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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Bom dia



Procurava um realidade inventada ou adivinhada de uma outra forma... fugir da rotina de ser sempre a mesma pessoa todos os dias, os dias todos que vinham e iam sempre todos os dias....e por não suportar a rotina de ser assim quem era, mais uma vez, outro dia de novo, buscava a novidade na escrita...e assim podia ser outra... todos os dias...Sabia que sem a escrita sua fuga e criação de outras que podia ser, estaria comprometida. A escrita, esse ato que se faz tangível pelo conjunto movido da vontade, traçada com as mãos, olhos e pensamento, braçadas de leituras em constante primavera, códigos, significados e idéias,  viabilidades, esse para ela, sagrado ato de escrever ... arquitetura textual que se não  existisse, estaria condenada a morte todos os dias. Com a escrita mesmo se morta todos os dias...os motivos seriam singulares, setença original e a partida uma invenção de percurso novo e de encontros inusitados, lugares, pessoas, escritas...mesmo assim vivia se preparando para sair da cena de sempre a mesma... com a certeza de ter experimentado, no percurso de sua escrita, pauta
de criatividade transgressora, quase tudo do nada que fazia questão de sentir, no ser que era, pra continuar criando todos os dias um tudo novo inclusive ela...queria agora, com essa escrita que se espalha pelo branco que já não quer ser...uma que ainda não é, não foi...uma que será, outra...desconhecida,  pronta pra ser adivinhada, durante todo esse novo dia que inicia pra não ser igual ao outro, feito também como esse de manhã, tarde e noite, pra não repetir o ontem, pra ser novo hoje, nova poesia pra não silenciar a voz da paixão pela vida...todos os dias, sem nunca repetir igual a mesma trilha, nova travessia...Bom dia!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sóror Mariana

Estava entre ela e a outra que queria ser. Sóror Mariana uma ela dos tempos de escola marcada por uma formação de valores morais, crenças e temores de um Deus severo e punitivo, de uma estética pecaminosa e mundana que a fazia estremecer diante do espelho ao provar, as escondidas, o batom vermelho da tia solteirona, esquecido sobre a penteadeira. Sóror Mariana nascida dos ruídos dos corredores do sagrado coração de Jesus, quando ela percorria com as outras meninas endiabradas, as escondidas, a espionar por de traz do claustro, as intimidades religiosas, tomadas de curiosidade sobre se elas usavam calcinha como a delas...sabiam que enfaixavam os seios, o que fariam então com as outras partes pecaminosas do corpo? Guardavam em calcinhas de seda com rendas como as delas? Queriam ter certeza... em algum lugar elas estariam...quem sabe penduradas em um varal atrás da sacristia? Não...deveria ser mais secreto...ninguém jamais poderia vê-las... velas ao vento... as peças íntimas das freiras...nem mesmo quem vivia debaixo daquele teto do sagrado convento escola...morreriam sem ter a curiosidade satisfeita...morte em lentidão...boca seca...reza decorada em noite de penitência...insônia...solidão de criança é pior que de ancião...chama ardente a queimar espetada com os tridentes dos diabos todos enfileirados feitos prendedores no varal, daquele quartel general de madres superioras, inferioras todas na satisfação do desejo carnal. Já sabia que estava perdida mesmo...o inferno a esperava sem juízo final...sentença antecipada...espionara mais do que o ideal pra ser absolvida, confessionário, julgamento, purgatório sem entrada sem guarida... sem perdão...três ave Marias, vinte pai nossos, alguns glórias e outros creio em deus... e saía de lá sem nenhum pai a perdoar-lhe os pecados acumulados, a encher a consciência de Sóror Mariana de medos e arrependimentos que desapareciam ao dobrar o corredor, topar uma nova fantasia, brincadeira, invenção. Naquela tarde e prenúncio da noite Sóror Mariana tentou um espaço nesta que era ela agora, para protagonizar...tão sem jeito...nem convicção...hábito amassado, véu desalinhado,  meio que sem propósito...deslocada, terço entre os dedos faltando contas...voz desafinada...desalento, deu meia volta e a deixou agora, Sóror Mariana, acredita ter ficado pra sempre...naquele tempo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Coincidência

Combinaram um encontro de mera coincidência. Tudo bem planejado. Horário disponível, lugar apropriado, distâncias suportáveis, cardápio balanceado e custo tolerável. Tudo acertado pra dar tudo certo. Bastava apenas a confirmação. Um telefonema e pronto! No combinado alguém chegava primeiro e se acomodava em lugar de visibilidade. O tempo era curto não havia suficiente pra grandes procuras. O lugar, a paneteria com lanches sucos, bolos e salgados, muita gente no horário que é hora de padaria... lanche da tarde pra quem não vai pra cozinha...Ele chegou ela já estava lá...coincidência perfeita! Fez seu pedido e encostou-se no balcão. Ficaram se olhando de longe, ela comendo seu queijo ele seu big lanche...dai então vem a maior dificuldade...ficar se olhando como combinado e segurar o riso...isso não tinha sido pensado...o hábito do riso no dia a dia povoando invenções e fantasias, não previa sua sonegação assim, no improviso da coincidência na padaria... Engolir o riso pra não escapar com ele o queijo mastigado, o big triturado...um exercício de segurar a língua em quase sucção no ceu da boca...prendendo tudo com ela...pro riso não sair, e com ele o que na boca se movia. A solução era desviar o foco no passeio mais calórico que o olhar então fazia...pelos bolos, tortas, queijos derretidos na chapa...ambrosia. Volta com sobrepeso e olha pra ele, de novo o riso ameaça quase gargalhada, desastre total...não podia...volta o olhar pelo ambiente, fila do pão quente, criança querendo doce, diabético procurando o diet, falta de troco no caixa, telefone toca, interrompe o atendimento, gente brava...impaciente...Ela então já distraída olha e o procura. E o que vê é a si mesma voltando pra casa com uma fome danada e já nem sabe por quê...liga pra ele e ouve o recado que no momento não pode atender... foi ao encontro da coincidência...deixe recado...volta mais tarde, vai responder.

Indo ao cinema

Dizia não ter  a menor ideia de como fora parar no elenco daquele filme! Mas a verdade é que estava lá. Desde que entrara  em cartaz no circuito de cinemas de arte de sua cidade, o  tal filme,ela não parava de receber ligações e  mensagens de amigos e outros  affaire, relacionamentos affable, avec affinité,  a unn amour faire sempre pessoas que a conheciam em sua privacidade sedutora afirmando que ela estava no filme! As pessoas iam ao cinema e ligavam para ela, que não conseguia mais ler, trabalhar, dormir...Uma semana em cartaz! Indignada resolveu  conferir prometendo aos curiosos que  retornaria impressões. Ligou pra um amigo com quem contracenava  textos literários,  pedindo ajuda: poderia ir comigo verificar essa história? Sim claro vamos. respondeu-lhe. Ela então lhe garantiu e a si mesma que apesar de tantos acontecimentos inusitados em sua vida nos últimos tempos, não havia sido convidada e muito menos contratada a fazer parte de nenhum elenco e muito menos filmar um roteiro em papel  protagonista! Foi ao cinema e voltou com a certeza dizendo que havia sido roubada... seu olhar sensual, expressão de ternura e afeto foram roubados pelo diretor de cinema e seu  roteirista...Eram mesmo os dela sem dúvida! Nos dias que seguiram em cartaz o filme ela e seu amigo escritor acabaram me procurando. Havia um segredo entre eles... um pacto...e sentiam-se, agora com a revelação do filme, ameaçados...Fiquei estranhada daquele ensejo de conversa...Na verdade estavam levantando fundos para seu best seller, e ele a convencera a vender seu bem mais valioso: o olhar sensual, expressão de ternura e afeto para um produtor assegurando-lhe que o filme não  chegaria as salas de cinema de sua cidade! Os filmes de arte são menos  valorizados que os comerciais, sobretudo  em seu país... Precisavam decidir sobre o que fazer...Achei melhor ajudá-los...Vamos responder aos amigos que viram o filme, afinal todos eles a identificaram pelo sentimento de afeto que por ela nutrem...não lhe fariam mal...Concordaram comigo...elaborei então esse registro no criarte e encaminhei a eles pra que fizessem  ajustes capazes de proteger seu segredo e suavizar a indignação dos amigos...Eles concordaram  e o texto está assim!O filme ficou em cartaz por mais dois meses, a bilheteria surprendeu empresários de cinema da região elevando os investimentos para ampliação das salas de projeção de peças de arte. O casal de escritores publicaram seu best seller mas entraram definitivo para o cinema...Ele roteirista e ela protagonista nos papeis que demandavam o olhar sensual, expressão de ternura e afeto!  Estou indo ao cinema ainda esta semana conferir essa história e talvez retomar alguns pontos  dando-lhe mais veracidade e detalhes...afinal...também gosto de segredos e invenções!

domingo, 25 de setembro de 2011

Estado d’alma


Naquele lugar tudo soava musica, perfume no ar...naquele lugar pouco se via de igual, tudo tão original, ímpar, singular...aquele lugar no mapa não constava...e dele quase ninguém informava...secreto, meio que inexistente...Só ela com sua poesia o descobria todos os dias. O pensamento a dirigia, a vontade a impulsionava os sentidos rumo ao caminho de mais uma vez, ainda que a última, estar naquele lugar todos os dias...dentro de si mesma...na outra ela...nela...no dentro e fora ao mesmo tempo...sintonia, emoção, fantasia...tudo invenção...do querer e negar, do saber e ignorar, do partir e ficar, sem bússola...perdida de preferência sem saber onde está...pra onde vai, com quem ficar...encontrar...o que falar, saber, sentir, desejar, perseguir utopia, construir navios de palavras...veleiro...nevoeiro...faroleiro que indica o caminho no facho de luz que projeta, indica, inspira e mostra a passagem secreta.Encontra mais uma vez e de novo o lugar. Seu laboratório de invenções, réplicas, protótipos de paixões enxertadas, transmutadas de significados, escamoteada, escondida sem fachada sem saída...hora errada...mesmo assim, naquele lugar tudo era muito mais que nada...era ela restaurada sentimentos, ousadia, transgressão,teimosia de quem sabia o que queria.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Temporal


A tempestade veio chamada em caráter excepcional... o céu estava estrelado, a lua envolta em seu xale de fios prateados...a música tocava em tudo...sons repletos de textos palavras que falavam de tantos assuntos... expressões...instrumentos falantes...palavras dadas de presente...desafio num caça as vogais...sons abertos...sensuais...Noite calma...nenhum sinal prenúncio de temporal...serenidade...silêncio na casa ...expectativa...eis uma palavra cheia de vogais...nela a contemplação: mais um ato de magia...aurora boreal de novo ela...falta de idéia? Não!!! falta de vogais...Num ritual da arte, essa lei da dor transformada em prazer...criação na inspiração esculpida na pele, deslizando macia, úmida e perfumada nas mãos do escultor...e traz com ele outro... torneando em argila derretida a mulher em plena feminilidade, ventre cheio de vida...sem cabeça pra pensar na dor do parto...um prêmio...uma lembrança delicada de um tempo de artista em hora imprópria mas desejada...vida acadêmica...vida de tudo de nada desenfreada... na tempestade que agora é chamada a compor a sonoplastia da noite calada...mais uma de tantas editadas... inspiração, empreendimento artístico movido pela solidão que promove o encontro consigo mesmo no silêncio do caos, companhia da ansiedade alimentada de fruta fresca, palavras isoladas construindo imagens da tempestade. Natureza convocada pra ser fundo musical do espetáculo da noite prometida de ser silenciosa, calma, repleta de tudo no nada...desordenada. Mais um filme que invento pra ter assistido sem saber o nome, sem ver o começo e sem calma pra ver o final...na verdade não vou ao cinema e não vejo tevê...o filme? Invento com minha mente operária... o enredo um padrão que persigo...com pedaços que descubro de coisas que vi em Paris, Berlim, aqui mesmo em torno dos bonsais, imagens que coletei acervo de Sebastião Salgado, coisas que me contam no intervalo da reunião de trabalho,ou que eu leio em Saramago, em fim que invento com minha mente operária fora de padrão...só me lembro da porta se abrindo pro filme passar...o perfume...a água deslizando sonora pelo chuveiro...corpo molhado...sorriso deitado esticando de um lado...espera a tempestade pra festejar, ruídos tenebrosos metem medo e tiram da noite aquele meloso e derretido estado de tudo perfeito na ausência do caos...

Raro efeito

Elas moram no mesmo lugar, mas pouco ou nunca se encontram, embora saibam da existência uma da outra, não se ouvem, nem se falam, mas, bem de longe uma delas a de um valioso ócio, observa sempre, tudo. São as palavras uníssono e unilateral. No dicionário ficam no mesmo endereço pela identidade da vogal inicial. Unilateral domina sempre, toda e qualquer cena  daquela, sempre igual. unilateral se faz marcar em cada encontro na frase se esbarrando nas expressões que não chegam ser palavras por não terem tempo de se formar... apenas, ruídos, barulhos, sons sem indefinidas, sussurradas na respiração, compostas pelos movimentos do corpo inteiro, denunciando a presença de vida na frase. Esses barulhos, por amizade e adesão, trazem com elas a bilateral...grande ameaça para unilateral que teme, num deslize de atenção e respiração, ser substituída, pela frase de raro efeito, cuja luta na parceria bilateral era não repetir o sempre igual . Atenta unilateral vigia e cerca as entradas e saídas, expulsando bilateral de suas linhas e pontos de sentidos feitos de sons e gestos nas palavras que compõem sua cena de rigor unilateral.    Uníssono por sua vez, guarda-se para manter-se raridade, artifícios de ser especial... desejada, perseguida pela criatividade, aliada pra ser construção lenta e gradual na frase de sentidos em uníssono. Esta porém, muito deve conhecer de seus propósitos, sentidos e significados, para tê-la em sua composição...uníssono exigente de seu emprego, pertinência e clareza...recusa arremedos e não aceita ser confundido ou admitir que seja concorrente da bilateral. Defende em todos os fóruns que não possui parentesco algum, e menos ainda um sentido igual. Em suas arguições reconhece bilateral e seus objetivos de fazer a frase de efeito que segundo bilateral, para fortalecer sua luta e argumento, afirma que a frase de efeito traz na matriz os sentidos em uníssono...Nem assim ele se convence, e afirma que para ter uníssono é preciso descartar unilateral com tudo que o acompanha, bilateral inclusive, pois não combinam jamais em suas reticências. Já era hora...ela havia lido a exaustão na tarde e noite daquele dia, revisões e construções de textos, arguições pra bancas examinadoras, papel de carrasco no julgamento do texto, sonho de alguém pra ser doutor...titulado. Precisava dormir... imaginou um lugar apropriado pros pensamentos que navegavam seu rio semiótico. Fechou o dicionário aberto na letra u  de urgente e viu ainda uníssono ocupando suas horas de ócio na madrugada a observar distante, unilateral em seu dueto desencontrado da bilateral, para a manter seu domínio, perseguindo-a, afugentando-a incansável... bilateral sai cabisbaixa da cena quase exaurida, dolorida sem aquela massagem merecida... toma relaxantes e dorme, sempre que pode,  pra reunir forças e enfrentar unilateral na próxima esquina do texto. Ela então apaga as luzes, despede-se agradecida a existência das palavras e seus presentes delicados e vai se deitar ensaiando uma invenção de uníssono sentimento.

Persona


Ela perseguia a comprovação da existência e real aplicabilidade da experiência de amor únissono. Do encontro de corpos que embora dois, seja um...no pulsar de cada veia no universo geográfico das paragens e membros...na sucção de cada golpe de ar a suprir pulmões e sangue de energias vitais...na dança do corpo ao som dos ruídos orquestrados pela respiração impulsionadora dos movimentos e seus encantos...dança da alma...do ventre...das vísceras em sua festa... contrações e dores de prazer abdominais. Precisa de Paglia pra contracenar essas idéias...Em suas “Personas sexuais” Camille vem lhe salvar justificando seu ser, aprovando sua existência assim desta que é, associando também as personas da arte como objetos sexuais, na medida em que a reação emocional do espectador ou leitor, é inseparável da reação erótica...traz para sua inspiração literária esta tábua de salvação pra se sentir integrada e na medida do possível...tolerada em seu estilo e significados que o inspiram, e delineiam nesta arquitetura suspeita quanto a lucidez e sanidade...inspiração marginal...excluída dos modelos...escondida nos antros discriminados...conselhos editoriais que mais desaconselham quando o faz... A tensão que a toma os sentidos no afã de escrever as palavras, invadem ouvidos e querem se arremessar, saídas do pensamento na escrita... essa sua solitária companheira, fiel melhor de todas... inseparável...presentemente. Pronta pra fazer-se-la. A arte nasce da tensão e não do repouso. No repouso, ela se mostra presente... na tensão, é atitude...realização. O empreendimento artístico literário é inspirado pela ansiedade, tensão, emoção trágica... quase fatal. Mas tem que dormir, comer, respirar, conviver...é bom que ninguém perceba suas elucubrações íntimas mentais. Ela então continua a procura  insana da comprovação, existência e real aplicabilidade da experiência de amor uníssono! Consolou-se saber que a arte faz coisas...a curiosidade movida pela dúvida e desejo de conhecer, faz idéias, promove invenções, gera autonomia, alimenta a alma incompreendida sem lugar reservado na plateia oficial, sem luz...caverna de palavras e sentimentos todos grudados nelas...pra sempre. Ouviu dizer noite passada, que num tempo, lugar e personas, aconteceu uma vez o amor uníssono...Ficou feliz pelo sinal...adormeceu persona acordou inventada, mais um dia.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Morta

No fim da tarde, enquanto o riso procurava um lugar pra sentar e acalmar a alegria exagerada meio que em hora insuficiente pra ser demorada...inventamos uma outra que morre na história. Como a Wolf na escrita “As horas” que se detém largo tempo pra decidir sobre a morte de uma de suas personagens...em menos de duas horas fizemos a nossa e sua morte. Nos inspirou também as Pontes de Madison, o filme e outras fantasias que nos habitam paradoxalmente sem pressa e sem tempo para ser invento. Era uma mulher madura como fruta pronta pra ser alimento in natura, vivia o outono de sua jornada sem nenhuma vontade de ver chegar o inverno de sua vida. Sentia-se inventada, irreal, invisível. Fantasia da mente inquieta da artista que não decide se a pinta em tela, se a canta em versos, se a borda em linho ou se a serve com um bom vinho...Acometida de paixão inadjetivável vivia momentos de encanto e suavidade, outros de suspense e instabilidade que a deixavam com sintomas anêmicos, diagnosticados pelas benzedeiras como quebranto mal olhado...Ela escrevia sobre seus sentimentos profanos, seus crimes, fantasias caóticas, confusão de sentimentos, ora melancólicos, ora eufóricos, que a deixavam silenciosa... expressão semiótica, simbiótico amor... perfume estonteante...tremor profusão. Sofre prazerosamente a dor e ilusão recheados de música antiga, doce caseiro, cheiro de mato, amor madrugueiro, cereja  no gosto do beijo sempre nunca igual. Paixão impossível, confusão mental...Seus escritos, registros dessa louca paixão ficavam todos dormidos em papel, caixa cinzenta laço de fita, secreta, escondida...enigma que se revelado, seria fatal. Numa noite, em que a tempestade de sua vida não conteve o vendaval, o coração ensaia salto mortal, roleta russa em noite de carnaval. Marcara encontro com sua paixão no portal do sonho daquela madrugada. Mas a surpresa foi severa, fez findar a primavera, fez gelar para sempre a escuridão. Morta pela manhã, velada pela tarde, vai repousar definitivo nos jardins da noite... Epitáfio encomendado, padre improvisado.Dia seguinte casa vazia, remexidos guardados, revelada paixão nos escritos secretos descobertos, desatados laços...Em cada som, letra, linha, cor, escândalo, decepção? Não, nenhuma, apenas a  nostalgia dos que a amavam demasia e conheciam seus sonhos, fantasias, alegrias...A noite chegou avisando-nos que a história tinha hora pra acabar. A relemos... sensação a transitar entre o trágico e o comico, ironia triste, melancolia que segura o riso sem ter certeza do quão engraçada era a morta que fizemos...ou que pensamos ser nos mesmas. Olhamos o relógio, as horas...Viginia Wolf vinha em nossa direção, olhando-nos sob as abas amassadas do chapeu caque, misteriosa, sem deixar claro para nós sua aprovação...mal nos cumprimentou entrou na cafeteria estava a sua espera Meryl Streep a Francesca Johnson, que se envolveu  com um fotógrafo nas imediações da Ponte de Madison. Se olharam dirigindo-se ao encontro de Clint Eastwood que saira da livraria com um roteiro na mão...troxemos todos conosco...

