvores faziam sombra escurecendo ainda mais o lugar. Ficou dentro do carro esperando o sol vir dar início ao expediente, abrir as portas  de entrar. Aproveitou pra  ler mais uma vez o texto. Estava cansada dele! Incontáveis vezes seus olhos o percorreram...precisava entregá-lo a público. Soltá-lo  com asas feitas por ela. Era naquela manhã. As pessoas foram chegando para começar quando ela já estava quase no fim de sua espera. Sorrisos e suspense, certezas e emoção para dar gosto ao sucesso, para parecer difícil aquilo que pra ela já se tornara natural. As palavras começaram a flutuar na sala e a defesa teve lugar sem ataques, ninguém usou as armas costumeiras...não cabiam  naquele alvo. O tempo escorreu feito baba de calda doce e com ela o fim da solene apresentação. Pronto! É hora de dormir sem pressa. Sonhar com nova onda arrebentando na calçada, refrescando o rosto, umedecendo o sorriso vencedor.

domingo, 21 de julho de 2013

Voltar


Precisava voltar pra casa, mas não queria. Preferia ficar onde estava. Aproveitar o clima de verão estendido, sol interminável refletido nas ruas quentes e movimentadas de pedestres do mundo.
O céu não escurecia antes das vinte e duas horas, exagero de luz!
Sons multilíngues, cores multissons, costumes multiformas, gostos multidões!
Ruas de pedras, paredes de história, janelas abertas, memórias!
Precisava voltar, mas preferia sentir um pouco mais aquele cheiro de lugar distante de casa, de gente com pressa de fazer nada, de pessoas munidas de mapas e bussolas, mas, perdidas!
Ponto de chegada e partida, um presente, uma lembrança  pra levar pra quem não veio e não viu, não sentiu, não cheirou, não ganhou, só perdeu. Ficou! Me espera, me analisa, me confere a lista, me cobra o tempo, me exige chegar voltada pra casa. Eu mesma!
Precisa mudar de roupa, de clima, de meio de transporte, de tema literário, de companhia de  viagem, de cara pra foto, de creme e filtro solar, de cara de boba e feliz, de interesse, de desejo...precisava voltar.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

De Passagem

Era a pequena e antiga estação férrea de Vernon na França. Embora estivesse em grupo de turistas, ficava sempre isolada. Ela e sua câmera fotográfica em busca de uma janela ou o reflexo nela.  O trem chegava e todos embarcavam rapidamente. Em menos de uma hora estaria de volta a Paris. Era tarde da noite e estava frio. Na fila de taxis ela procurava aquecer-se desviando das correntes frias. No quarto, o aconchego e as lembranças do dia. Na madrugada, acordada calculava a hora em seu país. Achava engraçado os efeitos da  mudança de fusos horários , o tempo marcando os acontecimentos dos lugares e suas rotinas...três da madrugada, em seu pais, meia noite...talvez por isso ainda estava acordada, ou não. As flores dos jardins de Monet estavam ainda dentro de seus olhos com todas as cores, formas, perfumes, exuberância. Na boca o gosto da tarde fria e florida, do crema brulê, do anel  de botão, do adeus a Monet.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Pronta?


Estava pronta!
Decorara o roteiro por dias, meses, anos a fio.
Sabia cada vírgula da frase, cada ponto do parágrafo, cada ação do personagem.
Sabia tudo: o que estava por vir e o que já viera. Seus efeitos, desdobramentos, retrocessos.
Nada mais me era imprevisível!

Estava pronta!
Sonhava agora com o inusitado
Desenhava ideias sobre o inesperado, a indignação, o espanto, a surpresa! O desconhecido.
Queria agora um encontro às escondidas do pensamento prévio, do planejamento metódico.

Um lugar novo, uma parada no ponto de taxi, do metrô, do café, da avenida... Ao lado do monumento dos incrédulos, abaixo das escadarias da fama, sobre os viadutos e elevados da noite escura, suspeita, ameaçadora.
Um encontro de suspense, quase doloroso, sinistro, sensual, enigmático.

