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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

2011 autor desconhecido

2011
Carta de intenção autor (a) desconhecido

Era a reunião de encerramento e avaliação da Consultoria que eu prestara nos últimos dois anos, seguida de confraternização típica de final de ano. Terminado tudo, fiquei na sala ainda mais um tempo desligando equipamentos, guardando pertences, pensando nas falas das pessoas, suas expressões e olhares, fragilidade dos sorrisos que se esforçam para se mostrar serenos. Pensava também no percurso que eu fizera naquele contexto, pessoas que conheci, outras que me recusei conhecer e ainda as que vieram comigo no pensamento.  Já ia me retirar quando notei entre os papeis deixados sobre minha mesa uma folha dobrada em quatro e sobre a face superior, escrito em letras maiúsculas: 2011. Era uma carta deixada, esquecida talvez, ou ainda, e por que não, endereçada a mim, não sei por quem e por que razão. Cheguei pensar que poderia ter sido escrita por mim mesma, num tédio durante a reunião... Não tinha muita certeza até ler sem pressa, deleitando-me ao identificar ideais, muito próximos dos que seriam também os meus, a carta dizia:
Quando um ano termina no seu último momento, leva com ele o que não queremos mais que continue conosco no novo ano que começa... É assim uma espécie de reengenharia do ano sabe como? Perguntamo-nos: do que vivi e vivo o que quero viver de novo ou continuar vivendo no novo ano? O que não quero mais, e o que  re-viveria de um jeito diferente e novo? No entanto essa é uma atitude que reúne exigências de escolhas e decisão nem sempre fáceis, muito menos as portas do ano novo, quando o velho ainda insiste em seus apelos pra viver até seu último suspiro aquilo que trouxe consigo, seja sonho ou pesadelo. Por isso essa carta de intenções: plano de bordo, instrumento de controle e planejamento dirigido a mim mesmo: comandante desse navio quase sempre a deriva, tripulação de origem complexa, mapas alterados, bússola quebrada, instrumentos de bordo fictícios, destino desconhecido.

Quero deixar neste 2011 a compor o passado:  tudo o que transbordou quase insuportável em minha vida: seja em emoção, sentimentos, seja preocupações e incertezas, medos e angustias que me enfraqueceram o espírito de decisão, marca maior de minha identidade. Deixo com 2011, o que se me mostra impossível realizar com arte e encantamento em 2012 e nos outros anos que o seguirem. Faço agora exercício solilóquio a identificar todos esses guardados dos quais quero desguardar. Desfazer e dês-sentir a sensação de suspense que me toma, diante de situações desconhecidas, enigmáticas de solução, esdrúxula de compreensão, e feito de perguntas que se despedaçam, multiplicando incertezas, muito mais que curiosidades e desejo de respostas... Soluções, ainda que capazes de acenar novas dúvidas... Deixar 2011 levar com ele o que termina, sinalizando o que deve terminar pra que 2012 venha pleno de esperanças e utopias, prestes a se tornarem projetos viáveis, invenções grávidas de realizar emoções e sentimentos verdejantes, prósperos e latentes de vida real, temperadas pelo imaginário criativo e prazeroso... Que leve com ele, esse 2011, os sentimentos que aperfeiçoei com inventos que aprenderam a me enganar com inexistentes perspectivas, ganhando vida própria a sabotar a imaginação de mudar o foco e sair do alvo que me acerta fatal sem escolha, sem brechas, sem alternativas... Dar a 2012 o potencial de fazer ressurgir a capacidade de domar sentimentos estranhos, inviáveis e impossíveis de se sedimentar... Transmutá-los, redescobri-los noutros lugares, elementos e fazeres... Domesticá-los... Torná-los sob controle e palavra de ordem, livres da desordem que deixa assim, o vazio do não se saber pra onde ir... Camuflam o desejo de não querer mais ser assim, a que me tornei, e que toma conta de todas que fui, tirando-me a liberdade, de não ser mais, quem não quero ser... Tempo de domar-me a mim mesma restituindo-me o que perdi nesse labiríntico caminhar a que me propus insensato, inventivo e desleal comigo mesma, na medida em que me deixo assim enigma de mim mesma, senha esquecida, código alterado, razão destituída, excessiva poesia a me roteirizar cada ato... Confio a 2011 este senhor gentil e maduro que se despede de mim, retirando-se da festa que me dei neste ano, inclinando sua cabeça alva, pele enrugada e mãos calejadas, envelhecidas, sorriso generoso, voz suave a me pedir clemência pra comigo mesma  nessa despedida...confio a ele levar consigo, o que trouxe pra mim, sem me avisar que traria...Que retire de minhas entranhas, pele e pensamento o imaginário que criei e passei a co-existir abandonando-me por inteiro a que sou presente e responsável por mim mesma, meus sonhos, fantasias que inspiram fieis, toda a arte que me faz, a que fui na versão 2011 e a que quer ser versão 2012.
Reli várias vezes a tal carta. Em todas elas fingi ser eu mesma sua autora, o que me causava ao mesmo tempo estranhamentos e lucidez. Por fim acalmei meu lado racional. Afinal, era apenas uma carta esquecida sobre minha mesa, por alguém que podia até mesmo, não ser eu mesma... Mas alguém que precisa escrever o próprio mapa com o que acredita ou inventa pra se divertir, brincar com ideias e palavras, tentar se conhecer, desfazer-se do que fez no ano que termina  e desenhar intenções pro que vai nascer. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Se eu fosse eu

Clarice Lispector propunha em um de seus textos que nos fizéssemos  a pergunta e se eu fosse eu, o que eu faria?

Me peguei naquela manhã, como me sinto as vezes, com uma vontade danada de ir embora de mim mesma. Deixar essa parafernália de ideias que sou, parar o circuito do pensamento, batimento do peito, o bombeamento de sangue, fluxo de ar...abandonar-me em algum lugar e ficar olhando de longe o que acontece...se fico ali perene, se chove e molha meu corpo, se um cão se aproxima me cheira e lambe meu rosto, se alguém se espanta e me vê, se fico imóvel o bastante, se me canso da posição e desisto de vez, me levanto, aprumo meu ser, me alongo e retomo o caminho que faço com cada movimento e cada passo, no passo a passo que preciso pra me saber e me querer, sem ter vontade mais, de me deixar em algum lugar, longe de mim perto do mar, dentro do nada, cheia da que sou e assim, busca sem fim do que não sei e do que pensei soubesse saber de mim.
Me peguei por fim decidida a não largar de mim, me prometi tantas coisas inclusive me cuidar  feito bonsai raro e dotado a vida longa e pensei então responder pra Clarice, minha musa de tantas escritas e leituras, se eu fosse eu tomaria mais cuidado com a que sou, se eu fosse eu, criaria uma rede social pra contaminar com meu pólen e aumentar minha espécie quase em extinção e se eu fosse eu, ninguém que me conhece me reconheceria, seria bem diferente dessa que sou, se eu fosse eu seria, com certeza, esta que  adoraria que fosse...se pudesse ser eu.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Natal

Era preciso sistematizar o processo criativo que ocupava agora, ponto de ouro da criação da qual se ocupava e pré-ocupava os que consigo viviam. Essa  estranha e enigmática que não se sabia ao certo se doente ou apaixonada, se perdida nela mesma ou se procura ainda a própria estrada, caminho sem ponto de partida definido, muito menos de chegada... que depositou, covardemente,  na perda de alguém todas as frustrações em forma de dor... que cientista se  auto-gere e alimenta vegetariana a mesa de trabalho e de alimentos...que reconhece o guardião atento e presente em seus dias... explica sem convicção a crença na reencarnação, na certeza no entanto de que nesta edição da vida só o pensamento organizado e criativo pode sim reelaborar a existência e lhe dar tantos quantos desejar, sentidos...esta que projeta em seus discipulos e descendentes  o que quer que dela tenham nas próprias ideias, sentimentos e pensamento... Sistematiza agora a explicação, que tenta fazer descomplicada, o processo criativo que a torna quem é e povoa seus dias com o que de melhor, pra si mesma, é. Neste natal e sem arrogância que possa parecer, de presente pros que perdem, ainda que algumas poucas células, prestando atenção no que faz, escreve, pensa e parece ser...

Transforma tudo que não pode viver na materialidade em idéias, pensamentos que se tornam ficção, literatura, inventos para os quais se dedica em aperfeiçoar sua arquitetura. Torna-as cada vez mais real, a lhe dar formas, características, traços, identidade! Delineia o invento ao ponto dele se tornar quase visível, real, ocupando lugar em seus dias, seus sonhos, fantasias, suavizando com leveza uma boa parte de sua realidade concreta, feita de verdades absolutas que impedem o refrescar de um outro e novo sopro de ar do olhar sem guia... Sim vê as coisas que cria, sem ter o diagnóstico da esquisofrenia, precisa dessa visibilidade construída no imaginário pra ser então transcrita com palavras e trazê-las a vida. E então reais,  no texto, podem ser lidas quantas vezes quiser, gesto que lhe dá, por meio de outras idéias, de seu acervo, elementos de interpretação capazes de aperfeiçoar, e aperfeiçoar cada vez mais o invento, ideia, pensamento. Armazenadas pra serem aplicadas em outras projeções criativas, ou simplesmente a espera de um emprego contextual, as idéias moram também ao lado da conversação, saindo na janela pra se mostrar, sempre que percebe a presença de escutadores atentos, interlocutores capazes de vê-la em sua magnitude, e esplendor de uma ideia constituída de valores, sensibilidade estética, significados filosóficos, poéticos, imagéticos, fugidios da realidade inóspita que possui vida própria e não necessita delas: idéias de coisa alguma que possam ser quantificadas em sua essência. Oriundas do pensamento, as idéias são materializadas na escrita de textos enredos, histórias e descrição de situações que reúnem outros tantos inventos pra compor e dar sentidos a cena, interligações e forma concreta ao que nasceu no abstrato, totalmente abstrato pensamento. Idéias assim que necessitam de alimento. Não de qualquer um, mas destes que também são meio que ficção e invento, abstração de idéias ou releituras de fatos, sentimentos e acontecimentos. Alimento esse, precioso e raro, que se esconde no imagético sem fronteiras do pensamento, que determinado a prosseguir seu percurso, cria num circulo hermenêutico, dialético,  as mais diversas expressões da sensibilidade, por meio do cultivo de idéias, nascidas de pensamentos férteis, profícuos, movidos da inquietação, que se desacomoda e vai ao encontro, na publicação, sair da mente solitária, dos arquivos e habitar tantas outras paragens, ideias...a fertilizar, germinar, multiplicar no pensamento de quem delas se acerca, simpatiza e se apropria como célula que se oferece a citocinese, novas criações e autorias....novas eu que possam surgir e deixar nos seus, essa dúvida: se está apaixonada, doente, quer partir...ou se de tudo isso, é quase tudo ...e não é nada!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Remorso social