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Demorôôô

Apesar de inscrita a professora da escola antiga não conseguiu se concentrar em nunhuma das palestras e pra não se chatear procurou lugar fresco pra ficar...A toalete feminina foi escolhida. Posicionou-se no lado esquerdo do lavatório, colocou seu melhor sorriso, a flor amarela no cabelo negro, e ficou lá na certeza que veria todas as mulheres presentes no tal ensino de inglês...e teria delas o essencial... e o melhor...em português. O movimento grande dos momentos de pico acumulava fila em sua volta...burburinhos femininos, mulheres se arrumando, retocando batom, se maldando, se conhecendo, reencontros, gente que veio de van do município, gente que nem veio e está nas falas de outras, comentários dos mais diversos, sobre o palestrante, a organizadora do evento, o sujeito da mesa no computador, espichado barriga projetada pro teto...o vento da noite de estréia, panos voando, portas batendo, bandeiras ao vento, fanfarra bem longe dali... Ouvia sobre a moça de quem todos falavam...a outra da embaixada que fez xixi duas vezes, sonoplastia estrangeira...sem tradução simultânea...predomínio do xixi nativo, brasileiro. Ela conseguiu saber de tudo o que foi dito de bom e de pior sem ter que ficar na platéia...ouvidos de pinico. Estive duas vezes para usar o banheiro e desisti pela concorrência... na segunda vez ela me falou vai encarar olhando minha mão no zíper da calça? Foi então que a ví...não pude deixar de rir ao ver sua intimidade ... sempre acho graça nisso...ainda não sei por que...Disse a ela que podia esperar, voltaria em horário mais calmo e então ela me disse quer que eu mande te avisar? Não se incomode disse a ela...talvez vá pra casa...mas venho depois de qualquer forma pra conversar...sabe como? Ela pisca marota pra mim e diz esticando as vogais...claaaaaro que sei...sei tudo...tudinhoooo...Balancei a cabeça rindo indignada... uma professora da fila me perguntou...algum problema...se quer pode ir na minha frente...eu respondi volto depois posso esperar, obrigada. Fiquei meio desconfiada será que ela  me viu conversando com aquela dissimulada! Fui pra casa respirar e processar ideias. Voltei mais tarde...horário em que as tarefas reunia  os congressistas, professoras na maiaoria, em tarefas pontuais...Fui até lá com minha câmera ...Continuava sorrindo quando entrei. Ela foi logo falando sem parar como alguém que conheço...Voltou mesmo!!! E então, tá valendo a pena? A mulherada tá entusiasmada...café com bolacha...espaço pra fugir em rápidas caminhadas...almoço de graça...mulherada tá gostando...banheiro limpo, cheiro bom...o delas e o meu também sabe como? Olhei pra ela meio séria como que dizendo...cê fala heimmm? Ela advinhou meus pensamentos e retrucou...pô mêu tô aqui dinteiro anfitriã do banheiro, ninguém fala comigo, pensam que sou enfeite...pode?Cê também acha né? Interrompi levando o dedo  em riste como costumam não gostar lá em casa...Não minha amiga só vim saber se posso fazer uma foto sua, tenho um blog...tem muita gente bacana nele...gente do mundo inteiro...pensei apresentar você, o que acha...Ela endireitou o corpo empinando o peito direção ao nariz caprichou no sorriso e me falou no modo escrachado prolongando a vogal principal...demorôôôô!

Néctar dos deuses

Damasco com castanha!
Cores e textura se atritam se misturam líquidas, pasta de energia calórica, telúrica, onírica...Porta de entrada cantantes versos...soníferas palavras rimas ofegantes...damasco e castanha... estimulante tremor dos extremos... soltos, perdidos, languidos, sem forças, quase desfalecidos para o abraço...mas cheios de calorias do damasco, mastigado em dueto, deglutido em soneto...Coração energizado pra mais um começo, corpo sedento, portas semi abertas ao vento que sopra longe e afugenta o impedimento e toca as cortinas...seda pura...leve...transparente...desnuda a fantasia...expulsa do pensamento qualquer invento e chama a realidade nua, pura, testemunhada pelo damasco macio e doce alimento...A noite termina o dia anuncia mais um...no saco de damasco, remexido... rascunhos de uma história sensual que envolve a castanha e sela um pacto, nutre a alma do mais sutil e suave nectar... dos deuses.

link

Ficava olhando pro pé tentando ativar a cabeça...tédio...tempo parado na fala exacerbada, entusiasmo doentio...a palestrante saltitava diante dos seus olhos e entumecia-lhe os ouvidos com a dicção entrecortada nas pedras do caminho da comunicação...Olha pro pé...quer ficar nele...extremo sul do pensamento...o mais distante que conseguia chegar por tão pouco tempo...Queria pô-lo em movimento... havia tanto o que visitar levar seu corpo  pra brincar...roda d'água, antiguidade adormecida, sobressaltada pelo ganido das tecnologias propagadas naquela fala que aturdia...marketing infeliz...frases indevidas...afirmativas ausentes de lucidez... irresponsáveis...um êxtase orgasmico solitário diante da plateia sonada. Mas não era só ela a agarrar-se ao próprio pé elevado,cruzado pernas querendo chegar a cabeça num áscena yoga...havia outra que revisitava mensagens antigas do celular e que, solidária, compadecida do tédio ou simplesmente a partilhar lembranças, ou com pena de dela assim restrita ao pé, ou por nada disso...mostrava-lhe a pequena tela iluminada, a distraia, tirava dali...Salvador...até o próximo sobressalto que vinha da fala daquela figura que inspiraria Dalí o Salvador...dela...da outra ela e nela,  e do próprio pé, cansado de ser o foco principal do  olhar que se detém os olhos abertos.. a ouvir um cantarolar do poema brega a lhe salvar...pra um outro  link...em outro qualquer lugar. 

domingo, 18 de setembro de 2011

Joalheria de Cracóvia

Guardou e alimentou o ímpeto de adquirir uma daquelas jóias presente pra pessoa amada. Procurava algo simples em seu design, precioso em sua imagem e significâncias. Uma peça de beleza singela  e exuberante na delicadeza assexuada e estética indecifrável... sem adjetivos comuns. Uma descrição que guiaria a procura ... Ia registrando a história das regiões por onde passava seu processo de transição de um regime autoritário para um capitalismo principiante, aprendendo a engatinhar. O endereçamento da jóia merecia toda essa peculiaridade estética singular. Torna-se imperioso dizer que a  Polônia, país que mais a comoveu impunha-lhe um silêncio desses que resultam da decomposição da luz solar através de um prisma, projetando flashes da literatura e artes plásticas. Visitara algumas joalherias e foi então em Cracóvia... lugar economicamente mais pobre de todos que visitara...saído de um comunismo segregado, lugar marcado pelo holocausto de Auschwitz, a população ensaia o trato com o turista viajante, arrastando uma possibilidade de comunicar em inglês... Ela fora duas vezes ao lugar...na primeira deixou a vendedora tranqüila dizendo que levaria ao menos uma peça com certeza... voltaria mais tarde, queria aprender  mais sobre as jóias, procedência e métodos de extração do metal...No dia seguinte visitou a mina de sal e depois Auschwitz, demorando-se mais que o esperado. Ao voltar, o comercio já estava fechado...Preocupara-se pois, seguiria bem cedo para o aeroporto, sem mais tempo para o presente reservado... Mesmo assim voltou a loja e com surprêsa viu a jovem vendedora frente a porta semi-cerrada ... Abriu um sorriso em polonês se movimentando o corpo pra comunicar seu inglês... Foi trazendo a peça... Com ela entre mãos percorria os dedos sobre as contas, canudos de metal torneados... Assegurou-se de sua origem...Sim é feito por joalheiros poloneses...veja o cartão garantia...Era o que ela precisava...ser do local, e viajar pra morar junto ao corpo porto seguro de pura inspiração...amor quiçá indelével! Passou o tempo... não se sabe quanto...vieram tempestades e furacões de toda ordem. Atingiram as páginas do romance destruindo o cenário e quase todo o elenco, apenas o roteiro ficara protegido feito bussola, mapa projeto secreto, pra que os sobreviventes encontrassem o caminho perdido. Ameaças de orfandade, abandono... tristeza...vendaval...aborto anunciado... fim dos tempos...Das faíscas da tormenta um fio de luz atou as asas dos anjos que entoaram a canção da paz, afugentando a desnorteada decisão pelo fim...E veio o sol que regou o dia e vestiu com alegria as realizações que compuseram o cenário da festa, do encontro, do merecido espetáculo da entrega da jóia ao seu destino...jornada longa e arriscada, ameaçada vida e morte. Renasce o amor festejado sabores damasco e arco-íris, poemas falados, pleno êxtase, saudade nutrida na espera nascida em Cracóvia...naquela joalheria...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Strauss