Estava pronta!
Os últimos retoques no texto, na maquiagem, na bagagem de mão.
Em posse do mapa e linhas a percorrer demarcadas na parede, no peito, no coração.
Um endereço incompleto, um vazio inexplicável, uma torre a espreitar minha decisão.

Estava pronta!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Ele e Eu

Ele e eu
Ele é toda razão,
Ela é pura emoção
Ele calcula o tempo de amar
Ela se esquece da hora e perde o lugar
Ele Planeja cada centavo a economizar
Ela não sabe o preço, mas sabe da cor que vai combinar.
Ele prefere avião pra mais rápido chegar e aproveitar
Ela quer ir de carona sem pressa e hora pra chegar
Ele relaciona custo e benefício
Ela faz rima sem nenhum artifício
Ele faz amor e se vira pra descansar
Ela continua suspirando até o dia raiar
Ele tem planos estratégicos
Ela tem sonhos imagéticos
Ele usa terno e gravata
Ela saia de pano e bata
Ele faz planilhas e registra projetos
Ela desenha na areia e coleciona afetos
Ele acredita em vacina
Ela quer morrer de tétano
Ele tem dinheiros aplicados
Ela tem tintas, pinceis e bordados
Ele gosta de New York
Ela de Havana velha
Ele sofre do coração
Ela é alérgica...  a razão
Ele
Ela

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Os dados estão lançados!


Os dados estão lançados! Ouvi a voz estridente dizer olhando em minha direção... Sim o jogo havia começado e eu não tinha nenhuma estratégia em mente, ou aposta a fazer... Estava estagnada olhando tudo em volta, acima, abaixo dos pés das pessoas... atrás das cortinas do tempo...passado, presente, futuro incerto...tudo se confundindo em mim...Os dados estão lançados! Não tem volta e a ida, não me foi dado compreender. Todos me olham esperando que eu me mova... Ou me faça ouvir, uma palavra ao menos que confirmasse que eu estava ali... que dentro de minha casca havia alguma coisa, alguém habitando.  Olhava para os dados lançados sobre a mesa, pilhas de apostas amontoadas, o jogo interrompido por  minha causa, as pessoas enfurecidas com a apatia demonstrada por mim diante da sorte que cada um esperava ter para si... Olho para o alto e vejo a lâmina reluzente da guilhotina mirando minha cabeça... Os dados estão lançados! Uma ultima chamada e então tenho que fazer algo... Não posso fugir e nem ficar... não tenho apostas a sugerir, nem estratégias a desenvolver, nada a fazer...Me levanto, afastando-me lenta e decidida dirijo-me ao meio da sala, me volto o olhar para onde eu estava, de onde eu vinha,  pra me ver de longe...e então,  me compadeço de mim.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A brasileira nascida na Ucrânia: Clarice Lispector


