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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Presente de aniversário


Era véspera de meu aniversário. Fomos todos para um lugar longe das coisas urbanas. Todos era eu, meus filhos, netos, noras, genro, marido e uma amiga de velhos tempos. Levamos alimentos e agasalhos, música, livros e bagagem para poucos dias. Chegamos de carro até certo lugar e descemos com nossos pertences distribuídos entre nós. Nos embrenhamos na floresta guiados pelos feixes de luz que vazavam as folhagens. Seguíamos instruções de um mapa feito manualmente. Contávamos árvores, trilhas, e seguíamos sempre em frente. Uma hora de caminhada e chegamos. Uma clareira no meio da floresta nos aguardava com acomodações em chalés que mais pareciam ilustração de livros infantis. Com algum esforço era possível ver coelhos de saia e anões de verdade... E sem esforço algum via diante dos olhos, flores das mais diversas cores e formas, perfumes e tamanhos adornando o lugar como cerca viva. Uma mangueira frondosa abrigava passarinhos que cantavam afinadíssimos. O cuidador do lugar nos recebeu enxugando as mãos. Tinha um rosto enrugado, olhos verdes claros, um chapéu que escondia os cabelos ralos e alvos, a barba branca azulada crescida. Lembrava-me Quintílio Galli meu avô paterno. Perguntou quem era a aniversariante e eu me adiantei... Sou eu. Meus parabéns, disse ele, você chegou a tempo de ver alguém que veio para lhe ver. Abriu um dos braços apontando para ele que entrava sorrindo de braços abertos para um abraço em minha direção. Vestia azul claro fazendo o azul dos olhos mergulhados no brilho, iluminar sua face serena. Chegou perto de mim e me abraçou suavemente, senti seu rosto  e sua voz sussurrou aos meus ouvidos: Gostou do sonho que eu fiz você sonhar? Só então percebi que durante todo o tempo, todos que estavam comigo não falaram, as crianças não choraram ou reclamaram, minha amiga de velhos tempos nem mesmo cantarolava como de costume enquanto caminhava, meu marido não falara coisa alguma ou seja: eram todos figurantes no cenário que era parte de meus quadros, meus bordados, minhas plantas meu imaginário. Ele me deu um sonho de presente de aniversário. E no sonho estava ele, seu abraço e sua ternura que mora em mim.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Saudade em vigília

Está chegando o  aniversário da partida
Preparo a alma a recordar a despedida
Tracejo linhas que demarcam nossa  vida
Escrevo um verso e suavizo a dor sentida
poucas palavras
roucas palavras
ocas palavras
garganta atatada
nó sem gravata
brilho sem festa
manhã gelada
tarde esperada
noite sem nada
E eu  com saudades das mãos e do olhar esverdeado e brilhante de meu Pai.-
manhã gelada...
terapias sem lógica...
frio sem propósito...
dor sem relógio ...
transfusão sem saída
tristeza sem medida
lágrima reprimida
espera estendida
olhar afogado e sem prisma
saudade doída...
Doida saudade em vigília
Constante vigília...

sábado, 17 de julho de 2010

MENINA

Herdeira de nossa esperança
No mundo dos homens
Protagonista das inovações de seu tempo
Precursora das ações que ficaram por realizar
Portadora de nossa convicção
De que só pelo criativo e livre pensar
Nos defrontamos com questões essenciais
E promovemos a emancipação

A menina chegou...

Cheia de encantos

De beleza e generosidade infantil

Veio trazendo na bagagem novidades

Dentre elas o instrumental para o século XXI
E seu projeto existencial para o presente curso
Escolheu seus protagonistas
Pai, Mãe
e o Irmão
que lhe abrira o caminho

para chegar mais rápido.

A menina chegou...

Esperada e amada chegou

Para ser menina

Para ser musa inspiradora

Para ser semente,
árvore,
flor,
semente...
A menina chegou e se alojou:
Em nossos corações 
Em  nossas esperanças.
Eu, ela e eu
Nos encontramos nela - Em mim
Num elo de gerações de busca
Do belo, da essência, do amor...

A menina esperada chegou...

