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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Izabel, Borges e Couto

 
 Encontrei-me com a inspiração na porta de entrada, primeira linha do texto a me esperar pra ser escrito...uma ficção que buscava há anos...queria que tivesse um pouco de Izabel Allende, no seu estilo miscigenado de história real e fantasia associados... traços do Mia Couto no seu brincar com palavras e verbos sem precisar significados convencionais e, ainda que ousadamente, pretensiosa, um quê de Jorge Luis Borges em sua ficção, e, por fim, tivesse muito de mim mesma, sentimentos e invenções que movem minha escrita despreocupada com o leitor ou critica literária.Estava delineado os condimentos de minha omelete de amora:um texto novo, no contexto em curso nas águas correntes do meu rio...Chegara no lugar para a reunião de intelectuais planejada para dois dias de elucubrações sobre comunicação, linguagem, o caráter bilíngüe da nova questão social. Entre os presentes, um dos autores do pensamento original, um idealista romântico que movera meu interesse.Nos víramos uma única vez com toda a formalidade que a ocasião exigia, agora estava entre os presentes, encantador e misterioso. Nos olhávamos de longe, não havia a menor possibilidade de uma aproximação, mesmo assim eu a inventei. Era o começo da tarde quando ele bateu em meu quarto, sem as chaves, pois a portaria o avisara que havia alguém a sua espera... achou estranho, mas dirigiu-se ate lá. Eu chegara mais cedo, acomodara minha bagagem nos armários... Estava a conferir os e-mails quando ele chegou... abri a porta e perguntei...procurando alguém? Ele responde... Sim e não, deve haver erro, pois fiz reserva semana passada, mas parece que você também fez... Respondi sim e vim sozinha. E ele pergunta, está no tal evento? Respondi, não, vim por minha conta, acabo de chegar de Lyon pra trabalhar num livro de ficção... Ficarei dois anos e volto pra França, e você? Achei louca a resposta dele, mas foi exatamente isso: Vim pra uma reunião comigo mesmo... Preciso de descanso... Acabo de perder um cargo que significava muito pois encontrei nele, a mim mesmo, como se não bastasse terminei uma relação recentemente e estou a sofrer...Respondi a ele...hummm...sim....então deve mesmo ir a portaria corrigir essa falha na reserva, e ele responde...esse é o problema...está tudo lotado...há um evento internacional com 800 pessoas começando hoje. Trata-se do lançamento do filme baseado no livro, os autores estarão presentes, está o maior movimento... não há quarto livre...Olho pra ele com a mala a tira colo, uma câmera fotográfica suspensa escorregando do ombro, jaqueta pendurada, confere o ambiente agradável e espaçoso do quarto que, além da cama de casal, um sofá grande e uma cama de solteiro compunha um segundo ambiente com tevê e Internet.... Nenhuma intenção de dividir o quarto me rondava naqueles dias...por fim ele arriscou...Muito ruim partilharmos esse espaço? E então perguntei: Você fala muito? Gosta de conversar? E ele responde, não, prefiro ficar em silêncio lendo, pensando... E então, reuni todo o despojamento que nunca tive e o convidei: se quiser, pode ficar... creio que não incomodaremos um ao outro... Ele abriu um sorriso de agradecimento e entrou... Acomodou a bagagem, e comunicou a recepção sobre nosso arranjo..... Ficamos os dois anos que planejei no Brasil, dividindo aquele quarto. Acabamos escrevendo juntos minha ficção. Ele fez contatos com editores brasileiros e conseguiu contrato pro seu projeto sobre o caráter bilíngüe da nova questão social em, Moçambique. Resolveu seu problema financeiro. Quanto a separação acabou admitindo que era o palhaço da história, preferia ser o malabaris, ou mágico, propus a ele ser o dono do espetáculo e do circo. Dessa dor, ele se curou com minha amizade e nosso show de trabalho e criação. Tínhamos um cão com quem brincávamos todo final de tarde, após a meditação e o yoga. Nadávamos duas vezes por semana e o que sobrava escrevíamos, líamos um pro outro e brincávamos de Izabel e Borges eu Mia Couto ele, o de Moçambique no Brasil. Nosso livro consagrou-se, foi adaptado para o cinema e lançado num evento internacional de cinema e literatura que reuniu 800 representante dos países europeus, americanos e orientais, no lugar de nosso encontro.Compramos a rede de eventos onde um dia, o erro do setor de reservas da rede de hotéis nos colocou no mesmo quarto, onde partilhamos até hoje, nossos inventos.

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