Clarice Lispector, uma escritora disposta a desvendar as profundezas da alma, escolheu a literatura como rota de busca de si mesma em sua essência humana. Clarice nasceu no ano de 1920 na pequena cidade de Tchetchelnik na Ucrânia. Chegou ao Brasil com dois meses de idade e naturalizou-se brasileira posteriormente. Clarice teve sua infância em Maceio e Recife. Aos doze anos veio para o Rio de Janeiro onde  realizou sua formação em Direito, dedicou-se a carreira de jornalista e iniciou a carreira literária. Foi casada com Maury Gurgel Valente que se tornou diplomata brasileiro o que a fez viver muitos anos no exterior. Clarice teve dois filhos. Pouco antes de morrer, em 1977, ela decide se afastar da inflexão intimista que caracteriza sua escrita para desafiar a realidade com o seu dia a dia, trazendo personagens que em nada se parecem com ela. Essa extroversão de Clarice se manifesta na surpreendente obra ‘A hora da estrela’,  que trás a nordestina Macabéa, mulher miserável que mal possui a consciência de existir. Nesta obra Clarice trata do desamparo a que estamos todos entregues. Durante sua vida de escritora escreveu os romances: Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Maçã no Escuro (1961); A Paixão segundo G.H. (1964); Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973) e Um Sopro de Vida - Pulsações (1978). Escreveu a novela A hora da estrela (1977) e os Contos: Alguns contos (1952); Laços de família (1960); A legião estrangeira (1964); Felicidade clandestina (1971); A imitação da rosa (1973); A via crucis do corpo (1974); Onde estivestes de noite? (1974); A bela e a fera (1979). No gênero correspondência escreveu:  Cartas perto do coração (2001) - Organização de Fernando Sabino;
Correspondência - Clarice Lispector (2002) - Organização de Teresa Cristina M. Ferreira. Clarice escreveu também as crônicas: Visão do esplendor - Impressões leves (1975); Para não esquecer (1978) - contos inicialmente publicados em Laços de família; A descoberta do mundo (1984). Entrevistas: De corpo inteiro (1975). Na literatura infantil escreveu: O mistério do coelho pensante (1967) - Escrito em inglês e traduzido por Clarice; A mulher que matou os peixes (1968); A vida íntima de Laura (1974); Quase de verdade (1978); Como nasceram as estrelas (1987). Por fim as antologias: Seleta de Clarice Lispector (1975); Clarice Lispector (1981); O primeiro beijo & outros contos, de Clarice Lispector (1991); Os melhores contos de Clarice Lispector (2001) - Organização de Walnice N. Galvão e Aprendendo a viver (2004).
Clarice Lispector morre de câncer, no Rio de Janeiro no ano de1978 quando aparecem  três livros póstumos: Um Sopro de Vida com o subtítulo Pulsações, Para não Esquecer, uma coletânea de crônicas, e Quase de Verdade, entrevistas. - 1979: A Bela e a Fera, que reúne contos da juventude com os de pouco antes da morte da escritora. - 1984 : A Descoberta do Mundo, reunião das crônicas publicadas no Jornal do Brasil, de 1967 a 1973.
Clarice marcou presença na literatura brasileira com estilo e determinação.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

"entre parênteses"


Me vi assim, diante do "entre parênteses" no tempo, a espera do momento de tomar as rédeas da vida em minhas próprias mãos.
Abri  parênteses e inciei um novo percurso, sem delimitar a priori, o caminho e  nem o tempo que levaria pra fazê-lo sob os pés.
Desmontei montanhas de pensamentos, esvaziei centenas de gavetas, entulhos do tempo, fuligem do coração...chaminé dos sentimentos  esfumaçados, contidos guardados...sótão vazio, terraço suspenso, braços estendidos, mãos a espera da outra a entrelaçar os dedos num laço e então... passo ante passo, pé ante pé, sonho ante sonho.
Vou assim me levando em  aberto meu tempo, musica doce  na flauta, perspectiva indefinida, ainda, de fechar parênteses e voar livremente na pauta. Sem linha a me amarrar as pontas acelerando meus passos rumo ao ponto final.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Um dia de cada vez


Foi então que ela resolveu:
Viver um dia de cada vez até chegar a vez do dia que ia ser
Entregou-se aos sonhos todos que guardou a espera de ter com quem sonhar.
Amanheceu cada manhã como quem reconhecia que a vida lhe presenteara com mais um dia.
Entardeceu com alegria de saber que as estrelas viriam com certeza salpicando a noite no céu enquanto ela dormia.
E manteve-se assim a viver um dia de cada vez até chegar a vez do dia que ia ser. E quem sabe com alguma sorte esse dia jamais viesse acontecer.
 