E nos fez de novo
A todos nós
Menina...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A CASA VAZIA DE MEUS PAIS


Vivo a experiência da partida e sinto-me ainda suspensa no ar.
Hoje visitei a casa vazia de meus pais. Era preciso desocupar tudo para venda.
Me senti os escafandristas da música do Chico, revirando os resquícios de uma estranha civilização. Sim pois a vida de meus pais foi uma civilização à parte da minha. Tiveram identidade própria e autonomia cultural. Do saravá aos boleros, fizeram das suas, as vidas que escolheram, caminhos que traçaram. Amigos amantes, traições consentidas, passeios, brigas e paixões.
Um par de alianças de prata escurecida, com frizo de ouro rolou de uma caixinha caindo aos meus pés.
O registro das bodas de prata, as de ouro vieram depois, sem alianças ou qualquer outro marco burguês.
Cartas, lembrancinhas de fatos que desconheço, toalhas de crochê, taças dispariadas, tampas sem panela e vice-versa, vasos de cristal falsificado de uma época em que não haviam camelôs e nem os genéricos chineses. Será que vaso de cristal falso de 30 anos atrás vale mais que um vaso desses hoje?
Como se quantifica o valor das coisas?
Ferrugem, trinca, manchas, valem pelo tempo muito mais que pelo estado em que se encontra?
Trinta pares de meia na embalagem sem abrir. Meu querido Pai penso eu, não suportava mais ganhar meias de presente. Sua vingança era não tirar do pacote.
Duas carteiras na embalagem. Preferia a dele, velhinha macia e experiente.
Três caixas do boticário sem abrir.
Cinco perfumes finos fechados.
Seu armário de roupas era um almoxarifado de camisas de marca (Yves Saint Laurent, Aramis, e outras) que o filho deve ter comprado e não gostou. Sobras. Criou um cemitério dessas peças extravagantes e sem nenhuma identidade com ele. Alojou-as em seu armário por delicadeza. Que merda! Que vida! Que morte! Que "rediculo" como diz meu neto primogênito. E eu digo: Como viver e não reproduzir essa merda?
SuêGalli

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O espaço na lápide

 
Passagens
Viagens
Bagagens
Embarques
Percursos
Pernoites
Paragens
Chegadas
Partidas
Registros da vida
Quero um espaço com pauta em minha lápide
Não preciso de lugar para o efêmero corpo e seus adornos
Nem de flores condenadas 
Mas não abro mão de um bom espaço em minha lápide
Não faço questão de benzimentos e missas
De palavrórios que ecoam e se perdem na despedida
Mas eu preciso  de boas letras  em minha lápide
Quero que ela seja banhada nas noites pela lua
E que fale num texto eloquente
Do amor que tive pela vida
De minha viagem que não termina
Como bom viajante que traz na bagagem
Mapa, bússola  e um plano de resgate
Da existência em processo e evoluida
... ... ... ... ...
De malas prontas, outra vez

Novos projetos na bagagem
Outros amigos e amor talvez
De malas prontas, outra vez
Levo comigo os troféus
Frutos de aprendizagem
De outros percursos meus
De malas prontas, outra vez
Pronto para embarcar
Novos sonhos realizar
E dificuldades superar
Os defeitos já resolvidos
São conquistas a considerar
A todo viajante evoluído

Casa Puebla - Punta Del Este

Quando tudo parecia perdido...
Foi preciso ir para bem longe
Para encontrar-me com o aqui mesmo
Nos jardins da Casa Puebla
Encontrei-me nos escombros de mim mesma
No sótão do coração
No almoxarifado das relíquias sagradas
Dos valores estabelecidos
Da verdade acreditada
SOLILÓQUIO
Perder as origens eis uma ameaça que sempre me abalou. Origem cultural, genética, fenotípica.
Acreditava que isso só acontecesse se  sofresse um terrível acidente que me deformasse o corpo e a mente.
 Mas não.
Descobri que a tristeza profunda consegue fazer isso.
Transformar-me em uma outra.
Perceber que isso pode ser bom  embora tenha todas os sinais de ser ruim...

A tristeza bateu forte
Minha vida ela abalou
Foi um vento lá do norte
Que o meu sul desabou
Desarrumei toda casa
Movi quadros da parede
Tirei o pó dos guardados
Deixei janelas voar
Reuni os meus desusos
Que um dia utilizei
Enchi pacotes de mim
De alguém que não sou mais
                            Abri espaços na estante
De coisas e vaidades
Hoje o lugar que ocupam
                           Não tem mais razão de ser
                                Parei pra repousar
Nas notas de uma canção
E veio então pra mim
Novo arranjo e a explicação
Que a tristeza do começo
Era só a indicação
De que o amor é o cimento
Pra minha recontrução

quarta-feira, 7 de julho de 2010

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Criação literária :Seqüela

autora: Suê Galli
Era o ano de 1958.
A ferrovia estava em greve, mas alguns maquinistas de carreira se negavam aderir ao movimento.
Os líderes articulavam estratégias para que todos ajudassem a barrar os trens, guiados por aqueles que resistiam à paralisação, “furando a greve”.
Podenciano era um jovem ajudante de maquinista em sua primeira ação grevista. Durante o período de paralização dos trens pelo movimento grevista, ele chegava em casa todos os dias e tornava-se o herói para os filhos e a mulher que ouviam os relatos de mais um dia de greve na companhia ferroviária. Era a voz do mais engajado dos grevistas. Apaixonado pela ferrovia e pelo seu trabalho de ajudante, limpador, acreditava que a greve tornaria ainda melhor sua vida e dos colegas que passavam até 12 horas em cima da máquina, longe de casa.
Num dia em que já se esgotavam as forças e articulações do movimento, um “pelego”, desafiou a paralisação dirigindo-se para a Estação Ferroviária, onde se concentravam os operários. Ao ver o maquinista subir em uma das máquinas e acionar a partida, Podenciano deslocou-se do grupo e arremessou-se para os trilhos postando-se diante da máquina e dos vagões que compunham um trem de carga pesada. Ficou lá com os braços abertos em cruz, esperando que o maquinista parasse o trem. Os colegas que assistiam a cena perderam a respiração, emudeceram, transpiravam de nervosismo e tensão. Um corpo estava prestes a dilacerar-se entre as ferragens. O corpo de um homem, trabalhador, apaixonado pela causa. O trem não parava, aproximava-se lenta e continuamente. O sol refletia nos trilhos gastos ofuscando a visão. O calor escaldante, fazia exalar o suor dos trabalhadores parados há dias. Tinham a aparência de quem não comera, não dormira, não tomara banhou desde o último dia trabalhado. A greve os flagelava. Amavam o trabalho. Sentiam-se os super homens das máquinas a vapor ou a diesel, que acertavam a hora dos relógios da cidade, com seu apito de chegada e partida. Trem de carga. Trem de passageiro. Manobristas, Limpadores, Ajudantes, Maquinistas. O trem continuava deslizando sobre os trilhos e o homem não desistia de pará-lo com o próprio corpo.
Com o fim da greve acabou também a espontaneidade de Podenciano. Sem saber direito por que, a família e os amigos perceberam que ele se tornara um homem meio calado. Perdeu o entusiasmo de narrar os episódios daquele grandioso evento que o fez, por um longo período, herói.
O tempo passou e as pessoas que o conheciam acompanharam sua crescente ansiedade pela aposentadoria. Antecipou-a e declarou-se um homem livre, quando recebeu a carta. Nesse dia, colocou a roupa mais bonita postou-se diante de um espelho em sua sala de estar e tirou uma foto com os dois braços abertos prontos para um abraço, ou para parar um trem. Mandou um exemplar para os filhos que o acharam feliz e que isso o faria voltar a narrar aos netos as aventuras e façanhas como o fizera antes. Mas não. Podenciano caiu numa profunda tristeza e começou a esfriar.
Mais tarde, descobriu-se que após a greve fora tachado de perigoso e estigmatizado no trabalho. Transferido de um local para o outro não tinha mais amigos nem apegos. Dez anos depois, durante a ditadura militar dos anos 70, ainda na ferrovia, desapareceu por duas vezes, ficando dias sem dar notícias. Na segunda vez, voltou com a conversa de parar de trabalhar e, aos 45 anos já era um velho aposentado.
A vida na ferrovia roubara-lhe qualquer possibilidade de uma outra identidade senão a de fazer parte dos trens, suas rotas, seus reparos, seus atrasos, seu fascínio. Por muitos anos continuou indo à estação ferroviária para ver a chegada e partida dos trens que permaneceram no antigo horário. Logo isso também perdeu o significado. Comprou um carro, que passou a substituir a máquina que dirigiu até aposentar-se. Bom maquinista, bom motorista. Ainda hoje, quando recebe notícia da morte de um companheiro ferroviário, é ele quem transporta os colegas mais velhos e debilitados para o velório: derradeira reunião cuja assembléia traz como única pauta a despedida.
Encontrei Podenciano domingo passado na casa de amigos, comentei que na segunda feira teria uma assembléia de professores para decidir questões que mereciam uma paralisação. Ele ficou quieto ouvindo. Sabendo de sua história o provoquei lembrando a passagem da greve de 58 e o episódio do trem fura greve. Ficou calado de olhos brilhantes, fixos em mim, até que interrompeu-me dizendo: Naquela época eu era um louco perigoso para meus colegas.