O monumento, escultura moderna em ferro, cantava quando entrávamos nela...seus elementos criavam lugares, caverna sob luz do sol. O observador podia interagir tocando com os pés pontos escondidos que iam se revelando inesperadamente. Emitiam  sons, variados, graves, agudos...sempre eltrônicos. Era uma contracena naquele lugar onde tudo orquestrava os clássicos da música erudita, barroca, medieval num abrir de cortinas em cada esquina para um novo concerto...na praça, na igreja, diante do McDonald's, nas escadarias da ponte do rio...estavam lá, batuta em riste pra começar a tocar...artistas de Viena, Austria, onde a música é currícular na educação, disciplina fundamental da cultura e formação...me pego a pensar  no meu pais onde as tentativas de se implementar música na escola, traz sofrimento aos professores que não sabem como fazer...Volto do pensamento e percorro a escultura...brinco com os sons que pouco a pouco vou descobrindo. Volto a praça, um lugar pra sentar, abro meus apontamentos e escrevo...um violinista se aproxima povoando minha tarde com um concerto particular...Strauss em pessoa toca pra mim e depois senta ao meu lado pra contar um pouco sobre a maldição de ter sido sua música apreciada por representantes do nazismo de Hitler, quando ele nem existia mais. Estava desconsolado me pediu ajuda...quem sabe uma outra história...ficou sabendo eu que andava pelas cidades da Polônia, Áustria, Hungria, República Tcheca e Alemanha reinventando algumas partes da história a pedido de seus protagonistas. Me expliquei...veja bem, isso depende de você e acho que já está se reiventando, olha a sua volta...século XXI! Você permanece naquilo que faz...sua arte...fica leve...continue seu concerto, afinal é bom demais...e quem gosta de música meu amigo, gosta, respeita quem a faz e executa...é só que importa. Mais animado ajustou o violino, empunhou a vara e iniciou a execussão da peça  Also sprach Zarathustra (Strauss) (Assim falou Zaratustra, Opus 30)(1891). Eu então não tinha mais nada pra falar...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sissi

Marquei de me encontrar com a imperatriz em seu jardim em Viena na Austria. Combinamos de tomar um chá e ouvir música. Na sua carta falou do tédio que a assolava com as regras de nobresa a que se forjara.... Sissi, seu nome,  sofria de depressão por causa do casamento infeliz e da rígida vida na corte austríaca. Não tinha um bom relacionamento com a aristocracia, que desprezava a sua informalidade. O marido  sempre ocupado com a política do império contribuiu para aumentar sua tristeza. Me escreveu dizendo de sua solidão e do quanto se sentia  alienada da vida e do prazer. Aconselhei-a deixar a corte ela me ouviu...deixou Viena várias vezes... mas acabou sendo coroada rainha da Hungria. A sua dificuldade de adaptação às rígidas regras e a sua preferência pela Hungria chocavam a Áustria, razão pela qual a isolaram cada vez mais dos compromissos oficiais, e por detestar o protocolo e as obrigações impostas pelo título  de nobreza. Enquanto caminhava pelo jardim a sua espera fiquei pensando sobre o que conversaríamos, tendo em vista esse script tão árido de minha anfitriã. Depois de muito avaliar peguei o dvd de Matrix para assitir com ela...achei ideal...também um livro da Clarice Lispector pensei ler um poema em meu idioma, o 1o. cd do Drexler pra ouvir a canção que a remeteria a uma outra imperatriz, em outra corte, em seu palácio interior. Por fim separei um envelope de chá de ervas brasileiras, alguns damascos secos e castanha do Pará, excelente combinação quando se tem bons dentes...Passamos uma tarde agradável, percebi que sentia-se bem melhor quando me despedi...prometi trazê-la , apresentá-la a Nefertiti e outros hospedes que temos no criarte...ela gostou da ideia.

Subterrânea

Era uma galeria ateliê, quase não se notava sua existência, ao passar pela rua, seu acesso ou seu buraco de entrada. Estava passando e fiquei curiosa com as peças penduradas num fio feito varal cruzando de um lado ao outro do vão...o material, sua textura e cores chamaram-me a atenção... me aproximei e vi então uma escada infinita que descia curva, impedindo-me de ver até onde ia, pra se chegar ao chão...olhei mais uma vez pra rua como se me despedindo caso não voltasse mais daquela aventura...e passei a descer os degraus de pedra, da escada ladeada por parede como num tunel sem corrimão...desnecessário pelo espaço...impossivel cair para os lados...só para a frente se fosse o caso...fui descendo e vendo as mesmas peças de fora que me atraíram se multiplicando presas nas paredes que contornavam o caminho que não parava nunca de fazer surgir degraus diante de meus pés...não sei quanto tempo desci...criei a possibilidade de estar sonhando...faltava música pra que  fosse uma boa invenção...mas tinha algo que a substituia era a iluminação...meio que escura...cavernosa, colorida, difusa...finalmente aterrizei... deslumbrada com o que vi...um ateliê galeria oficina laboratório escritório poderia ser também loja pois havia preço nas peças e objetos de arte...O que me encantava dando perspectivas de um pesadelo bom...(sonho era leve demais pra aquela ideia subterrânea), luz furtacor e fraca, piso de pedra teto baixo, paredes rústicas e as obras espalhadas pelo chão pelas mesas de madeira, cadeiras antigas, como se tudo tivesse sido jogado sobre os lugares...mas não...era só olhar um pouco mais e se via o esmero em cada posicionamento de uma escultura,  tecelagem,  jóia-arte, encarte, madeira, papel, tecidos, flores de fibras de  lã, tingidas, tecidas, tramadas...belas cores misturadas, criadas...não vi o tempo passar...fiquei perambulando por aquele espaço. Nele haviam duas mulheres falando húngaro ou tcheco não consegui decifrar mas falavam de arte isso eu entendi perfeitamente...era só observar os gestos das mãos o olhar e a expressão corporal a sorrir...falar de arte faz isso...não importa a língua...eu totalmente estrangeira tentei me comunicar...francês, inglês, espanhol, nada...impossível. Não desisti, percorri novamente e novamente cada canto e me aproximei com as peças que mais gostei, a sofrer pela dúvida cruel sobre o que não gostei... Fui levando uma a uma até elas  colocando-lhe nas mãos,  apontando para o meu coração numa mímica gestual pra dizer esses me encantaram, quero levar, fui abrindo a carteira, mostrando meus ultimos euros pra saber se aceitava aquela moeda...Comprei as flores de fibras uma delas num anel com o qual sai vestida, outras de lapela que não demorei desfilar...Fiz as contas e negociei em euros... de novo eu consumindo arte, penso que tenho que voltar pro meu pais, povo tão privado dessa essência que alimenta a alma...paralizei aquele momento, a mulher me olhava tentando ainda se comunicar com um sorriso consolador...nos entendemos...Retomei a escada pra voltar a rua...luz da tarde despedindo...Trouxe comigo aquele lugar, as pessoas e pra delas me lembrar uso um anel de flor de tecido no dedo mindinho e na lapela um adorno exótico tão exótico quanto ela...esta eu naquele lugar. Volto lá todas as vezes que leio este criarte e nem preciso me ausentar por fusos horários que me tiram daqui onde quero por enquanto ficar meio que subterrãnea... flutuar.

Cracóvia

Te vejo outra vez Brno caminho de Viena para Cracóvia, na Polônia...Converso com a história dessa cidade identificada como invencível... destruída por duas vezes...arrasada total...De 1700 a 1792 as guerras e invasões a levaram ao chão desaparecendo pra ressurgir e desaparecer de novo.
Cracóvia cidade fenix,  palco da dor que sofre e que causa...lugar cedido para o horror de Auchwitz, museu da morte, restos da vida, objetos, vestimentas, imagens de corpos nus, almas perdidas, vítimas...último por do sol...Viajarei um dia todo pra ver o que já vi na literatura,cinema, dramaturgia, pintura...fato histórico rico e ainda insubstituível. Nem mesmo pelo 11 de setembro com toda a força do seu tempo midiático a supera...debate ideológico,político, religioso,sacrifício pensado... tecnologia da morte alvo de objetivos de guerra...morte em massa...rápida, 17 minutos e o exterminio de 400 pessoas reunidas nuas para um falso banho coletivo após um dia de trabalho e flagelo...de uma só vez...numa câmara de gás...incineração de corpos humanos...crianças, mulheres e homens...nos fornos gigantes que os reduzem a pó...nem mesmo lugar para ocupar no solo sobram deles... eficácia da produtividade na industria da morte em larga escala. O sacrifício entre animais da mesma espécie, conspiração de
idéias...manipulação de modelos de perfeição da raça e da espécie dominante movendo a insanidade de um homem e seus seguidores, lacaios, cumpridores e simpatizantes de mandos psicóticos. Em seu percurso civilizatório a humanidade anda pra frente e pra traz num ritmo contraditório que remete a sua insignificância desastrosa, crueldade,ódio e benevolência.
 Pra onde vou com essa história...quem vai ler...escolher essa tragédia em lugar das minhas alegres inveções de fantasia, nostalgia de cientista perdido no próprio invento envenenado de inspiração suspeita...dessa impotência diante das vitimas de Auchwitz pra os quais não há reinvenção da história...talvez retroceder, voltar, apagar a vergonha  e  pedir perdão antes de pecar o pecado da cobiça e do  poder de dominação...acho que é isso...
 