Precisávamos de uma casa maior... Compramos um terreno num lugar novo da cidade que se tornou, em menos de seis meses, nobre e super valorizado pela chegada de um shopping de luxo nas imediações. Construímos nossa casa e vimos então que nossos vizinhos eram pessoas muito ricas e por isso amedrontadas... Na ocasião, além de pesquisadora eu atuava junto aos movimentos sociais, envolvida diretamente com as camadas pobres da população, sobretudo um grupo especial de trabalhadores marginalizados que cumpriam pena em regime aberto... Eu os alfabetizava com minha equipe estudantes pesquisadores... Testávamos uma metodologia de ensino da linguagem escrita. Não fazia dois meses que eu estava morando na casa nova... Era domingo e tínhamos terminado nosso almoço... Todos em casa. Assistiam ao filme o 5º. Elemento, na sala ao lado... Eu retirava os pratos da mesa quando ele invadiu a sala... Entrou pelas portas dos fundos, tinha uns 20 anos, cabelos claros, magro alto, olhos fundos, estava trêmulo e de sua boca escorria uma baba espessa, em uma das mãos o gargalo de uma garrafa de vidro quebrada como arma, descalço, camiseta rasgada era quase um animal feroz, ferido... Deparei-me com ele quando atravessava a sala indo pra cozinha... Entrara saltando a cerca de proteção elétrica dos fundos, devia ter levado choque além de cair pesadamente... O alarme foi acionado e não demoraria muito para que os seguranças todos cercassem a casa para levá-lo... Quando vi o que poderia acontecer... Fechei rapidamente a porta da sala de tevê trancando minha família... Aproximei-me dele perguntando: Está tudo bem com você... Machucou-se? Ele me dizia: vim roubar... Quero roubar... E eu falava tudo bem, calma, Quer água? Ele fungava e vinha pra cima de mim... Quero roubar, eu vim roubar... Eu não parava de falar... Como conseguiu pular a cerca elétrica?Dizem que é perigoso... Você Levou choque? Então ele diz... Choque? Isso pra mim faz cócegas... Aproveitei que começou a falar, perguntei... Qual é o seu nome? Será que não conheço? Não! Não me conhece vim roubar! Tudo bem  dizia eu, mas vamos conversar você me parece alguém conhecido...será que não foi meu aluno? Ele pela primeira vez parou pra olhar meu rosto... As drogas que consumira começava a enfraquecer o efeito... E eu continuava... Se não foi você algum irmão seu deve ter sido meu aluno, sua cara não me é estranha... Quer comer alguma coisa?E então ele falava... Quero dinheiro! Está bem vou dar dinheiro pra você comer, mas antes vai provar minha lasanha... Deu-me pena dele... Começava a se enfraquecer... Os seguranças já haviam cercado minha casa... Eu falava pra ele... Coma um pouco e vamos sair daqui... Confie em mim... Jogue esse vidro ainda vai se machucar com ele... Quero ajudar você... Fui até a garagem tirar o carro pra levá-lo pra fora do condomínio, mas não consegui fui cercada e tiraram ele de mim... Ele gritava: ela é minha amiga... Foi minha professora... Eu não fiz nada! Fiquei aterrorizada... Jogado no camburão ele gritava me chamando... As pessoas que se acercaram me olhavam como se eu fosse um chefe de gangue... Levaram ele preso... Chorei muito naquela noite... Senti-me tão inútil... No dia seguinte uma convocação da diretoria do condomínio pedia minha presença em reunião extraordinária... Fui. As pessoas representavam os moradores que se diziam ameaçadas com minha presença e dos tipos que se diziam meus amigos... Na mesma hora fui informada que o rapaz já tinha várias passagens pela policia por furto com dois registros de homicídio, era perigosíssimo!Não era nem fora meu aluno, nunca o vira antes, usei isso pra tentar tocá-lo com meus sentimentos de gratidão e remorso social pela sua condição. Tentei explicar o que acontecera e de como eu tentara acalmá-lo por segurança de minha família e dele mesmo... Alguém dos presentes colocou sobre a mesa um jornal onde eu aparecia entrevistada sobre o projeto social em que atuava... Era para eles a prova de meu envolvimento com os tipos suspeitos que tanto temiam... Eu ainda não tinha visto o jornal, quase fiquei feliz ao ver as fotos dos meus monitores atuando com os operários da construção civil sob minha coordenação... Mas não havia tempo pra emoção ou orgulho naquela hora... Tive que assinar um termo de compromisso para futuros episódios... Voltei pra casa me sentido exatamente como os sujeitos de minha pesquisa-ação. Esse fato já tem 10 anos. Hoje sou colaboradora da diretoria do condomínio desenvolvo projetos culturais e de ajuda social (rico adora isso). Conclui meu pós-doutorado, uma titulação  reconhecida nas universidades, onde eu moro continuo sendo a pessoa que um dia colocou em risco a segurança dos moradores... Isso por que tentei tratar um "bandido"  como ser humano na esperança dele se lembrar que o era.

