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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Ele e Eu

Ele e eu
Ele é toda razão,
Ela é pura emoção
Ele calcula o tempo de amar
Ela se esquece da hora e perde o lugar
Ele Planeja cada centavo a economizar
Ela não sabe o preço, mas sabe da cor que vai combinar.
Ele prefere avião pra mais rápido chegar e aproveitar
Ela quer ir de carona sem pressa e hora pra chegar
Ele relaciona custo e benefício
Ela faz rima sem nenhum artifício
Ele faz amor e se vira pra descansar
Ela continua suspirando até o dia raiar
Ele tem planos estratégicos
Ela tem sonhos imagéticos
Ele usa terno e gravata
Ela saia de pano e bata
Ele faz planilhas e registra projetos
Ela desenha na areia e coleciona afetos
Ele acredita em vacina
Ela quer morrer de tétano
Ele tem dinheiros aplicados
Ela tem tintas, pinceis e bordados
Ele gosta de New York
Ela de Havana velha
Ele sofre do coração
Ela é alérgica...  a razão
Ele
Ela

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Os dados estão lançados!


Os dados estão lançados! Ouvi a voz estridente dizer olhando em minha direção... Sim o jogo havia começado e eu não tinha nenhuma estratégia em mente, ou aposta a fazer... Estava estagnada olhando tudo em volta, acima, abaixo dos pés das pessoas... atrás das cortinas do tempo...passado, presente, futuro incerto...tudo se confundindo em mim...Os dados estão lançados! Não tem volta e a ida, não me foi dado compreender. Todos me olham esperando que eu me mova... Ou me faça ouvir, uma palavra ao menos que confirmasse que eu estava ali... que dentro de minha casca havia alguma coisa, alguém habitando.  Olhava para os dados lançados sobre a mesa, pilhas de apostas amontoadas, o jogo interrompido por  minha causa, as pessoas enfurecidas com a apatia demonstrada por mim diante da sorte que cada um esperava ter para si... Olho para o alto e vejo a lâmina reluzente da guilhotina mirando minha cabeça... Os dados estão lançados! Uma ultima chamada e então tenho que fazer algo... Não posso fugir e nem ficar... não tenho apostas a sugerir, nem estratégias a desenvolver, nada a fazer...Me levanto, afastando-me lenta e decidida dirijo-me ao meio da sala, me volto o olhar para onde eu estava, de onde eu vinha,  pra me ver de longe...e então,  me compadeço de mim.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A brasileira nascida na Ucrânia: Clarice Lispector


Clarice Lispector, uma escritora disposta a desvendar as profundezas da alma, escolheu a literatura como rota de busca de si mesma em sua essência humana. Clarice nasceu no ano de 1920 na pequena cidade de Tchetchelnik na Ucrânia. Chegou ao Brasil com dois meses de idade e naturalizou-se brasileira posteriormente. Clarice teve sua infância em Maceio e Recife. Aos doze anos veio para o Rio de Janeiro onde  realizou sua formação em Direito, dedicou-se a carreira de jornalista e iniciou a carreira literária. Foi casada com Maury Gurgel Valente que se tornou diplomata brasileiro o que a fez viver muitos anos no exterior. Clarice teve dois filhos. Pouco antes de morrer, em 1977, ela decide se afastar da inflexão intimista que caracteriza sua escrita para desafiar a realidade com o seu dia a dia, trazendo personagens que em nada se parecem com ela. Essa extroversão de Clarice se manifesta na surpreendente obra ‘A hora da estrela’,  que trás a nordestina Macabéa, mulher miserável que mal possui a consciência de existir. Nesta obra Clarice trata do desamparo a que estamos todos entregues. Durante sua vida de escritora escreveu os romances: Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Maçã no Escuro (1961); A Paixão segundo G.H. (1964); Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973) e Um Sopro de Vida - Pulsações (1978). Escreveu a novela A hora da estrela (1977) e os Contos: Alguns contos (1952); Laços de família (1960); A legião estrangeira (1964); Felicidade clandestina (1971); A imitação da rosa (1973); A via crucis do corpo (1974); Onde estivestes de noite? (1974); A bela e a fera (1979). No gênero correspondência escreveu:  Cartas perto do coração (2001) - Organização de Fernando Sabino;
Correspondência - Clarice Lispector (2002) - Organização de Teresa Cristina M. Ferreira. Clarice escreveu também as crônicas: Visão do esplendor - Impressões leves (1975); Para não esquecer (1978) - contos inicialmente publicados em Laços de família; A descoberta do mundo (1984). Entrevistas: De corpo inteiro (1975). Na literatura infantil escreveu: O mistério do coelho pensante (1967) - Escrito em inglês e traduzido por Clarice; A mulher que matou os peixes (1968); A vida íntima de Laura (1974); Quase de verdade (1978); Como nasceram as estrelas (1987). Por fim as antologias: Seleta de Clarice Lispector (1975); Clarice Lispector (1981); O primeiro beijo & outros contos, de Clarice Lispector (1991); Os melhores contos de Clarice Lispector (2001) - Organização de Walnice N. Galvão e Aprendendo a viver (2004).
Clarice Lispector morre de câncer, no Rio de Janeiro no ano de1978 quando aparecem  três livros póstumos: Um Sopro de Vida com o subtítulo Pulsações, Para não Esquecer, uma coletânea de crônicas, e Quase de Verdade, entrevistas. - 1979: A Bela e a Fera, que reúne contos da juventude com os de pouco antes da morte da escritora. - 1984 : A Descoberta do Mundo, reunião das crônicas publicadas no Jornal do Brasil, de 1967 a 1973.
Clarice marcou presença na literatura brasileira com estilo e determinação.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

