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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Segredo

Depois de tantos convites recusados ele resolveu visitá-la. Os anos passaram e ele continuava com a mesma doce expressão de serenidade e uma sombra incógnita no olhar. Sempre assim enigmático, calado, suas palavras saiam pelo olhar, seu sorriso também...a boca ficava quase sempre apertada segurando não se sabe o que entre os dentes...Veio direto do aeroporto elegante e simples como na juventude guardava a beleza que beirava os sessenta aniversários...Ela como sempre segura da escolha feita o deixava, com sua alegria, ainda mais triste e solitário. Cumprimentam-se formalmente ela o convida pra sentar segurando-lhe as mãos, carinhosamente. Ele então fala:...Não vou me demorar sei que está ocupada vou ser rápido só vim lhe trazer um presente e lhe dizer... Quando nos despedimos naquela tarde decididos cada qual seguir seu caminho... eu não cumpri minha parte...continuei pensando em você durante esses vinte anos...De longe...acompanho seus passos, seus feitos, sua arte, sua vida...mudei de cidade e dei um jeito de ocupar os pensamentos...conheci uma mulher me casei com ela, tive dois filhos mais uma menina que ela trouxe de um primeiro amor...meus amigos dizem que eu me tornei ainda mais melancólico... do que era quando caminhávamos quilômetros declamando nossos poetas favoritos...o tempo não existia para nossas intermináveis conversas...elas ficaram pra sempre como companhia nos meus dias tristes...seus filósofos preferidos...suas brincadeiras literárias...seu riso...seu espírito de liderança arrastando nosso grupo pra aventuras teatrais que inventava e que nos encantava a todos...íamos onde queria sua fantasia...Houve um tempo em que fui colunista do jornal local quando eu sei, você também o era na cidade onde vivia...minha coluna versava sobre nossa história com pitadas de ficção pra proteger meu segredo...mas agora...você já pode saber...não aceitei nenhum de seus convites pois não saberia me portar no meio em que passou a viver...recebi pelo correio o exemplar de seu primeiro livro, não respondi seu pedido de opinião sobre a obra...meu silêncio a fez esquecer ainda mais rápido de mim...os demais livros tive que comprar... não me enviou mais com dedicatória como no primeiro. Não fui a nenhuma de suas noites de autógrafos... me surpreendia você me convidar...ficava ainda mais triste pois percebia que pra você eu era apenas um nome na lista dos convidados. Quero me desfazer desse segredo e pra não deixá-lo jogado em qualquer canto, resolvi dá-lo de presente a você... você que protegi do meu amor a vida inteira não me aproximando, não respondendo, não vivendo...ele agora é seu e não vai te dar trabalho algum, pois é comportado como todo segredo! Sem palavras ela o abraça com ternura, aceita o presente e delicadamente o leva até a porta onde se despede. Os dias pra ela nunca mais foram os mesmos... em posse do segredo que lhe sussurrava poesias e risos guardados nos tempos, passados, presentes!

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