Expedição

Amanheceram daquela noite  inúmeros sinais de alerta sobre as tempestades  prenunciadas. Avalanches desmoronavam a sustentação do arsenal que munia a criatividade desmedida, interrompível, transgredida. Vigilante e guardiã do seu bem mais precioso ela resolveu partir em uma nova expedição  de reconhecimento de um lugar seguro e de acessos passíveis de interação que somam conhecimento, ampliam os horizontes da interpretação e enriquecem as possibilidades de inspiração sem fronteiras, censura, limitações físicas ou virtuais...Aquele era um tempo em que as chaves abriam as portas ao sabor de um código nem sempre secreto. O visitante chegava sem avisar  munido de sua senha sem dizer bom dia ou até mais....chegava e partia, alimentava-se com o que buscava  sem nem mesmo haver troca de energia...Não havia mais dúvidas que era preciso um outro lugar...Com novo desenho e compartimentos...  Pensou fazer as malas...encaixotar o pensamento pra que as ideias não fugissem receosas de mais uma mudança sem levar nenhuma certeza...Recolher os arquivos e fazer as malas... Se mudar novamente... Para outro espaço virtual... Desta vez sem endereço de acesso ou fuga... Sem caixas vazias nas mãos... Sem as palavras dos textos protegidos, caindo entre os dedos...espalhando-se incertas a ameaçadas... Escapulindo na esperança de ficar no espaço acostumado... Pensou em construir outro lugar pra registrar na pedra, feito os primitivos das cavernas, seus desenhos emblemáticos a esconder significados que as palavras não conseguiam mais... Pensou em sair do lugar onde gera as idéias passiveis de condenação... Fingir ser obvia e trivial... Algo que não incomoda nem chama atenção apenas registra códigos feito hieróglifos egípcios, de quase impossível decifração nesses tempos de tecnologias de acesso rápido e interfaces amigáveis de usuários tantos milhares codigos binários... Tribo que navega nas redes, intenção qualquer uma... Anônimos e sedentos de pistas pra seguir em busca de dar sentidos e rumos pra essas  viagens sem rota alguma... Pensou fazer as malas... Se mudar novamente... pra um lugar indefinido ainda... Inexistente talvez... Arquitetado certamente... Viável quem sabe... Duradouro nem sempre... Acolhedor sem dúvida... Seguro temporariamente... até o momento de fazer as malas e mudar pra sempre outra vez.

Superposição

Pela janela transcorria o terceiro dia da penúltima semana do último mês do primeiro ano do início da segunda década do século XXI. Ele amanheceu claro e úmido. A chuva da noite refrescou o ar e as idéias latejantes a se esticarem, preparando-se para sair pelos vãos do pensamento. Alongou-se como um gato espreguiçando cada tendão, inalou longamente enchendo os pulmões do ar matinal, juntou as mãos sobre o peito em sinal de agradecimento, inclinou a cabeça levando o queixo direção ao coração, olhos fechados para ver dentro da alma ainda aquietada pelos fragmentos da noite e sono merecido. A vontade era sair correndo, atropelando os bonsais pelo caminho, sentar-se ao computador e digitar a senha pro dia começar... Mas resiste. Sabia que precisa de controle e serenidade... A alma andava reclamando a ausência do silêncio e seus ruidosos benefícios. A agitação era desleal na concorrência, ganhando em excitação num despertar rotineiro do desejo. Era preciso impor o ritmo biológico ao tecnologico que tomava conta dela nos últimos anos...Sentou-se na varanda pra ver escorrer a manhã na paisagem do dia. Olhou cada elemento de seu entorno, e por fim, já sem energias pra ficar em meditação vigiada, imposta, dirige-se ao  lugar favorito, o aconchego do ateliê com seus instrumentos de trabalho  prontos e a sua espera. Sobre  a bancada o estojo de tintas revirados exalam o delicioso cheiro de cores variadas, os pinceis se esbarram uns nos outros se misturando as polegadas das cerdas. O bloco de canson olha insistente para ela enquanto o grafite rola roçando-lhe os dedos, provocantes se oferecendo ao traço pra fecundar e nascer o desenho. Convidadas especiais as obras de Monet num livro sobre a mesa, insistem  motivar a inspiração... Abre o bloco e começa o trabalho. Linhas contornam a figura de  mulher debruçada sobre o teclado de seu computador, dicionários ao lado e uma biblioteca que se eleva ao teto infinita emoldura o traço, naquele espaço de tempo sem compasso, marcado pelo invento de ser único e raro momento....Na expressão da mulher do desenho sua história revela e define o destino plástico e significativo da obra, sua linguagem e alvo: o expectador. Vivia até então de sua escrita, inspiração própria, autonomia criativa, base de dados fictícios mediados com a realidade imaginária e alguns flashes de memória e de história. Sua escrita sua vida, terapia, brinquedo, fantasia, paixões, invenções, memória, sentimentos, acervo de cultura e arte, poesia, crença e perseguição da sabedoria. Mas eis que um dia em que passava distraída por uma de suas temáticas preferidas foi abordada por um leitor curioso, aventureiro  faminto de leitura. Deu atenção a ele, sucumbiu aos seus encantos de crítico literário profundamente interessado quase mesmo apaixonado pela sua escrita. Ele  a seguiu desde então discípulo das idéias que assimilava rapidamente apropriando-se dela em co-autoria. A aproximação da escrita se expandiu pra outras aproximações que a arrebatavam da até então prazenteira solidão inquietadora e fértil de inspirações. Até que um dia viu-se encurralada na pauta entre as margens da folha em branco sabotada em  sua liberdade criativa...arrumou as malas e se mudou. Com esse breve script concluiu o desenho e pôs-se então a colorir. Em cada pincelada um novo traço surgia contornando o dela, a escritora debruçada sobre o teclado. Ao final o que se via era uma sobreposição de figuras que se abraçavam formando apenas uma... Sentadas entrelaçados os membros inferiores ou em pé apoiando as cabeças sobre os ombros uma da outra, elas saltavam de um extremo a outro no quadro, escorregando para o teclado surgindo como um texto escrito na tela, no corpo dela, extremos do teto ao chão grafados na pele,  editados. Era um texto, era um quadro, era um invento transcrito na pele, de dentro do peito ao pé do coração, a mais fértil Inspiração. Na janela, o  dia amanhecia na tela dentro dela.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Restrita