Lá fora

Lá fora aqui dentro é bem mais iluminado, mas musical no vento da brisa que toca movendo as teclas do meu acervo de memória... sentimentos... histórias e inventos que me acompanham rio afora, mar adentro, sem preocupação com o tempo, da partida, despedida sem roteiro, sem direção de arte, sem fundo musical ou cenário que se enquadre margens, linhas, tudo nada igual.Lá fora ficou mais dentro agora com as grades ensolarando a saida ainda que lacrada...mostra a passagem de dentro pra fora pelo lá fora que se instala aqui dentro, mostrando liberdade pronta a ser acionada, passos largos rumo ao encontro, arremesando o corpo a frente da estagnação do estar parado diante da porta  semi-aberta, semi-cerrada, semi-encantada, semi-eu um pouco de tudo e nada.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

sans souci

Era preciso acertar o relógio e com ele as sensações que o corpo teimava revelar...Distante de casa, no próprio aposento... sem ar, sem visitas, sem o perfume do vento da tarde navegando pelo quarto tocando a face, acordando a inspiração teimosa em manter-se fuso horário alterado...noites prolongadas manhãs subtraídas...tardes desencontradas do dia sem bússola ou geografia.Gosto de nada, sede de poesia, vontade de quase tudo sem nada... Saudade...balanço do vivido e do sonhado...desejo de perpetuar a alegia,  o riso,  a fantasia,  imaginação sem medidas... censura... rima. Invenção sem justificativas, sem lógica, sans souci, sem preocupação alguma. Na lembrança o casamento impensado, loucura de apaixonados, promessas iludidas, desejo de mudar de lado, de sair da linha,  trocar a roupa, sair pra rua, andar descalça, perder o caminho, achar o endereço sem número, e uma porta sem saida, pra essa busca do estado d'alma  na tentativa de estar sans souci...deitada o riso no macio travesseiro sem juizo sem razão sans souci...

Melancolia

Nas imagens desmanchadas a identidade escondida, pensamentos negados, ideias sem guarida...A música marcava o compasso da tarde que se ia antes da hora, pra fugir da noite que sabia, vinha cheia de indagações sobre o dia...que se entregava... quase caia nas malhas do engano, da fantasia...em tempo de ter dela a companhia...e rir de novo da alegria...se encorajar novamente a mente de energia...Queria esquecer...apagar o as marcas das tardes todas fingidas...sem manchas de tinta, sem lapis, papel, sem poesia sem o encontro... melancolia...Ficava assim refletida sem nexo, sem foco, sem sentido...perdida nas teias do pensamento, sem coragem alguma, ...total realidade sinistra...silêncio mórbido sem ruídos do vento...calada...ausente da vontade de ao menos um único e último invento.

Em negro


Eram artistas, escritores, cineastas, músicos, professores com certeza também, quero crer...viviam sob a repressão russa maquiada pelo governo húngaro local que se prestava a materializar o inferno da perseguição que anula valores culturais por meio da imposição ideológica, própria do novo poder que se instala. Movidos de sentimento, sensibilidade e determinação buscavam rebeldes criar uma linguagem que denunciasse a nova condição que instalava na população o medo e a resignação. Inventaram o teatro negro. Um espetáculo sem texto ou falas, apenas personagens que se movem no palco escuro... atores vestindo negro cortinas negras...tocados pelo jogo de sombras e luzes completados de figuras do cotidiano e do imaginário criando a mensagem no cenário e contexto que ganham vida com a musica suspense e fantasia num instrumental rico em percussões e compassos que imprimem pesadelo...perseguição...angustia...riso triste. Alice é escolhida para mostrar as entrelinhas do país das maravilhas e nele os horrores do holocausto. Menina cheia de imaginação Alice contracena com sombras ritmadas pela luz e pela música voando suspensa cena surreal. Trágica... cômica...crítica...Denuncias inteligentes desfilam no espetáculo de quase duas horas...O espectador ingênuo sai com a impressão de que é uma arte pra criança mal feita, o sensível e conhecedor da arte e da história, sai com lágrimas contidas e um profundo silêncio revelado ruidosamente na sensação de engano e traição... uma ironia triste revelada no teatro negro. Praga Budapeste. Fiquei pensando naquela tarde em que esse grupo sui generis se uniu para criar tal linguagem...Reuniões escondidas, lugares públicos para fugir dos secretos... suspeitos... grampeados...fuga do controle e espionagem...da perseguição...Me vi entre eles solidária naquele dia de 1945...vi os tanques invadindo Praga...nasci muito tempo depois ainda mais tempo demorei pra conhecer essa história no contexto do Século passado...Hoje, um dia do Século XXI estou aqui com todos eles no elenco do espetáculo que acabo de ver negro! Uma peça de atração turística...curiosa e interessante pela linguagem e beleza...pelo sentimento que guarda em sua origem...pelo negro...estado de ausência total da luz que representa a falta de liberdade .

domingo, 11 de setembro de 2011

Desinvenção


A saudade chegara bem antes da despedida...antes do dia...não era tarde, não era noite...era um dia que amanhecia...O frio ainda era madrugada e o inverno em hora errada fez o clima da espera e fantasia...O plano do que exibir primeiro o sorriso, o abraço de corpo inteiro ossos quebrados alegria em pedaços...ou um simples e enigmático silêncio. Queria algo diferente...inesperado. Quem sabe... pra que a saudade se prolongasse no exato momento de se acabar...E se ele não viesse? Por esquecimento... ou por querer também algo diferente?Poderia ter errado o caminho e livrar-se da acusação do irresponsável esquecimento ou dessa idéia maluca de querer ser diferente a esta altura da saudade sem espaço pra se acomodar... louca a procura de ar...Quem sabe? Mas não se atreveu a quebrar a promessa e foi ao encontro. Lugar e hora combinados...emoção na porta de saída do peito...sorriso ensaiado, riso pronto pra se deitar...Chegou primeiro...paciente distraia-se com os transeuntes, com as árvores, os ciclistas madrugadouros, com a brisa úmida e o canto dos pássaros adormecidos nas copas das árvores sem floresta...O tempo passava lento e pesado como em final de maratona...rastejando-se reta de chegada...pódio. Ela então percebe que ele não vem. O tempo que tinham planejado se acabara... fim da espera...saudade encolhida no canto da porta da saída. Ao ver-se desastrosa situação imaginou uma ligação justificando... ou quem sabe uma mensagem, ou simplesmente um não sei quê qualquer...Sem perda de tempo do tempo todo que já perdera, aciona o pensamento e corrige a história volta no tempo reinventa o invento...olha pela a janela e o vê sorriso quase inteiro para o encontro ser exato perfeito tal qual sonhado... inventado...esperado. A manhã se espreguiçou e a saudade sem pressa foi pouco a pouco mudando a cor... Ela então respirou aliviada com o sonho e a promessa realizados...livre da culpa de ainda que em pensamento, desinventar o invento.

sábado, 10 de setembro de 2011

Musa Inspiradora


O poeta me esperava em seu casarão do Século XVIII. Fui entrando em silêncio para não desfazer aquele mundo tranqüilo com minha ansiedade com meus desarrumados desejos. Atravessei o largo salão, mobiliário em madeira escura, janelas largas e altas, paredes em afresco misturando o barroco ao renascimento...O poeta me esperava...parei diante da mesa de escrever, seus objetos dispostos prontos para serem tocados, revividos...naquele silêncio de quem ficou no passado assim tão presente em mim na busca de um futuro que não sei...Sua arte se mostra na música de Bach que escolheu pra me receber...tocava quase inaudível...um vento discreto movia o vuol transparente a balouçar através da cortina semi-aberta. Aproximei mais...vi que a janela não dava para o lado de fora do casarão, mas, para dentro dele mesmo e de mim...Um outro aposento se guardava ali...tocando leve para não quebrar todos os encantos daquela composição afastei a cortina e a vi. Sentada no divã sem encosto... ombros nus...vestes esvoaçantes derretendo-se névoas transparentes...cabelos perdidos na brisa tocada pela musica que os deixavam assim, procurando abrigo espalhando-se fios pela face, tracejando linhas tênue...as mãos repousando sobre um livro, dedos finos anéis do Século XXI... perturbadores adornam as mãos delicadas...fiquei hipnotizada por mim mesma com tamanha invenção quase a me sufocar em suicídio pela criação daquele ser. Trêmula me movo em sua direção temendo perdê-la com a emoção a sair pela boca e poros todos, do pensamento em profusão...Ela ficou...não a perdi...e então a vi no espelho sob o foco das lentes... fotografei..ela sorriu , procurou delicada caneta e papel e me estendeu sussurrando com o olhar...e então, vai escrever agora ou terei que ser ainda mais que musa inspiradora pra te fazer... inventora de mundos, pessoas, tempos, lugares...de si mesma? Se aquiete! Sente-se aqui, veja quantas palavras dançam em sua mente prontas pra agarrar um sentido, desses todos que coleciona desmedida...veja o poeta a te esperar a escrita... pra respirar e reviver versos, vida!Olhei em volta fui juntando as palavras e me entreguei a ela musa inspiradora de meus inventos co-autora... 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Princesa

Percorria a galeria dos clássicos da pintura em busca de Rembrandt... sabia que ela estaria lá. Passava veloz pelos enormes monumentos, cenários, pinturas dos séculos XIV, XV, XVI...deixando-as desapontadas com sua pressa e falta de atenção. Meio que a pedir desculpas lhes dizia ofegante: estou a procura de alguém e não tenho a menor idéia de como encontrar...não reconheço esse lugar...marcamos aqui como parte de uma invenção nossa...temo ter exagerado no grau de dificuldade que criamos naquela quarta feira que teimava ser quinta. Não posso voltar sem vê-la...nos prometemos. E então as meninas de Velásquez em sua pureza infanto-juvenil, quase em coro: Nós a vimos... está a sua procura. E então, com o ar faltando no coração e o pulmão batendo desritmado frenético perguntou-lhes...qual é a direção?Onde a viram... podem me dizer? E as meninas respondem: Não podemos... lembra...vocês fizeram assim...Mas vão se encontrar e verá finalmente nela... a que busca há tanto tempo em sí mesmo...Continuou...mal sentia o corpo que deslizava como nesses patins que usam nos shoppings os repositores de mercadorias ...e então... a música penetrou com sua luz suave a dançar...Viu-se de repente em um enorme saguão , virou-se levitando quase congelando aquele momento pra ser eterno...a viu movendo-se em sua direção...suave...doce olhar de saudade contida na espera...gestos delicados, aproxima irreal...segura com as mãos delicadas seus ombros posicionando-o frente a ela...olha-o dentro dos aposentos mais secretos do ser... desnudando um sorriso que desemboca no esfuziante riso e o tomba feito árvore ao vento em tempestade...se abraçam e saem...busca de lugar para deitar o riso...matar a saudade sem pressa... com tempo pra conhecer melhor Rembrandt, Velásquez, Renoir,...mestres fazedores de princesas reais.

