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sábado, 22 de setembro de 2012

Laura








Estive hoje no Museu de Arte de São Paulo. Fui ver a exposição do Caravaggio e encontrei-me com Laura. Não a via desde sua visita ao estudio onde trabalho com  fotojornalismo. Continuava com o mesmo entusiasmo da ocasião que a conheci.

Laura é uma jovem senhora elegante e culta. Gosta de arte e coleciona viagens pelo mundo. A vejo como uma personagem saida das telas de Monet, mas não tem uma sobrinha de renda, ainda. Prometi a ela presenteá-la. Laura usa roupas leves e esvoaçantes. Tem o semblante  curioso, gestos delicados, e postura de quem  está sempre se debruçando sobre si mesma. Laura tem um jeito de olhar por sobre os próprios ombros, descendo pelos braços parando nas mãos. Inclina a cabeça graciosa quase sorridente. Conversa comigo olhando para as mãos, ajeitando o colar de pérolas que desliza sobre o peito farto protegido por um exarpe tímida de seda transparente. Tem os pés nús a fala mansa e pausada, os lábios lentos mas prontos para arremessar as palavras.  Compõe o texto de sua fala ao falar.

A convidei pra voltar ao estúdio. Ficamos de marcar.

Nos despedimos diante da Meduza, obra prima de Caravaggio, a nos olhar assutadora. Laura se despediu estendendo as mãos retirando uma das luvas de cetim, um abraço discreto, um até breve.

Acabo de chegar em casa. Estava pensando em Laura. Há algo nela que me inquieta. Talvez essa aparente solidão, ou sua enigmática figura de dama antiga, modelo das pinturas de Monet.

Era tarde e estava tensa da viagem, transito cansado e lento, lua escondida, vento demorado.

Havia pouco o que fazer, um banho, um chá, uma passeio pelo último texto sobre a pauta, e o dia vivia em mim, seu último   momento. Quanto a Laura, virou refém do pensamento.

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