Desnudara-se tanto em sua escrita interior que perdera a liberdade do seu ser e sentir expressos nas palavras, períodos e frases que compunham seus inventos e adivinhações revelados nos pequenos contos, prosas e versos... Tornara-se publicada ela mesma em cada matéria e cada uma delas, uma acusação aguardava para ela a condenação... Não tinha mais como escrever sem sentenciar-se a priori na ideia e pensamentos que conduziam do início ao desfecho, o teor do sentimento vivo e presente no enrêdo, script roteiro do tempo, dela, e de cada invento. Esconder-se em um personagem aparentemente fictício era talvez uma solução que tentara em vão... Trazer elementos, situações, fatos e outros autores para compactuar sua história, outra estratégia ensaiada, talvez a mais feliz e arrojada, com a qual sobrevive ainda dias atuais... Agora chegara ao ponto do encontro decisório consigo mesma e sua escrita... Um lugar pra resgatar do público invasor e juiz incrédulo, o privado que lhe escapulia em cada poesia, compartimento de sua morada interior....cela restrita em dias de visitas.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Livre prisão perpétua

Experimentava a oportunidade única de escrever uma matéria jornalística para uma revista de curiosidades culturais. O convite viera de um leitor de meus textos publicados no criarte... Fiquei interessada na inovação que sofreria meu percurso literário... Aceitei e viajei no dia seguinte. Atravessei o país e conheci então os sujeitos e a história objeto de minha produção. Eram duas pessoas de um talento sedimentado na capacidade e paixão pela pesquisa, perseguição do saber escondido nas sombras da caverna, que deixa de fora, os que temem os desacertos da escuridão quando da aproximação da fogueira. Tudo pra eles começou quando estavam  prestes a realizar o grande feito, arquitetado no último ano de suas vidas - Laboratórios inventivos... Surreal...um lugar para os sonhos. As avessas dos que buscam  projeção e fama, perseguiam o anonimato de suas  criação e  saberes nelas contidos... Passavam despercebidos no contexto volátil e fast food em que viviam... vi logo de cara que essa história mudaria o curso de minha ficção jornalística. Autorizada fui entrando, percorrendo o profundo corredor cuja interminável parede se fazia corrimão de quem sente vertigem num lugar assim... Avistei ao fundo a cela onde os vi  condenados a prisão perpétua...me receberam como quem acostumados a visitas...a cela era um misto de ateliê de artes munido de cavaletes e estojos de tinta e pincéis vários tipos, blocos de canson e instrumentos de desenho, biblioteca, livros computadores, equipamentos de som, CDs, DVDs, projeção, câmeras fotográficas, uma luneta, alguns brinquedos e jogos eletrônicos, não havia cama, apenas uma esteira espécie de tatame e almofadas...dois bonsais, uma toceira de hortelã...fixada a parede uma bancada em madeira rústica, sobre ela vidros com sementes e frutas secas, um barril de água potável... me apresentei, continuaram seus afazeres, iniciei o diálogo...  Entre um mergulho do pincel na tinta e um olhar para a parede, eterna obra, ela em jogral com ele, mergulhado e penetrado nas descrições de Hemingway, aparentemente  ausente de nós, respondia minhas perguntas...palavras  preciosas que eu juntava em meu texto...se conheciam como se desde a infância marcada por tardes infinitas... Amavam-se. Determinados buscavam um lugar seguro pra deitar a felicidade nutrida em suas cronológicas vidas... Tudo aconteceu por que viviam num lugarejo onde o amor incondicional era crime e os portadores dele condenados a prisão  perpetua, lei milenar que fazia desse lugar e ideia, a osmose do matrix. Todos obedeciam a regra vivendo os  sentimentos dentro das condições, vacinadas, certificadas normais, conectadas em único disseminador de valores absolutos, inquestionáveis... Por isso o cárcere estava sempre vazio de pessoas a cumprir tempo, reclusão e castigos... Ela me contara que não havia para eles nenhuma brecha, para as invenções que faziam e com as quais partilhavam suas utopias... Não havia também lugar nem mesmo virtual, para os registros de seus inventos transgressores dos valores inculcados pela matrix...chegaram a fazer duas tentativas...se mudaram no meio da noite...as escondidas carregando seus textos, as palavras caindo pelos vãos dos dedos... Numa daquelas tardes brincantes, quando até mesmo o cão quer exercitar o riso e correr atrás de nada até esgotar a alegria e o beija flor ensaia a paradinha no ar prestes a sugar o mel no miolo da flor, num clima onde bichos viram gente, brisa musica, a cidade cenário,  o silêncio riso com gosto de hortelã...tarde infinita, veio-lhes a inspiração do criminoso amor... Em uso da genialidade, projetaram na então cela sempre vazia, o lugar pra viver o amor ...mesmo que condenados...estariam livres em prisão perpétua... Ao amanhecer desfilaram pelas praças o tal do amor deles acometido, mal crônico, sem retorno e incondicional... Entregaram-se... Chamaram os juízes e ofereceram-lhes o script da sentença... Bom texto... Boa melodia nas palavras... Vieram os promotores, fez-se  o julgamento seguido do veredicto. Por fim o lugar pra descansar a paixão... Numa cela, prisão Perpétua para libertar o perpétuo amor... De imediato foram algemados e levados para a cela do para sempre, sob os gritos de vingança saciados das pessoas adormecidas do lugar. Um último pedido lhes fora concedido e então ele pediu papel e caneta até o fim dos dias de ambos e ela pediu tinta e pinceis para pintar a parede da casa nova, e esperá-lo pra ver sua expressão de surpresa a cada final de tarde infinita, ao chegar pra descansar o sorriso torto... Cores iluminadas... Paredes vivas... Lugar de possibilidades por ser eterno... perpétuo. Aos poucos tornou-se tudo o que sonhavam para suas vidas... A cela que seria o escafandro de Jean-Dominique Bauby, dependente das borboletas para escapulir da prisão, tornou-se as próprias borboletas asas portadoras dos sonhos e invenções acessando qualquer ponto do planeta... O vilarejo tornou-se conhecido e o cárcere passou para os classificados do turismo cultural, beneficiando  a economia local. Os protagonistas apaixonados limitavam-se unicamente a ser como sempre foram  e queriam permanecer, no lugar escolhido,  resistentes à matrix, desfazendo os enormes conectores que ligavam os seres do vilarejo na enorme usina de energia... Andy e Larry Wachowski os  diretores das edições já rodadas no cinema do Matrix, viram a matéria e  estão agora analisando meu roteiro para uma nova edição do cinema projetando o fim da matrix nos moldes do criarte...Quanto a mim,volto sempre para visitá-los e acompanho o que dizem ser seu grande e atual drama: o movimento em torno da possibilidade de serem libertados da cela...temor que ameaça-lhes, com a equivocada concepção de liberdade, os sonhos e inventos  sem paredes, grades, fechaduras,  fronteiras do pensamento...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ela era eu