sábado, 27 de abril de 2013

30 minutos


Clarice acabara de chegar dos engarrafamentos rodoviários comuns na capital. Exausta, por duas horas dirigindo, apenas uma compensação: a segurança de ter o hotel reservado antecipadamente.
Ao chegar não estranhou a entrada simples com interfone externo e a  senhora que veio atender como se fosse a casa de uma tia sua ou algo parecido.
Deixou o carro à espera do manobrista e entrou.
A recepção era simples. Não se podia imaginar o que havia por traz daquelas cortinas camuflando paredes encardidas.
Fez o pagamento e seguiu o guia afeminado e falante, homem de estatura baixa, bermudas e chinelos que a ajudou com a bagagem.
Desceram varias escadas sem proteção alguma, desviaram de betoneiras, pás sujas de reboco e restos de obra, caixas de material de construção, homens trabalhando. Corredores sem iluminação, portas lacradas por fora. Clarice estava tomada de um suspense que ia aos poucos conduzindo-a naquele fundo de corredor sem iluminação elétrica, apenas a luz que vinha de algumas aberturas na parede, cercada de entulhos . Sua mochila pesava escorregando pelo ombro. A câmera pendurada não acreditava as cenas que perdiam sua objetiva. Espanto e indignação impediam-na de qualquer reação. Vez por outra o homenzinho  fazia uma piada sem graça. Clarice o achara meio sádico, mas não levou a sério sua percepção. Por fim ele parou diante de uma porta girou a maçaneta indicando:
_ É aqui, sem beliches, tem tevê e ventilador.
Num pedaço de papel que jogou sobre a cama estreita, falou:
_ A senha da Internet.
Tudo aquilo era para Clarice, no mínimo emudecedor. Quando ele se retirou ela pode olhar com mais calma a sua volta. Abriu a porta do banheiro buscando um espelho, queria se ver, sabia que estava sem cor e com olhos arregalados, mas não havia espelho. No banheiro nenhuma ventilação. A porta se abria quase tocando na cama para dentro do quarto que não possuía nenhuma janela. Nem mesmo com uma cela ou um cativeiro aquilo parecia. Na parede o fio de instalação corria suspenso pronto para um curto circuito incendiário a qualquer momento. Um pequeno armário de aço branco, parecido com esses de postos de saúde da periferia das cidades grandes, se apertava entre a porta do banheiro e o que sobrava da parede. Sobre a cama duas prateleiras ameaçavam, pela pouca altura, quem se deitasse ou levantasse dela. Era difícil imaginar alguém ficar ali sem ferir-se. Num turbilhão Clarice viu passar na velocidade da luz os últimos acontecimentos de sua vida e neles a consulta ao site de hotéis baratos próximos do local onde teria seu encontro de trabalho. Lembrou-se das fotos dos quartos e constatava agora a farsa que escondiam. Aquele lugar cheirava cena de crime. Pensou na viagem agendada para aquela reunião de trabalho ocasião em que nenhum hotel dos que ela conhecia, havia vaga, só aquele saltava na tela com apenas um quarto disponível, num impulso fez a reserva. Agora estava ali com uma única certeza: não podia ficar. Lembrou-se de Laura com quem cursara direito, agora  policial de elite morava na Capital. Ligou para a amiga numa tentativa de se  comunicar com alguém fora daquele contexto em busca de uma reação qualquer. Contou o que acontecia e Laura a aconselhou sair dali, prometendo vir ao seu encontro e ajudá-la a encontrar um lugar seguro para passar a noite. Clarice pegou todas as suas coisas, fechou a porta e se retirou. Alguns homens que pareciam trabalhar na obra a olhavam. Um deles falava ao celular. Clarice ficou pensando no que falaria na portaria para justificar-se tão apressada. Formulou uma desculpa sobre a antecipação da saída, torcendo pra não ter que explicar muito e nem deixar transparecer que não voltaria mais. Na portaria, tudo abandonado. Clarice deixou sobre a mesa as chaves do quarto, aliviada  por ninguém a ver sair. Nem trinta minutos transcorrera da sua entrada e saída daquele lugar. Seu carro ainda na rua esperava o manobrista para guardá-lo. Sentiu-se em fuga e perseguição. Olhou em volta pra ver se Laura se aproximava, constatou que não houvera tempo. Jogou suas coisas no banco do passageiro e deu partida. Mal podia acreditar naquilo tudo. Quando achava que estava livre, do banco de traz, o tal guia do pseudo-hotel, num gesto veloz laçou-lhe o pescoço, apertando até tirar todo seu ar. Desfaleceu. Ao tentar passar para o banco da frente, ele acionou o alarme do carro, Laura estava chegando, correu até a janela e viu Clarice desfalecida. Imediatamente imobilizou o homem algemando-o. Uma viatura chegava ao local. Entraram para vistoriar o lugar onde encontraram além de inúmeras irregularidades e muambas, bagagens de hospedes possivelmente desaparecidos... Clarice foi escoltada de volta até sua casa. Um banho, uma ligação para os compromissos de trabalho e por fim, o descanso para rever distanciada da cena, aqueles trinta minutos resultados da confiança que atribuiu as informações sobre a hospedagem num site da Internet.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Lugar


