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domingo, 1 de julho de 2012

Marché aux puces


Era mais um daqueles dias gelados que me tirava do abrigo adptado para morar e trabalhar, aquecido pelas brasas da lareira.
Bem antes do dia clarear, saía com a bagagem de caixas e mochilas de lona onde carregava minha mercadoria para uma dessas feiras com diversos vendedores que se reúnem ao ar livre para comercializar bens antigos, semi-usados e outras quinquilharias, inclusive peças de arte de fabricação artesanal.
Era o conhecido  "Marché aux puces" de Saint-Ouen, nos subúrbios do norte de Paris, um dos quatro mercados ao ar livre, lá existentes.
Antigamente, a venda de peças de roupas, muitas vezes infestadas por pulgas deu o nome a esse brechózão, tão procurado pelos turistas de toda parte do mundo.
Eu montava minha banca entre a de um ourives belga e um escultor em joias de madeira, brasileiro com cidadana europeia-italiana. 
Muitos estrangeiros se valiam daquele comercio para sobreviver, outros para ocupar o tempo aliando a arte do comercio uma de suas riquezas.
Eu vendia palavras e letras.
Meu produto ficava exposto em uma bancada de madeira sobre um cavalete, e coberta com tecido de juta claro. Nela espalhava as letras de um lado e as palavras de outro.
As pessoas se acercavam e eu ia logo mostrando a elas meu tesouro.
No início ficavam estranhadas, pareciam não entender muito bem pra que serviam aquelas letras e palavras, ou melhor por que as comprariam. Era quando eu entrava com meu argumento, construido também de letras e palavras,  arrumadas para construir a frase ideal pra pessoa certa.
Eu olhava pra elas e numa quase brincadeira, jogo ou magia, eu dizia: Suas letras devem combinar com a cor de seus olhos, a tecitura de seus cabelos e o tom de sua voz, portanto, fale algo que traduza o que gostaria de ser e saber sobre si mesma.
E então a pessoa se mostrava enternecida com a experiência proposta e começa a falar timidamente no início, depois mais entusiasmada e por fim quase exclamando dizia: e que palavras acha que cairiam bem em mim?Eu poderia ter uma frase?
Dai pra frente tudo era arquitetado na direção da poesia metafórica. Instalava-se o perfume no ar. Letras, palavras e frases flutuavam sobre a mesa num texto mágico.
A pessoa saia com suas letras num pequeno envelope, como se levasse um tesouro. O meu! O seu!O de quem reconhece nas letras, as palavras que nos levam a lugares, cheios de lugar nenhum... a espera de serem construidos os  que quisermos.

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