"entre parênteses"


Me vi assim, diante do "entre parênteses" no tempo, a espera do momento de tomar as rédeas da vida em minhas próprias mãos.
Abri  parênteses e inciei um novo percurso, sem delimitar a priori, o caminho e  nem o tempo que levaria pra fazê-lo sob os pés.
Desmontei montanhas de pensamentos, esvaziei centenas de gavetas, entulhos do tempo, fuligem do coração...chaminé dos sentimentos  esfumaçados, contidos guardados...sótão vazio, terraço suspenso, braços estendidos, mãos a espera da outra a entrelaçar os dedos num laço e então... passo ante passo, pé ante pé, sonho ante sonho.
Vou assim me levando em  aberto meu tempo, musica doce  na flauta, perspectiva indefinida, ainda, de fechar parênteses e voar livremente na pauta. Sem linha a me amarrar as pontas acelerando meus passos rumo ao ponto final.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Um dia de cada vez


Foi então que ela resolveu:
Viver um dia de cada vez até chegar a vez do dia que ia ser
Entregou-se aos sonhos todos que guardou a espera de ter com quem sonhar.
Amanheceu cada manhã como quem reconhecia que a vida lhe presenteara com mais um dia.
Entardeceu com alegria de saber que as estrelas viriam com certeza salpicando a noite no céu enquanto ela dormia.
E manteve-se assim a viver um dia de cada vez até chegar a vez do dia que ia ser. E quem sabe com alguma sorte esse dia jamais viesse acontecer.
 