No começo eu ficava brincando de sair de mim pra poder me ver do lado de fora do dentro de  mim...depois de um tempo queria mesmo era brincar de ser o outro, a outra pessoa pra entender a que eu não era... e assim saber quem era eu...por fim de tanto me fazer ser o outro, entendi de fato que ele era eu...e eu era o outro que eu pensava ser o que não era eu...Acabou essa ideia se materializando quando passei a pensar que ela era outra que não eu... mas de tanto me fazer passar por ela, a outra, acabei descobrindo, que a que eu pensava ser ela, não era, era eu....

Izabel, Borges e Couto

 
 Encontrei-me com a inspiração na porta de entrada, primeira linha do texto a me esperar pra ser escrito...uma ficção que buscava há anos...queria que tivesse um pouco de Izabel Allende, no seu estilo miscigenado de história real e fantasia associados... traços do Mia Couto no seu brincar com palavras e verbos sem precisar significados convencionais e, ainda que ousadamente, pretensiosa, um quê de Jorge Luis Borges em sua ficção, e, por fim, tivesse muito de mim mesma, sentimentos e invenções que movem minha escrita despreocupada com o leitor ou critica literária.Estava delineado os condimentos de minha omelete de amora:um texto novo, no contexto em curso nas águas correntes do meu rio...Chegara no lugar para a reunião de intelectuais planejada para dois dias de elucubrações sobre comunicação, linguagem, o caráter bilíngüe da nova questão social. Entre os presentes, um dos autores do pensamento original, um idealista romântico que movera meu interesse.Nos víramos uma única vez com toda a formalidade que a ocasião exigia, agora estava entre os presentes, encantador e misterioso. Nos olhávamos de longe, não havia a menor possibilidade de uma aproximação, mesmo assim eu a inventei. Era o começo da tarde quando ele bateu em meu quarto, sem as chaves, pois a portaria o avisara que havia alguém a sua espera... achou estranho, mas dirigiu-se ate lá. Eu chegara mais cedo, acomodara minha bagagem nos armários... Estava a conferir os e-mails quando ele chegou... abri a porta e perguntei...procurando alguém? Ele responde... Sim e não, deve haver erro, pois fiz reserva semana passada, mas parece que você também fez... Respondi sim e vim sozinha. E ele pergunta, está no tal evento? Respondi, não, vim por minha conta, acabo de chegar de Lyon pra trabalhar num livro de ficção... Ficarei dois anos e volto pra França, e você? Achei louca a resposta dele, mas foi exatamente isso: Vim pra uma reunião comigo mesmo... Preciso de descanso... Acabo de perder um cargo que significava muito pois encontrei nele, a mim mesmo, como se não bastasse terminei uma relação recentemente e estou a sofrer...Respondi a ele...hummm...sim....então deve mesmo ir a portaria corrigir essa falha na reserva, e ele responde...esse é o problema...está tudo lotado...há um evento internacional com 800 pessoas começando hoje. Trata-se do lançamento do filme baseado no livro, os autores estarão presentes, está o maior movimento... não há quarto livre...Olho pra ele com a mala a tira colo, uma câmera fotográfica suspensa escorregando do ombro, jaqueta pendurada, confere o ambiente agradável e espaçoso do quarto que, além da cama de casal, um sofá grande e uma cama de solteiro compunha um segundo ambiente com tevê e Internet.... Nenhuma intenção de dividir o quarto me rondava naqueles dias...por fim ele arriscou...Muito ruim partilharmos esse espaço? E então perguntei: Você fala muito? Gosta de conversar? E ele responde, não, prefiro ficar em silêncio lendo, pensando... E então, reuni todo o despojamento que nunca tive e o convidei: se quiser, pode ficar... creio que não incomodaremos um ao outro... Ele abriu um sorriso de agradecimento e entrou... Acomodou a bagagem, e comunicou a recepção sobre nosso arranjo..... Ficamos os dois anos que planejei no Brasil, dividindo aquele quarto. Acabamos escrevendo juntos minha ficção. Ele fez contatos com editores brasileiros e conseguiu