Lugar de ser outra e abrir janelas que  não estavam lá.
Lugar de  ver o céu arrebentando em luz de estrelas sob o luar...
Lugar de perguntar todos os dias, a direção da bússola do coração.
De saborear  um gosto novo a derretar a manteiga no mesmo pão
De debruçar sobre a tela, a página, a aquarela e ouvir uma canção.
Lugar de ser outra na mesma que sempre fui
Lugar de deixar o riso perder o ar e achar o caminho de se alegrar
Lugar de esquecer o tempo e então...pra sempre  ficar
Lugar de navegar no pensamento sem pressa de acordar
Lugar do sonho acalentado e resgatado pra realizar.
Lugar de ser outra, pra ser a mesma e perguntar:
Como partir desse lugar?
Como voltar e ver se ainda há outra a me esperar?
Como saber se ela é a mesma ou se essa outra é o seu lugar?

quinta-feira, 28 de março de 2013

Costureirinha da Corte

Saltou cedo da cama, vestiu-se, correu para a sala de costuras e  juntou-se com as demais costureiras que atravessaram a madrugada, debruçadas sobre os vestidos para o próximo baile da corte.

Seu compromisso era com a calça de seu nobre e galante soldado, cavaleiro do Reino.

No último combate, defendo as honras do Rei,  feriu-se e teve sua farda destruída na altura dos joelhos. Coube a ela restaurá-la.

Ficou lisonjeada pois sabia dos seus encantos, correntes nas rodinhas de mulheres por todo o palácio. Elegante, Olhar de segredos, Calado, misterioso, gentil, delicado, de beleza singular, porte gigante, e braços capazes de contornar os sonhos de uma costureirinha como ela.

Hoje ele viria fazer a ultima prova e finalmente  poderia vê-lo pessoalmente.

Mal dormira aquela noite que antecedeia o arremate da costura e a prova.

Durante o feitio com a calça entre as mãos podia ver seu corpo dentro dela. Suas pernas fortes e cheias de músculos, cicatrizes de herói espalhadas feito desenhos tatuados, troféus da vitória. A cintura delgada como de uma Princesa, escondia um mistério encantador.

Por vezes se via abraçada com a roupa presa entre as mãos coladas em seu peito.Seu cheiro estava lá. Sua energia toda se mantinha nela, podia sentir seu pulsar. A emoção lhe tomou a garganta e uma vontade louca de beijá-lo a fez inventar os detalhes desse sonho. Mas não dormira para sonhá-lo.

Separou suas saias de renda e avental bordado, perfumou o corpo, carmim nos lábios, um ramo de flor de laranjeira prendeu nos cabelos e esperou o dia clarear.

Já no salão das costureiras, terminado o trabalho, avisaram de sua chegada. Tinha que espantar a timidez. Correu em sua direção com a peça nas mãos. Ele estava lá parado  fitando-a.

Suas pernas tremiam, seu coração pulava tentando achar um lugar seguro dentro do peito arfante. Ele a viu! Sentira isso. Olhara dentro de seus aposentos secretos e se viu lá com ela no sonho que inventou. Sorriu. As outras mulheres de longe, excitadas, assanhadas, mal continham gritinhos de euforia, esfregavam as mãos, se abanavam o calor, quase se tocavam o próprio corpo cheio de contido e insatisfeito desejo.