Malas

O voo pode durar muito ou poucas horas... Não importa...duas preocupações moram na cabeça do viajante:  o sucesso da aterrissagem...afinal o piloto também está cansado...ficou ali o tempo todo no avião...ou não? Não vem ao caso... A segunda  o reencontro com a bagagem. Em solo, saem todos pelo corredor espremidos  como gado em direção a esteira giratória onde começa o drama da espera, a identificação e por fim....o resgate.  Eis o que vejo então. A platéia desembarcada da aeronave diante da arena circular a espera do início do espetáculo. Cada um tem algo valioso e querido protagonizando a cena principal. As esteiras rolantes circulares são acionadas e da pequena porta de saída do bagageiro...entrada pro palco, elas vão surgindo. Entram em cena...meio que tímidas, amarrotadas, desajeitadas, cabelos desgrenhados, algumas bocejando, outras tirando a calcinha do vão, arrumando os óculos, a alça do sutiã, também aquelas que conferem a braguilha, arrumam com as pontas dos dedos a barba, acomodam o saco, coçam o nariz, olham pro celular, arrumam o boné, cabeça  inclinada pro chão...mãos nos bolsos...vão sendo arremessadas uma a uma. Inicia-se o desfile na passarela, sob os olhos a roer unhas de seus donos...Como que num pacto comum, evitam levantar os olhos...não facilitam o reencontro...parece até que pouco importa se serão encontradas ou não...diferentes de seus donos, não sofrem com a possibilidade de ficar perdida em algum canto,ser violada...essas coisas que aterrorizam os passageiros nos aeroportos do mundo inteiro!..Indiferentes... olham-se entre si meio estranhadas meio companheiras de viagem...uma a uma vai sendo encontrada e retirada da pista...Sem nenhum gesto de afeto daquele que a espera com tanta agonia e medo de perdê-la!...Estranha atitude...E então, numa ação coletiva  constatam que não tiveram tempo pra quase nada!15 horas de viagem lado a lado, umas sobre as outras, num contato  beirando a  promiscuidade...tanta intimidade pra nada!Agora mal se olham ou se despedem. O grupo vai se descompletando até não sobrar mais nenhuma...Fiquei olhando aquela repetida cena  daqueles dias viajando de aeroporto em aeroporto, tive pena delas. Fui tentada a inventar um script, embora tivesse pouco espaço no bloco de anotações... escrevi apenas um final que considerei pouco mais animador que aquele. ... e então as vi trocando  identificações, souvenires, fotos, se abraçando, fazendo a maior zona,  misturando-se com as bagagens do voo que estava chegando...teve uma até que sacou uma champagne erguendo um brinde. Mais afastadas,  estavam aquelas que ficaram cúmplices numa relação mais íntima de gran finale, comemoravam felizes a experiência... sem as marcas comuns das despedidas... e a minha estava lá...entre elas...

Existir


Alguns textos foram embora do bloco de anotações... alarme e uma nova preocupação...eles se foram mesmo ou nunca estiveram lá? No percurso da escrita literária muitas vezes...pensamos um conto, uma prosa, um poema e estamos distantes do bloco de anotações ou do gravador, teclado, coisas que registram idéias...Mesmo assim se constroem e passam a existir na memória sem ter sido...registrada...materializada códigos... palavras...Passa o burburinho que contextualiza o bloco perdido, distante do posto de serviços prestados ao escritor...sua inspiração...Hora do deleite da leitura dos escritos...reviver a inspiração, a emoção do nascedouro, a idéia se movendo, se configurando, ganhando linhas, sentidos, ocupando o espaço no acervo de pensamentos, inventos, descrições misturadas com ficção, poesia, nostalgia, imitação de alegria, prazer...Vem o desejo desse resgate e então a procura página por página, pasta por pasta, arquivo por arquivo...nada!Procura doentia, revira tudo, olhos em ritmo de fórmula hum no circuito de riscos e alta velocidade, pista molhada, páginas amassadas, tocadas mais de cem mil vezes...e nada! O texto não está ...lugar algum...Mas existe! Seus fragmentos principais estão todos lá...fixos...na memória...é hora de reinventar a história...

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sobrevoada

Voar sobre os muros, os apuros, os senões, sobre as certezas, a razão...Voar sobre os entraves que travam a língua e impedem o grito... prazer e dor...alegria...insana poesia...Voar sobre o sim, sobre o não e o talvez...Voar queda livre...sem linha...cerol, cabresto...anzol...Voar sobre  as redes, as teias, as malhas, amarras, prisões...Voar sobre o mar, o deserto, o luar...Voar sobre mim, sobre nós... sobretudo... sobrenada...sobrevoada.

Abraço


Um abraço de quebrar os ossos, de ajuntar os músculos, de soltar os nós das entranhas...de arregaçar a pele inteira do corpo, de esvasiar os pulmões pela boca, de triturar pedras do sapato e do caminho. Um abraço de bombar sangue novo no coração, de conectar a rede de emoção, de acionar o riso...de assustar a saudade, de estabelecer a conversa...de aguçar o olhar, de massagear a alegria, de esculpir a beleza do corpo deixado a espera do abraço...Um abraço pedido de perdão com os ossos todos...quebrados abraçados da cabeça aos pés do coração.

O relógio

Ele viera da viagem de navio pelo Atlântico que ela fizera pra enxugar as lágrimas com a brisa do mar. O encontrou próximo ao cassino e boates numa vitrine entre outras jóias, perfumes e acessórios... coisas de free shop. Ele era diferente e único... arrojado e assexuado um pouco como ela...um pouco, digamos sem fronteiras. As pulseiras largas e negras, incrustadas nelas extremidades do visor retangular das horas, números grandes bailarinos sob o vidro, placas em metal platino nobre, fecho que se abre e dobra sobre outro elemento para fechar, abraçando firme o pulso que precisa ser, para conduzir aquela mulher...Paixão em dólar, namoro em reais que se estende pelo mar todos os dias daquela navegação molhada, sem sal. O relógio na vitrine passou a ser um lugar para mudar de lado, distrair a maresia, visitar após o jantar, antes de dormir... ao acordar... Caso sério cada dia mais...Fim da viagem...terra firme pulso forte e decisão de levá-lo para não ficar dividida sem ele, melhor a dívida e com ele...Mas acha que combina com você, alguém lhe pergunta ainda...sim ele é todo eu...vai me traduzir pra quem não conseguir se aproximar pra me conhecer! O relógio passou a ser parte dela do esportivo ao social, da meditação ao brincar; do trabalho austero ao riso de percurso fácil... Certo dia, numa de suas passagens entre o rigor do trabalho e a leveza do caráter artista cruzou caminho de um olhar que fixou no relógio... ponto de referência, paixão sem hora e lugar pra chegar...Foi capturada pelo pulso... e o relógio? Foi janela por onde o ladrão saltou roubando-lhe muitas horas de sua vida. Aproximação, ousadia, revelação: me apaixonei pelo seu relógio...quer vender? Não está a venda, responde. Faço qualquer negócio, quero ele, gostei... Quero! Dizia do lado de fora aquela voz molenga e determinada. Estremecidos o relógio e ela perceberam a delicada atmosfera que transitava entre medo e fantasia (será que aquilo existia...). Então pra quebrar aquele circuito elétrico oferece... Deixo experimentar um pouco... Em silêncio tira pela primeira vez até então, o relógio, segura o pulso estranho e o coloca... Fica apertado veja... não serve...não vai dar certo...Imediatamente a voz do lado de fora: eu ajusto! Sei como fazer! Sei muitas coisas sobre relógios quer ver? É só me deixar...Ela volta rapidamente o relógio pro próprio pulso que assustado já não sabia mais o lugar das horas...Foi um tempo de grandes atrasos e desacertos aquele tempo...Hoje ele marca sereno as horas mas, vez por outra é sobressaltado daquela atroz perseguição que se materializa...agora, mais docemente: gostei do relógio...o que eu posso fazer? Gostei...gostei...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Parece

As vezes parece que é a outra margem do rio que vemos ...mas não é...pode ser talvez uma outra idéia que se aproxima sorrateira...com as ondas preguiçosas...ou então o desejo de ter algo novo no fronte projete essa ilusão: doce engano consentido... de se ter diante do olhar a outra margem do rio...Mas parece...só parece...Ainda bem...pois senão poderíamos nela ancorar e deixar de lado a procura que nos remete a tantas possíveis  margens...

