Follow by Email

Total de visualizações de página

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Subterrânea

Era uma galeria ateliê, quase não se notava sua existência, ao passar pela rua, seu acesso ou seu buraco de entrada. Estava passando e fiquei curiosa com as peças penduradas num fio feito varal cruzando de um lado ao outro do vão...o material, sua textura e cores chamaram-me a atenção... me aproximei e vi então uma escada infinita que descia curva, impedindo-me de ver até onde ia, pra se chegar ao chão...olhei mais uma vez pra rua como se me despedindo caso não voltasse mais daquela aventura...e passei a descer os degraus de pedra, da escada ladeada por parede como num tunel sem corrimão...desnecessário pelo espaço...impossivel cair para os lados...só para a frente se fosse o caso...fui descendo e vendo as mesmas peças de fora que me atraíram se multiplicando presas nas paredes que contornavam o caminho que não parava nunca de fazer surgir degraus diante de meus pés...não sei quanto tempo desci...criei a possibilidade de estar sonhando...faltava música pra que  fosse uma boa invenção...mas tinha algo que a substituia era a iluminação...meio que escura...cavernosa, colorida, difusa...finalmente aterrizei... deslumbrada com o que vi...um ateliê galeria oficina laboratório escritório poderia ser também loja pois havia preço nas peças e objetos de arte...O que me encantava dando perspectivas de um pesadelo bom...(sonho era leve demais pra aquela ideia subterrânea), luz furtacor e fraca, piso de pedra teto baixo, paredes rústicas e as obras espalhadas pelo chão pelas mesas de madeira, cadeiras antigas, como se tudo tivesse sido jogado sobre os lugares...mas não...era só olhar um pouco mais e se via o esmero em cada posicionamento de uma escultura,  tecelagem,  jóia-arte, encarte, madeira, papel, tecidos, flores de fibras de  lã, tingidas, tecidas, tramadas...belas cores misturadas, criadas...não vi o tempo passar...fiquei perambulando por aquele espaço. Nele haviam duas mulheres falando húngaro ou tcheco não consegui decifrar mas falavam de arte isso eu entendi perfeitamente...era só observar os gestos das mãos o olhar e a expressão corporal a sorrir...falar de arte faz isso...não importa a língua...eu totalmente estrangeira tentei me comunicar...francês, inglês, espanhol, nada...impossível. Não desisti, percorri novamente e novamente cada canto e me aproximei com as peças que mais gostei, a sofrer pela dúvida cruel sobre o que não gostei... Fui levando uma a uma até elas  colocando-lhe nas mãos,  apontando para o meu coração numa mímica gestual pra dizer esses me encantaram, quero levar, fui abrindo a carteira, mostrando meus ultimos euros pra saber se aceitava aquela moeda...Comprei as flores de fibras uma delas num anel com o qual sai vestida, outras de lapela que não demorei desfilar...Fiz as contas e negociei em euros... de novo eu consumindo arte, penso que tenho que voltar pro meu pais, povo tão privado dessa essência que alimenta a alma...paralizei aquele momento, a mulher me olhava tentando ainda se comunicar com um sorriso consolador...nos entendemos...Retomei a escada pra voltar a rua...luz da tarde despedindo...Trouxe comigo aquele lugar, as pessoas e pra delas me lembrar uso um anel de flor de tecido no dedo mindinho e na lapela um adorno exótico tão exótico quanto ela...esta eu naquele lugar. Volto lá todas as vezes que leio este criarte e nem preciso me ausentar por fusos horários que me tiram daqui onde quero por enquanto ficar meio que subterrãnea... flutuar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário