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sábado, 7 de janeiro de 2012

Estranho

Era ainda uma menina e gostava de conversar com as pessoas qualquer uma e lugar, assunto que sua curiosidade desencadeava...fosse por uma situação presenciada, ou  objeto interessante. Trabalhava no centro comercial da cidade. Aos sábados o expediente terminava as doze horas mas ninguém conseguia sair antes das duas da tarde, quando ela se dirigia para o ponto do ônibus...Naquele horário, o burburinho da cidade dava início a um outro clima...menos pessoas transitando...lojas fechadas...filas diminuindo, transportes coletivos reduzidos, o que aumentava  a espera de voltar pra casa...

A menina, afeita a redação e leitura, adorava brincar com as palavras, tudo  lhe nutria uma curiosidade regada de entusiasmo, revestido de perguntas. todas elas  quase sem tempo pra esperar as respostas...ia assim  bebendo cada imagem, desenhando significados, criando histórias  pra elas e delas, personagens...

Naquela tarde uma surpresa a esperava...acostumada a encontrar sempre as mesmas pessoas no  ponto de espera,  pelo fato do transporte,seu destino  e local da cidade,  viagem direta mesmos caminhos e paradas....

Ao chegar,  a menina já  procurava com o  olhar as pessoas que costumava ver, havia uma em especial de quem se aproximava sorrindo puxando conversa, notando que havia sempre uma resistência  pra começar...

Era uma mulher por volta de seus quarenta anos ...um lenço enrolado na cabeça como um turbante emoldurando  seu rosto maquiado ...boca contornada de marrom preenchida de um batom vermelho...talvez um desses vermelhos pouco usados naquela hora do dia...sobrancelhas negras delineadas...cílios espessos, engomados de tinta preta...sombra sobre as pálpebras feito arco-íris, cores cintilantes...esmaltadas de um vermelho sangue as unhas compridas e pontiagudas seguravam a bolsa de listras cores vivas, alças curtas ...no pescoço alongado um colar de pérolas imitadas  se debruçavam sobre seu peito exuberante, saltando em par os seios, que empurravam pra cima seu colo. A  saia  justa engessava sua silhueta marcando quadris largos, cintura apertada. Os  sapatos pretos em verniz, saltos finos e altos traziam um laço com strass na altura do peito do pé...nos pulsos pulseiras de arcos coloridos e um anel dourado com pedra vermelho  rubi...era uma diversão para os olhos da menina que em seus 17 anos, não usava nem mesmo batom de cor alguma...os cabelos compridos e claros, pele branca com muitas sardas, olhos verdes meio amarelo, mãos inquietas, fala cantante orquestrada pela curiosidade com perguntas sem fim...De todas elas, eram poucas as que  a mulher respondia. Simplesmente ignorava quando não queria falar sobre o assunto...a menina não se cansava...queria saber seu nome, onde morava , de onde vinha naquele horário, porque não embarcava nos ônibus que paravam, por que ficava tanto tempo naquele lugar, se não ficava cansada de ficar em pé tanto tempo, ou se tinha medo de assalto, onde arrumava aquelas roupas tão alegres,  se alguém a esperava em casa, se tinha uma mãe brava como ela, por que era tão séria, se gostava de crianças, se tinha marido, namorado, coisas assim que desfilavam no seu interminável questionário...até que seu ônibus chegava e ela se despedia as pressas, deixando a mulher no mesmo ponto. Ficava com o olhar pregado no vidro da última janela, vendo aquela figura se distanciando até sumir. Nesse dia, no entanto foi diferente.