sábado, 27 de abril de 2013

30 minutos


Clarice acabara de chegar dos engarrafamentos rodoviários comuns na capital. Exausta, por duas horas dirigindo, apenas uma compensação: a segurança de ter o hotel reservado antecipadamente.
Ao chegar não estranhou a entrada simples com interfone externo e a  senhora que veio atender como se fosse a casa de uma tia sua ou algo parecido.
Deixou o carro à espera do manobrista e entrou.
A recepção era simples. Não se podia imaginar o que havia por traz daquelas cortinas camuflando paredes encardidas.
Fez o pagamento e seguiu o guia afeminado e falante, homem de estatura baixa, bermudas e chinelos que a ajudou com a bagagem.
Desceram varias escadas sem proteção alguma, desviaram de betoneiras, pás sujas de reboco e restos de obra, caixas de material de construção, homens trabalhando. Corredores sem iluminação, portas lacradas por fora. Clarice estava tomada de um suspense que ia aos poucos conduzindo-a naquele fundo de corredor sem iluminação elétrica, apenas a luz que vinha de algumas aberturas na parede, cercada de entulhos . Sua mochila pesava escorregando pelo ombro. A câmera pendurada não acreditava as cenas que perdiam sua objetiva. Espanto e indignação impediam-na de qualquer reação. Vez por outra o homenzinho  fazia uma piada sem graça. Clarice o achara meio sádico, mas não levou a sério sua percepção. Por fim ele parou diante de uma porta girou a maçaneta indicando:
_ É aqui, sem beliches, tem tevê e ventilador.
Num pedaço de papel que jogou sobre a cama estreita, falou:
_ A senha da Internet.
Tudo aquilo era para Clarice, no mínimo emudecedor. Quando ele se retirou ela pode olhar com mais calma a sua volta. Abriu a porta do banheiro buscando um espelho, queria se ver, sabia que estava sem cor e com olhos arregalados, mas não havia espelho. No banheiro nenhuma ventilação. A porta se abria quase tocando na cama para dentro do quarto que não possuía nenhuma janela. Nem mesmo com uma cela ou um cativeiro aquilo parecia. Na parede o fio de instalação corria suspenso pronto para um curto circuito incendiário a qualquer momento. Um pequeno armário de aço branco, parecido com esses de postos de saúde da periferia das cidades grandes, se apertava entre a porta do banheiro e o que sobrava da parede. Sobre a cama duas prateleiras ameaçavam, pela pouca altura, quem se deitasse ou levantasse dela. Era difícil imaginar alguém ficar ali sem ferir-se. Num turbilhão Clarice viu passar na velocidade da luz os últimos acontecimentos de sua vida e neles a consulta ao site de hotéis baratos próximos do local onde teria seu encontro de trabalho. Lembrou-se das fotos dos quartos e constatava agora a farsa que escondiam. Aquele lugar cheirava cena de crime. Pensou na viagem agendada para aquela reunião de trabalho ocasião em que nenhum hotel dos que ela conhecia, havia vaga, só aquele saltava na tela com apenas um quarto disponível, num impulso fez a reserva. Agora estava ali com uma única certeza: não podia ficar. Lembrou-se de Laura com quem cursara direito, agora  policial de elite morava na Capital. Ligou para a amiga numa tentativa de se  comunicar com alguém fora daquele contexto em busca de uma reação qualquer. Contou o que acontecia e Laura a aconselhou sair dali, prometendo vir ao seu encontro e ajudá-la a encontrar um lugar seguro para passar a noite. Clarice pegou todas as suas coisas, fechou a porta e se retirou. Alguns homens que pareciam trabalhar na obra a olhavam. Um deles falava ao celular. Clarice ficou pensando no que falaria na portaria para justificar-se tão apressada. Formulou uma desculpa sobre a antecipação da saída, torcendo pra não ter que explicar muito e nem deixar transparecer que não voltaria mais. Na portaria, tudo abandonado. Clarice deixou sobre a mesa as chaves do quarto, aliviada  por ninguém a ver sair. Nem trinta minutos transcorrera da sua entrada e saída daquele lugar. Seu carro ainda na rua esperava o manobrista para guardá-lo. Sentiu-se em fuga e perseguição. Olhou em volta pra ver se Laura se aproximava, constatou que não houvera tempo. Jogou suas coisas no banco do passageiro e deu partida. Mal podia acreditar naquilo tudo. Quando achava que estava livre, do banco de traz, o tal guia do pseudo-hotel, num gesto veloz laçou-lhe o pescoço, apertando até tirar todo seu ar. Desfaleceu. Ao tentar passar para o banco da frente, ele acionou o alarme do carro, Laura estava chegando, correu até a janela e viu Clarice desfalecida. Imediatamente imobilizou o homem algemando-o. Uma viatura chegava ao local. Entraram para vistoriar o lugar onde encontraram além de inúmeras irregularidades e muambas, bagagens de hospedes possivelmente desaparecidos... Clarice foi escoltada de volta até sua casa. Um banho, uma ligação para os compromissos de trabalho e por fim, o descanso para rever distanciada da cena, aqueles trinta minutos resultados da confiança que atribuiu as informações sobre a hospedagem num site da Internet.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Lugar


Lugar de ser outra e abrir janelas que  não estavam lá.
Lugar de  ver o céu arrebentando em luz de estrelas sob o luar...
Lugar de perguntar todos os dias, a direção da bússola do coração.
De saborear  um gosto novo a derretar a manteiga no mesmo pão
De debruçar sobre a tela, a página, a aquarela e ouvir uma canção.
Lugar de ser outra na mesma que sempre fui
Lugar de deixar o riso perder o ar e achar o caminho de se alegrar
Lugar de esquecer o tempo e então...pra sempre  ficar
Lugar de navegar no pensamento sem pressa de acordar
Lugar do sonho acalentado e resgatado pra realizar.
Lugar de ser outra, pra ser a mesma e perguntar:
Como partir desse lugar?
Como voltar e ver se ainda há outra a me esperar?
Como saber se ela é a mesma ou se essa outra é o seu lugar?