Szeretet... szerelem



Tentei falar com ela em sua língua húngara para cumprir a promessa de aprender ao menos uma frase para uma amiga colecionadora de idiomas que conheci no Brasil numa tarde de 5ª. feira de abril. Me aproximei dela inclinando a cabeça num cumprimento yoga, o mais humilde gestual que conheço, juntei as mãos polegar tocando o coração sussurrei internamente namastê...ela sorriu e me perguntou em um inglês transgênico de onde eu era...fiquei animada...ótimo vamos conversar! Já vinha observando nos letreiros a grafia do húngaro... Fui logo perguntando sobre seu alfabeto e ela então foi falando me deixando meio tonta com aquele inglês embriagado: temos 14 vogais e 30 consoantes... ia processando as informações cruzando com o que suspeitava... hummm por isso os acentos todos...trema, circunflexo, til, pontuação usada pra diferenciar o som e o significado das vogais na palavra... Ela animada dizia que não era complicado, o problema maior da língua é quando precisamos dos substantivos pois há no mínino 17 significados pra mesma palavra! Nossa! Meu cérebro quase fundiu e ela percebeu... pedi pra me ensinar uma frase pra eu levar pra minha amiga colecionadora de idiomas, sem me deixar terminar...sim, sim...vamos a um jantar típico hoje, ouvir musica húngara, comer comida húngara, beber vinho e dançar! A cada copo de vinho verá que aprende e melhora a pronúncia... a cada garrafa aumenta o vocabulário!!!! Comecei a rir...que maluca pensei! Acha mesmo que vou com ela nessa esbórnea? Pior que fui...passou no hotel e fomos. Ela tinha razão sobre quase todas as coisas...terminamos a noite num passeio de barco pelo Danúbio,o rio de Viena na Áustria cujas águas negras são cantadas na música vienense, literatura e na poesia como azuis: Danúbio Azul...e então ela me explica que pra se enxergar o azul dessas águas é preciso estar embriagada ou apaixonada e se estiver em uma dessas duas condições falará o húngaro fluentemente. E então saquei do meu bloco e com ela escrevemos a frase: Szerelem...talalkozunk a cultura be à vèsoban szeptember...szeretet...seretler. Publiquei a frase para minha amiga colecionadora. Já se passaram anos, neste tempo fiquei sabendo que conheceu um húngaro se casou e mudou pra Budapeste...Ela deve estar lá agora...lendo esse criarte ...ou não...

Óculos

Termômetros em 40 graus! Nem no Brasil temos um calor assim...Meu conforto, a escrita só ela me acalma e me leva pra longe dessa sensação quente úmida que percorre o corpo e brota gotejando pela testa ardendo os olhos derretidos com o filtro solar...Procuro meus óculos pra escrever e reler o escrito... mas ele se enfiou ao meio as barras de cereais no fundo da mochila...vou tateando qual cego que busca na textura do estojo reconhecer o achado...revejo com as pontas dos dedos outros objetos perdidos que me indicam a direção. O encontro e coloco sobre o nariz, agora... uma folha em branco no bloco que se esgota, a caneta acostumada ao meu chamado sempre presa na capa do bloco...tomo um gole de água e ponho-me louca a escrever...as ideias estão todas misturadas com várias frentes e assuntos, reviro todas elas procuro uma que está mais formatada pra ser codificado e então, é quase que um duelo entre a velocidade dos sentidos e a mecânica da escrita...não! Duelo não! É uma ópera no ponto alto quando os adversários se encontram para disputar a mulher amada...Numa jornada ritmada onde nada em volta consegue desviar...termino mais um texto...os óculos a escorregar pelo nariz, calor grudento...retiro-o... preciosidade que só avalia... quem dele depende exclusivamente. Protejo-o novamente no estojo e o liberto do trabalho soltando junto aos cereais...agora, cega de perto, avisto ao longe novo cenário de Budapeste que me espera em cada canto uma poesia com ou sem meus óculos...escrevo mentalmente...os trilhos dos trens dos bondes e metrôs percorrem a cidade e tornam-se meus guias...decoro lugares, fotografo referências para encontrar o caminho de volta... Me perco... finalmente, e sinto-me em casa...

Medusa


Ouvi gritarem meu nome no momento em que eu cruzava a ponte da cidade de Budapeste...era uma voz rouca e grave. Olhei em volta procurando pelo eco que se expandia e a vi finalmente... era Medusa...escultura em pedra que sustentava sobre a cabeça uma enorme coluna de granito de um dos edifícios imperiais. Olhei tombando para traz a cabeça, erguendo o olhar para responder seu chamado, Sim...me chamou? Ela não me olhou ficou lá feito o que era mesmo de ficar, imóvel estátua... virei-me  para seguir meu caminho e novamente ela grita meu nome...voltei-me mais decidida e sem paciência a lhe perguntar...e então? Vai dizer  o que quer comigo? Ela sorriu... lábios envoltos nas serpentes que cobriam-lhe os cabelos, mostrando seus terríveis dentes de pedra dizendo: não só queria ter certeza que era você...fiquei intrigada, justo eu, essa agora meu...Era eu quem? Fale! Ora, disse ela, aquela que vive a se procurar em todo e qualquer lugar e nada de se achar...rsrsrsrs...que abuso pensei retrucando: sim, eu e ai? O que tem a me dizer, o que sabe? E então ela ri mais alto e diz: É isso que quer? Facilidade? Que eu lhe fale onde está escondida?Perdida, sei lá o que? Quer? Nãããooo! Respondi. Não quero! Sei me encontrar, que caminhos construir... Então minha cara, ela respondeu tirando com os dedos longos uma serpente que entrara em seu olho...continue...continue procurando...Voltei para o meu quarto de hotel... Até medusa já sabe de minhas inquietações...quem mais saberá? Ela teria realmente alguma pista sobre mim ou seria mais uma travessura da mitologia em tempos de tecnologia? Ligo meu computador, acesso e-mails e repondo a mensagem de um amigo do Brasil...A viagem? Sim vai bem os lugares são lindos...estive hoje com Medusa conhece?

Fotógrafos


No empenho de distrair as pessoas na enfadonha fila de espera para ouvir a palestra sobre história da segunda guerra e as peculiaridades de cada aliado nela envolvido contra o inimigo maior, ele ou ela, inventava histórias que se compunham com flashes dos registros oficiais acrescidos de suas invenções. Dizia que os dados oficiais podiam ser encontrados em qualquer livro de história, mas as suas invenções criativas... estas só poderiam acontecer na cabeça...na sua...na dele ou dela...Naquela tarde um grupo de intelectuais e artistas se reuniam num café próximo ao teatro onde estreava a exposição de um fotógrafo brasileiro que ainda não tinha nascido, Sebastião Salgado seria seu nome. Viviam-se tempos difíceis naquela época e o grupo de amigos acompanhavam em suas produções artísticas e intelectuais os sinais da guerra e da destruição do patrimônio cultural da região. Saído de uma ficção de espionagem, se junta a eles um sujeito desconhecido com informações importantíssimas sobre um novo ataque aéreo, no centro urbano. Alarmados tiveram uma idéia. Dirigiram-se ao fotógrafo expositor e pediu a ele que fotografasse toda a região, pagariam pelo trabalho, mas precisavam das fotos impressas. Sebastião concordou era jovem e precisava de um projeto novo para conseguir visto de permanência. Terminado o trabalho encontraram-se no mesmo lugar para receber as fotos. Foi de fato digno de autorização de permanência estrangeira. Passaram-se os dias, meses, Salgado voltou pra o Brasil pais onde deveria nascer por volta do ano1944 no estado de Minas Gerais. O bombardeio se deu por conta da ocupação nazista, 1939. Mais uma atrocidade que abalou Dresden a 100 km ao norte de Praga. A destruição do centro cultural foi plena. Restaurada a paz e os ânimos das pessoas inicia-se um amplo processso de reconstrução. Chamados os restauradores e historiadores da arte e cultura local, sociólogos e engenheiros... estava entre eles o grupo de amigos que se encontravam no café naquela tarde próximo ao teatro... onde expunha suas fotos Sebastião Salgadado que ainda não tinha nascido...O então novo projeto que garantiria seu visto de permanência foi útil como referência na reconstrução da cidade e Sebastião pode nascer tranquilo pois seria um fotógrafo internacional de sensibilidade voltada para as guerras, perseguições e o que restam delas. Abriram-se as portas da enorme sala e o palestrante já estava lá. Nos acomodamos e uma música suave ritmou o apagar das luzes deixando a penumbra em sépia ocupando os espaços. Inicia-se a projeção na tela: as fotos de Sebastião Salgado ilustrando a reconstrução do centro cultural de Dresden...Fiquei pensando...que história maluca! Como foi que isso veio parar aqui... O que uma enfadonha fila de espera pode gerar na mente criativa? Pra que servem afinal as filas de espera? E os fotógrafos...e os bombardeios? Pra que serve um texto sem pé nem cabeça senão para dar uma nova ordem ao percurso de idéias acomodadas ao lugar comum...ao percurso óbvio que se devia do foco da câmera do fotógrafo...