Ela estava bem próxima dela conversando com a mulher, quando    diante delas um carro da polícia estaciona, descemdo dele três policiais e um civil que apontava para a mulher dizendo, foi ela, roubou-me antes de prestar o serviço e ainda me espancou na cabeça, mostrava a testa com um raspão na pele meio sangrando... Os policiais se aproximaram da mulher que num gesto de desespero abraçou a menina segurando-a  contra o peito...dizendo ela está comigo...não posso ir com vocês  preciso levá-la pra casa...a mãe me confiou...A menina entontecida com a confusão e mais ainda com o perfume forte e adocicado que invadiu suas narinas apertadas contra o peito da mulher...Não conseguia falar uma única palavra...Os policiais arrancaram-na dos braços da mulher que gritava enquanto era  jogada no camburão...a menina chorava sem parar...um dos policiais a acompanhou até sua casa, num segundo carro chamado por eles...A tragédia não terminou ai...
A família da menina, gente simples e honesta, se vê assombrada com o carro de polícia a sua porta e a filha saindo de dentro, acompanhada pelos policiais...a mãe desmaiou antes de ouvir qualquer coisa...o pai indignado mal conseguia esperar a explicação dos policiais e esta sim foi bombástica: Sua filha estava em companhia de uma prostituta é bom o senhor conversar com ela...A menina ouvia pela primeira vez aquela palavra com quatro belas vogais, falada por alguém...já a conhecia do dicionário...adorava procurar palavras obscenas e outras curiosidades...mas assim proferida, quase cantada na voz alta e tudo...era a primeira vez...olhou pro pai que a puxou pelo braço despedindo e agradecendo aos policiais. Em seguida socorreram a mãe e então era hora de conversar... Conte-me tudo menina... Conte-me tudo... E então ela contou exatamente como era de se esperar que contasse...

A partir daquele dia estava proibida de falar com estranhos na rua ou em qualquer lugar...estranhos, não podia nunca mais! E então ela se inquieta pensando num murmúrio: hummm... Então é isso... Era preciso processar pra  entender por meio daquela experiência, o que era: falar com estranhos e o que era uma prostituta estranha,  o assalto com escoriações na vítima, o trabalho do policial, voltar pra casa no carro da policia, a mãe desmaiar, o pai conversar com os policiais e agradecer o favor, a proibição de flar com estranhos, e agora o enígma para ela...o estranho.
Além é claro de deduzir ainda algumas coisas sobre aquela mulher interessante que lhe causava tanta curiosidade, por que ficava sempre naquele lugar e se vestia daquele jeito? Que motivos teria ela pra falar tão pouco? O que escondia afinal? Ser Prostituta é perigoso? Como era o trabalho dela?Será que a veria de novo? O que fizeram com ela? Será que ela estava triste? Como vivia quando não estava naquele ponto? Seria uma artista? Uma freira disfarçada? Seria uma mulher como qualquer outra?Por que era considerada uma estranha? Por que se tornara estranha? Eram infinitas perguntas a ocupar a mente da menina. Passou a esperar, todo sábado, que ela viesse para o ponto, queria poder abraçá-la e dizer o quanto fizera falta sua presença nos dias todos que se seguiram daquele dia. Como esperar o ônibus  ficara sem graça sem ela  com sua  enigmática figura.Queria dizer como achava lindo seu jeito de pintar os olhos,  amarrar o turbante na cabeça, dizer-lhe  que seu perfume nunca mais saira de seu vestido, que agora não podia mais falar com estranhos e que contava com ela  pra ajudá-la a saber mais sobre estranhos...coisas assim e outras tantas mais...
O tempo passou nunca  mais a viu. A menina se tornou mulher e contava essa história quando queria dizer aos filhos pequenos sobre os perigos  de se falar com estranhos, o que eram os estranhos,  como as pessoas se tornam estranhas, onde os estranhos moram, como identificar um estranho, as histórias escondidas no estranho, como o estranho pode ser interessante e belo, por fim ela mais confundia do explicava pois, os pequenos, nunca tiveram a certeza sobre o perigo de se falar com estranhos. Ficava-lhes  a grande dúvida sobre  o que de fato era um estranho...suspeitavam de que a mãe fosse uma...falar com ela poderia ser perigoso?Ouvi-la todos os dias então seria fatal? Concluiam por fim o quão estranho era o ensinamento sobre o perigo de se falar com estranhos...uma vez que não se sabe ao certo o que é uma pessoa estranha...entranho fato.

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