contrato pro seu projeto sobre o caráter bilíngüe da nova questão social em, Moçambique. Resolveu seu problema financeiro. Quanto a separação acabou admitindo que era o palhaço da história, preferia ser o malabaris, ou mágico, propus a ele ser o dono do espetáculo e do circo. Dessa dor, ele se curou com minha amizade e nosso show de trabalho e criação. Tínhamos um cão com quem brincávamos todo final de tarde, após a meditação e o yoga. Nadávamos duas vezes por semana e o que sobrava escrevíamos, líamos um pro outro e brincávamos de Izabel e Borges eu Mia Couto ele, o de Moçambique no Brasil. Nosso livro consagrou-se, foi adaptado para o cinema e lançado num evento internacional de cinema e literatura que reuniu 800 representante dos países europeus, americanos e orientais, no lugar de nosso encontro.Compramos a rede de eventos onde um dia, o erro do setor de reservas da rede de hotéis nos colocou no mesmo quarto, onde partilhamos até hoje, nossos inventos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Rowena

Como nas peças cinematográficas em que o aluno se apaixona pelo Professor,( exemplo do Richard Dreyfuss  em Mr. Holland, Adorável Professor que se entrega a escola e seu trabalho musical, tendo uma de suas alunas por ele se apaixonado, sofrendo com a inviabilidade de seu romance, o convida a fugir com ela...Ele apesar de envolvido resiste a tentação da  jovem recua retomando sua vida) ela se vê Rowena Morgan caída de amor pelo mestre que a principio se lisonjeia com sua beleza e maturidade mas logo recua deixando-a profundamente ferida em seus sentimentos...jovem brilhante, dedica-se a gastar o resto dos dias daquele ano pra arquitetar seu plano e ter pra si o amor desejado.Cria situações,mensagens, ligações, visitas inesperadas, presentes originais,se esmera descortinando-se linda e sedutora sempre com genialidade,chegando em horas precisas, e assim, vazando feminilidade, mostra-se conformada enquanto  vai tecendo fio a fio a malha que o envolverá, segundo os sonhos e desejos, a pessoa amada...Ele por sua vez, até então seguro em seus propósitos e desejos, dono de um auto-estima construído com o trabalho reconhecido aos patamares de destaque e concorrência, rapaz maduro brilhante e bem relacionado, até então  inatingível por ela, por qualquer outra naquele seu recesso de amor...No entanto, o inesperado o deixa vulnerável em sua segurança e autonomia profissional. Mudanças de poder movem a decisão de subtrair seus projetos,  afetando sua autonomia em todos os sentidos...Ela então se vê Rowena Morgan engendrando  a saída genial,  retoma a cena de mulher brilhante e apaixonada preparando o golpe de mestre para o mestre que naquele contexto, não via mais como prosseguir sem  palco e legitimidade para o seu fazer...Ela então heroína lidera o movimento, reúne as pessoas, comunica-lhes a perda, adiantando-se com sua generosidade anunciada com a solução inventada onde todos poderão continuar discipulos dele, sob administração, controle e cuidados...dela, claro! Habilidosa chama o professor com sua voz meiga e um sorrateiro olhar que vagueia dentro e fora dele o coração, procurando a entrada sem saída pra ficar trancada e a sós...lhe diz...Vamos prosseguir seu trabalho em outro lugar...Ele sorriu agradecido, não pensava em outra coisa ultimamente...nem mesmo pergunta detalhes ela vai falando...plano perfeito! Todos felizes! Ela estava segura por mais um tempo mantendo-o presente em sua vida, alargando as possibilidades de viabilizar a perseguição do sonho. Diferente do  filme, ele não teve que fugir com ela declarando publicamente sua escolha, e nem voltar conformado, meio derrotado, meio que pela metade, pra casa, apenas continuou  entusiasmado com o trabalho que fazia... Ela também não teve que se aventuar em partir no meio da noite, triste sem seu amor como no filme. Sua genialidade inventou uma história bem mais estratégica que a de Olympia Dukakis  para Jean Louisa Kelly , a Rowena Morgan.Bravo!