Ele só tinha olhos pra ela que estendeu a peça e perguntou Vai provar? Ele sem titubear foi tirando a farda. Pode ver suas ceroulas longas de cor cinza colada ao corpo daquele Adônis de seus sonhos. Estava diante dela. Virou o rosto e só se voltou quando terminado. Ele dizia com voz límpida e forte. É a minha preferida, obrigada ficou ainda melhor, como conseguiu? Sem graça falou ...eu também não sabia que conseguiria...se tiver outras posso tentar. Ele então se inclinou pegando-a com as duas mãos pela cintura, puxando-a para seu corpo sentou-se no banco próximo de  e a colocou em seu colo. Era o sonho que ela inventara acordada por falta de sono. Então acariciou seus cabelos aproximando os lábios. Não queria parecesse uma mulher vulgar e fácil, mas...sabia que fácil não era mesmo. Quando uma costureira da corte, escravizando seus dias cinzentos dentro daquele imenso salão, rodeado de mulheres bisbilhoteiras, largadas e gordas,  de dedos rasgados pelo trabalho insano das agulhas rombudas e ferinas, bocas de dentes faltantes, quebrados, escuros, quando viveria algo assim? Ser uma delas era o seu destino. Mas ela sabia inventar sonhos. Quando ele se despediu deixou entre meus seios um lenço com seu nome: Loren. Ao voltar para a costura, ainda com a pressão de suas mãos amassando-lhe as vestes, tocando-lhe o ser, as mulheres a rodeavam com perguntas toscas: Afinal quem era essa jovem? É mesmo o soldado do Rei? Mas não seria uma donzela?De onde tira aquela força para te abraçar?Você está apaixonada? O que pretende fazer?Ele ou ela pertence a linhagem nobre de guerreiros? Delicado demais para um cavaleiro! Deixem-nos ver o que tem ai entre os seios! Foi tomada de uma vertigem escurecedora e fria. Atiraram-se todas sobre ela, rasgando-a inteira, derramaram suas frustrações todas sobre seu sonho, sentia o cheiro azedo delas sobre si. Tirou-se dali voando nos pensamentos. A noite escureceu o lugar. Espalhadas pelo chão as flores de laranjeira. Um lenço de renda em pedaços soletravam um nome...Acordou nos braços de Loren.

segunda-feira, 18 de março de 2013

De Clarice pra Clarice.

Nenhuma sentença foi capaz de expressar os sentidos
Da  voz que ecoou lamentos em meus ouvidos
Pausa pra escurecer o dia
Noite que resolve ser fria
Janelas que batem asas abertas
Peito apertado
Coração vazio
Pranto regado
Riso escondido
Tempo passado
Perdido
Coro manhecido
Clarice murmura
Na surda penumbra
Seu sonho  esquecido

domingo, 17 de março de 2013

desnuda luz

A janela tocada pelo vento frio abriu as asas, deixou cair os panos finos que recobriam aquela luz
Aqui  de fora dentro de mim soprou calado o pensamento
E a alma muda  gemeu baixinho
Deixou o tempo ventar  sozinho
E a solidão do  anoitecer
Amanhecia o meu viver

Coisa alguma













Nenhuma certeza
Nenhuma pergunta
Nenhuma clareza
Nenhuma dúvida
Nenhum problema
Nenhuma nada que me faça ser
Alguma coisa que eu queira ter
Nenhum aviso
Nenhum sentido
Nenhum convite
Nenhum vestido
Nenhuma coisa que eu queira ter
Nenhum aviso a me entreter
Nenhum sinal
Nenhum canal
Nenhuma voz
Nenhum calor
Nenhum torpor
Nenhum clarão
Nenhum vazio
Nenhuma dor
Nenhuma flor
Nenhuma coisa que seja alguma
Que eu queira ser pra ser inteira
Nenhum calor
Nenhum sabor
Nenhum um bilhete 
Nenhum amor