De passagem

Era um pintor, ou uma pintora? Ao leitor, fica a escolha. Viajava pelo mundo com sua mala de tintas, carvão, cavalete e pincéis. Quando chegava a um lugar se punha elemento da paisagem fotografando com o olhar cada detalhe. Visitava pessoas, conhecia o poder local e dele as intenções nas entrelinhas, mergulhava-se nos templos da fé religiosa, política e cultural, desenhava na tela mental: animais, rios, rochas, minas subterrâneas... captava os modos viventes. E então de um ponto do olhar e do sentir privilegiados, iniciava o trabalho que só terminava quando via nas telas toda a sua leitura do lugar. Via e lia para além do visível e lível pelo ser humano. Numa dessas cidades ao norte do mar Báltico, num país do leste europeu, que nesta história não tinham esses nomes... ao chegar, ouviu dos pássaros que sobrevoavam suas idéias, que a gana pelo poder e dominação territorial ameaçavam a cidade e seus arredores com a destruição da guerra da qual se ocupam os gananciosos. De uma briga entre poderosos protegidos em seus palácios, anunciava-se a destruição secando cada orvalho de esperança, cada vaso florido nas janelas, cada riso... Imediatamente como quem socorre uma vítima do risco fatal, iniciou seu trabalho pintando casas, jardins, lagos, igrejas, prédios, escolas, monumentos, em fim toda a cidade. Ficou faltando apenas o sentimento de quem nela vivia, mas sabia que essa informação seria garantida pelo olhar dos que admiram a pintura e a penetram... leitura esmiuçada de cada mensagem contida. Enquanto trabalhava em sua obra conversava, fazia amigos, colhia nuances... significados para a vida da obra. Ocupou duzentos dias na realização. Quando partiu deixou os quadros com um camponês que os guardou num celeiro desocupado da colheita de milho. Não passou nem um ano e num conflito de interesses a cidade foi invadida e destruída em menos de dois dias. Escombros e entulhos, histórias sem desfecho, vidas subtraídas, coisas da guerra que os homens fazem com as mesmas mãos que pintam, acariciam as crianças, assinam a condenação, regem a orquestra, acenam o adeus, enxugam lágrimas...Miséria e sobrevivência passou a ser o cenário do que sobrou...Dez anos de subjugo do novo rei, ferido no combate, que carregou com sua crueldade, o mal que o manteve no leito até a morte. Sua mulher, rainha sábia e apaixonada pela vida, empregou toda a fortuna acumulada, na idéia da reconstrução da cidade que aprendera amar. Por onde começar? Saía todas as manhãs procurando pessoas antigas do lugar...algumas lhes falavam sobre o pintor que passara por ali tempos atrás. Determinada descobriu o camponês que guardara as pinturas da cidade...eram muitas...Em posse delas, ordenou que cada monumento e lugar fossem reconstruídos tal qual registro do pintor. E os sentimentos? Como recuperá-los? Construiu então um lugar para a arte e sua história, colocou nele todos os quadros do pintor viajante, chamou os moradores sobreviventes que se tornaram a memória dos conversadores sobre as coisas do lugar, abriu escolas para os mais jovens... e a cidade ressurgiu fênix. O pintor foi procurado a pedido da rainha, estava chegando no mesmo dia que eu para ser coroado benfeitor... Fiquei para a festa, visitei o museu, conversei com as pessoas, fiz novas anotações, ajustes na bagagem, continuei a viagem...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Artesão

Cheguei a Brne e fui direto para a praça central tinha um compromisso prometido... poucas pistas e referência que um amigo do Brasil me dera. Tratava-se de um tcheco artesão que trabalha com fio de prata... a pista, a descrição de sua cadeira bancada de trabalho onde modela o fio com a ajuda do martelo para finalmente dar forma a peça.Decidi que minha câmera ajudaria a localizá-lo...acionei o zoom percorrendo a praça focando cada canto dela...lembrei-me de outra situação onde utilizei do mesmo recurso para localizar uma colega de trabalho que se colara a parede no final da sala de reuniões...com minha câmera consegui tirá-la de lá...Da mesma forma acabei encontrando o artesão tcheco...estava lá com seu ateliê móvel, ou  cadeira-bancada espremido entre duas outras bancas...fotografei e me aproximei. Ele levantou o olhar do trabalho que realizava...olhar azul esverdeado sorriu apontando as peças com seu esguio indicador que sutentava anel de sua autoria. Admirei sua criação...muito simples na verdade...sem excepcionalidade mas ele estava ali e meu amigo brasileiro esperava sua encomenda. Percorri  os olhos sobre a produção toda...borboletas, pássaros, girafas, coelhos,...já quase ia desistir quando avistei o golfinho suspenso no pano de fundo por um alfinete. Me olhou com seu sorriso maroto...Tirei-o e estendi ao artesão demonstrando meu interesse... how much? Não me entendeu... combien ça coûte?Fui abrindo a carteira... mas vi que estava me cobrando em coroas eu só tinha euro...negociei em euro ele alargou o sorriso...deixei que ele retirasse o valor dentre as moedas que eu espalhei na palma da mão...foi contando com seus dedos longos...sorriu novamente...colocou num saco o golfinho e me entregou.Nenhuma palavra e fizemos um excelente transação ele e eu! Guardei o animalzinho na carteira e o trouxe para o Brasil. na semana que vem entregarei ao meu amigo.

Muro

Muro do que sobrou do muro de Berlim (foto Suê 2011)
Berlim... a nostalgia dos primeiros contatos, e as evidências que assinalaram as razões de um muro entre eles...os habitantes da cidade alemã...Mesmo depois de derrubado ideologicamente, o muro continua presente no local e nas expressões de seus protagonistas algemados a uma história de gerações...o muro que separou hoje une na vergonha dos que partilharam sua razão de ser... meditava nostálgica sobre esses tantos muros e trouxe um que marcou a vida cultural acadêmica: Pink Floyd The wall, e num contra ponto e história,o centro financeiro de New York Wall Street, lugar de poder...objetos do desejo capitalista.  Neles os muros retratados em tantas linguagens para expressar a separação, segregação, isolamento, prisão...cercas e muros...elementos criados pela civilização para demarcar território de poder...Os muros que são derrubados no questionamento sobre eles, sua função social: os muros do preconceito, muros da escola, muros da igreja, muros que escondem e protegem a crueldade, a corrupção...muros que provocam o desejo de saltar pro outro lado, de correr o risco, de induzir o suicídio e a liberdade. Muros que criam para nós, a civilização que impõe modelos protegidos pelos muros, muros construídos por nós mesmos pela força de um pensamento conduzido, formatado e imposto que nos fazem prisioneiros cercados em nosso próprio muro... edificado por nossas idéias e crenças irredutíveis... medos...covardias...muros semi-demolidos que ainda nos mantém assim prisioneiros de nós mesmos, escombros de nossa vontade, muros daqui mesmo, deste lado e perto de mim...não dependem, nem se explicam...simplesmente pelo de Berlim.

Thermas Budapeste

O calor escaldante de 40º , o desconforto impedindo a concentração e a motivação pra qualquer coisa nessa Budapeste que só se mostrará amarela quando anoitecer...durante o sol fica assim precisando de muitas mãos de tinta! O desânimo se acerca lembrando a melancolia que assolou a população no século passado levando aos altos índices de suicídio. Pelo que conheço desta que estou, procuro imediatamente algo pra fazer num outro lado desse pensamento. Fui visitar as famosas águas termais, especialmente a que aparece num dos filmes da trilogia encenada por Julliette Binoche mergulhando numa das piscinas. Sem intenção de nadar ou usufruir dos banhos, atravessei a pé a ponte, mais alguns quilômetros e cheguei no suntuoso edifício imperial que se desmancha do passado para acolher o mundo globalizado...arquitetura exuberante... colunas em mármore e granito. Devidamente identificada fui direto aos aposentos reservados ao público feminino. Uma névoa de vapor pairava por todo ambiente...as piscinas de vários formatos e tamanhos com diferentes temperaturas e muita mulher de toda parte do mundo: indianas, tchecas, americanas, alemãs, orientais, polacas, ...vestidas apenas a parte inferior outras, parte nenhuma, e também as que vestiam muitos panos, outras cobriam enrolando a cabeça deixando o corpo nu,...entrei devagar para conhecer e não pude deixar de tentar um mergulho mas a água embaçava tudo...me contentei em banhar-me, imaginei Binoche, vi o lugar, senti alegria e gratidão pela oportunidade de estar ali. Passei então a deleitar o olhar pelo ambiente, as pessoas seus motivos e sentimentos ali mergulhados com seus corpos...olhei pra elas, olhei pra mim...como é bom sentirmos quantas somos e como somos...mulher é a coisa mais linda que existe além dos homens igualmente lindos!Somos um bicho tão delicado e frágil...vendo assim despidos mergulhados indefesos os corpos...Mas preciso focar o pensamento desviado para todos os lados...Num movimento pra me acomodar meu olhar se detém ancorando nela recostada em uma das bordas da piscina mais quente...olhar perdido...sorriso ausente...corpo flutuando desprendido da mente...Não pude deixar de inventar sua história, precisava conhecê-la. Estava ali para um tratamento de saúde sofrera de um mal neurológico. Era escritora e seu talento a arrastara para uma obsessão pela escrita e busca de inspiração criadora desenfreada, caracterizando o que beirava a esquizofrenia... De um caráter fadado às paixões avassaladoras, tinha o hábito de inventar desejos e sonhos e criar para eles personagens que habitavam seu imaginário e completavam o perfil do ente por quem se apaixonara. E assim, esse ser, nem sempre preenchia todos os desejos sonhados para ele, que passava a ser composto por outro e outro... assim ela ia se perdendo no universo de personagens, cada qual com sua identidade, até enlouquecer-se neles e com eles...Esse mal lhe consumia até que um dia encontrou no ser por quem se apaixonara, sua igual personalidade...esta qual musa inspiradora, deu vazão e margem a inspiração que alimentava tresloucadamente a escritora, em sua paixão pela escrita... abrindo assim uma fina fresta de luz em sua passagem para o precipício...soltou-se qual musas de Matisse voando deitadas sem asas...envoltas em véus e plumagens...agora ela estava ali diante de mim, flutuando nas águas quentes...sonhando com você...comigo...com tantas musas outras inspiradoras...que nos habitam escritoras... enlouquecem deixando marcas das poesias...impressas, encadernadas com laços de fita... feito de pedaços e uns cem mil personagens cantando aos nossos ouvidos a canção da liberdade. Fiquei mais um tempo mergulhada no calor dos pensamentos quando me pego quase plena taquicardia a sorrir em direção daquela mulher que serena a flutuar se aproxima e me pergunta quase cantando na sua linguagem...como vai Benjamin? Só então percebi que estava com saudade e que ela era eu longe de casa...perto de mim...