Calamidade

Ela e a família tiveram que mudar as pressas... Um aviso de que a área seria tomada pelas alagações que se tornaram freqüentes no país onde habitam, os forçaram juntar seus pertences e não pertences e sair durante a noite, como ladrões que arquitetam um plano pra remover vestígios do latrocínio. Ao reunir tudo o que tinham antes de partir, encontram todas as marcas do tempo em que viveram naquele lugar, desde a arquitetura  que  definia suas particularidades, identidade de cada espaço ...Feito  escafandristas que mergulham em busca de resquícios do naufrágio, iam re-conhecendo cada  tesouro feito de relíquias,  preciosidades contextualizadas nos diferentes tempos de suas vidas...Se  mudaram pra uma casa vazia e mesmo ocupando-a de seus guardados ela ainda não acontecia...no esforço de se mudar de vez, ela foi visitar algumas vezes mais,  a casa deixada  para trás em razão da calamidade anunciada..Chegou diante dela e viu  que mantinha  na fachada os  indicadores de seu universo e poesia. Um aperto na alma a transportou... Ficou parada em vários cantos da casa por sabe-se lá quanto tempo... Esse abandono a que se encontrava agora a velha casa refletia o seu próprio, desde o momento em que decidira acreditar na calamidade anunciada e mudar. Agora estava ela em estado de calamidade em desconstrução pra re-iniciar a obra com as novas marcas e identidade da casa nova que já nascia como ela..de um estado de calamidade.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Desconexão: Clarice e eu

Clarice, em meio a sua embriaguês literária que por alguns, motivos, de vez em quando e por conhecê-la tanto,  eu lamentava como se fora um vício que  prenuncia sua morte... Naquela manhã fria de dezembro,  conversa íntima que chegava aos limites da dor,  entre duas mulheres da mesma idade...ela me dizia:  Eu até posso mesmo estar enganada, mas com todo esse engano que teima me sentenciar, tenho uma certeza...a de que  pela primeira vez na minha vida de meio século já vivida, sei o que é amar, estar apaixonada e ter a vida por um fio que se esgarça a cada pergunta que me faço sobre a existência e o lugar das coisas dentro e fora dela...a escrita deixou de ser minha única paixão dizia ela, me apaixonei pelo que a move dentro e fora de mim... Meus escritos têm agora rival a sua altura, a musa que a inspira e a faz acontecer enquanto verso, conto, crônica, relato, ideia, pensamento, invento que move sonhos, desperta pesadelos feitos de tempestades que anunciam novo encontro comigo mesma. Eu nunca vira Clarice tão melancólica. Não sabia muito que fazer, limitei-me a ouvi-la em seu silêncio. Em sua escrita. Reli alguns de seus últimos textos, scripts pra teatro, roteiros, textos jornalísticos, romance... Percebia sua sensibilidade vazando pelos poros, e agora nessa conversa, mergulhavam o olhar, tremulavam a voz num suave e doce enlevo que me levava com ela. A convidei para um chá, puxando-a pela mão. Vestindo seu robe num florido em Monet esmaecido, apagado, pés nus brancos e magros, cabelos caídos sobre a face, despontados,  desgrenhados, deixavam a nuca meio nua meio ocupada de alguns fios, eu quase a arrastava tão lentos eram seus passos sobre o gramado ainda úmido.  Caminhamos até o fundo da casa onde mostrei a ela os efeitos da última chuva em meus bonsais, a hortelã verde como nunca e a cidreira que se oferecia exuberante para o chá que a deixaria com certeza, ainda mais amolecida alma e corpo inteiro, num misto de menta e erva doce, que em cada gole há de fazer exalar pela voz, escorrer pelas cordas vocais, o último mantra da paz entoado no dia anterior, cujos efeitos se apagam sempre que ela vem com essa conversa do encontro consigo mesma... Clarice hoje radicalizou sua melancolia, um choro escondido em algum lugar afogou sua sensibilidade e está sem ar. Procurei distraí-la com meus novos projetos, mostrei-lhe as fotos dos meninos cineastas que conheci, minha viagem a Cuba em maio, achei melhor não falar das festas que se aproximam. Mostrei-lhe meu novo desenho bordado na tela imaginária ainda. Por fim a trouxe para meu computador e a convidei pra ver  o criarte e outras crias minhas... Ela se mostrava alienada, quase entorpecida... Por fim e para minha sorte,  quis ver seus e-mails, consenti é claro, me animava a ideia  do interesse por algo...quem sabe uma mensagem poderia trazer um novo invento e Clarice deixaria de vez esses seus rabiscos, indesenháveis que tanto a deixam assim...disforme sua identidade...uma mensagem de sua editora dizia...Hei Clarice Bom dia! Estamos esperando o seu novo texto, sem ele não temos como tocar a redação... tudo parado por aqui... Perdemos sua conexão... Ligue! Pronto, o socorro que faltava pra desconectar Clarice e eu!