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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Desconexão: Clarice e eu

Clarice, em meio a sua embriaguês literária que por alguns, motivos, de vez em quando e por conhecê-la tanto,  eu lamentava como se fora um vício que  prenuncia sua morte... Naquela manhã fria de dezembro,  conversa íntima que chegava aos limites da dor,  entre duas mulheres da mesma idade...ela me dizia:  Eu até posso mesmo estar enganada, mas com todo esse engano que teima me sentenciar, tenho uma certeza...a de que  pela primeira vez na minha vida de meio século já vivida, sei o que é amar, estar apaixonada e ter a vida por um fio que se esgarça a cada pergunta que me faço sobre a existência e o lugar das coisas dentro e fora dela...a escrita deixou de ser minha única paixão dizia ela, me apaixonei pelo que a move dentro e fora de mim... Meus escritos têm agora rival a sua altura, a musa que a inspira e a faz acontecer enquanto verso, conto, crônica, relato, ideia, pensamento, invento que move sonhos, desperta pesadelos feitos de tempestades que anunciam novo encontro comigo mesma. Eu nunca vira Clarice tão melancólica. Não sabia muito que fazer, limitei-me a ouvi-la em seu silêncio. Em sua escrita. Reli alguns de seus últimos textos, scripts pra teatro, roteiros, textos jornalísticos, romance... Percebia sua sensibilidade vazando pelos poros, e agora nessa conversa, mergulhavam o olhar, tremulavam a voz num suave e doce enlevo que me levava com ela. A convidei para um chá, puxando-a pela mão. Vestindo seu robe num florido em Monet esmaecido, apagado, pés nus brancos e magros, cabelos caídos sobre a face, despontados,  desgrenhados, deixavam a nuca meio nua meio ocupada de alguns fios, eu quase a arrastava tão lentos eram seus passos sobre o gramado ainda úmido.  Caminhamos até o fundo da casa onde mostrei a ela os efeitos da última chuva em meus bonsais, a hortelã verde como nunca e a cidreira que se oferecia exuberante para o chá que a deixaria com certeza, ainda mais amolecida alma e corpo inteiro, num misto de menta e erva doce, que em cada gole há de fazer exalar pela voz, escorrer pelas cordas vocais, o último mantra da paz entoado no dia anterior, cujos efeitos se apagam sempre que ela vem com essa conversa do encontro consigo mesma... Clarice hoje radicalizou sua melancolia, um choro escondido em algum lugar afogou sua sensibilidade e está sem ar. Procurei distraí-la com meus novos projetos, mostrei-lhe as fotos dos meninos cineastas que conheci, minha viagem a Cuba em maio, achei melhor não falar das festas que se aproximam. Mostrei-lhe meu novo desenho bordado na tela imaginária ainda. Por fim a trouxe para meu computador e a convidei pra ver  o criarte e outras crias minhas... Ela se mostrava alienada, quase entorpecida... Por fim e para minha sorte,  quis ver seus e-mails, consenti é claro, me animava a ideia  do interesse por algo...quem sabe uma mensagem poderia trazer um novo invento e Clarice deixaria de vez esses seus rabiscos, indesenháveis que tanto a deixam assim...disforme sua identidade...uma mensagem de sua editora dizia...Hei Clarice Bom dia! Estamos esperando o seu novo texto, sem ele não temos como tocar a redação... tudo parado por aqui... Perdemos sua conexão... Ligue! Pronto, o socorro que faltava pra desconectar Clarice e eu!

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