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domingo, 21 de julho de 2013

Voltar


Precisava voltar pra casa, mas não queria. Preferia ficar onde estava. Aproveitar o clima de verão estendido, sol interminável refletido nas ruas quentes e movimentadas de pedestres do mundo.
O céu não escurecia antes das vinte e duas horas, exagero de luz!
Sons multilíngues, cores multissons, costumes multiformas, gostos multidões!
Ruas de pedras, paredes de história, janelas abertas, memórias!
Precisava voltar, mas preferia sentir um pouco mais aquele cheiro de lugar distante de casa, de gente com pressa de fazer nada, de pessoas munidas de mapas e bussolas, mas, perdidas!
Ponto de chegada e partida, um presente, uma lembrança  pra levar pra quem não veio e não viu, não sentiu, não cheirou, não ganhou, só perdeu. Ficou! Me espera, me analisa, me confere a lista, me cobra o tempo, me exige chegar voltada pra casa. Eu mesma!
Precisa mudar de roupa, de clima, de meio de transporte, de tema literário, de companhia de  viagem, de cara pra foto, de creme e filtro solar, de cara de boba e feliz, de interesse, de desejo...precisava voltar.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

De Passagem

Era a pequena e antiga estação férrea de Vernon na França. Embora estivesse em grupo de turistas, ficava sempre isolada. Ela e sua câmera fotográfica em busca de uma janela ou o reflexo nela.  O trem chegava e todos embarcavam rapidamente. Em menos de uma hora estaria de volta a Paris. Era tarde da noite e estava frio. Na fila de taxis ela procurava aquecer-se desviando das correntes frias. No quarto, o aconchego e as lembranças do dia. Na madrugada, acordada calculava a hora em seu país. Achava engraçado os efeitos da  mudança de fusos horários , o tempo marcando os acontecimentos dos lugares e suas rotinas...três da madrugada, em seu pais, meia noite...talvez por isso ainda estava acordada, ou não. As flores dos jardins de Monet estavam ainda dentro de seus olhos com todas as cores, formas, perfumes, exuberância. Na boca o gosto da tarde fria e florida, do crema brulê, do anel  de botão, do adeus a Monet.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Pronta?


Estava pronta!
Decorara o roteiro por dias, meses, anos a fio.
Sabia cada vírgula da frase, cada ponto do parágrafo, cada ação do personagem.
Sabia tudo: o que estava por vir e o que já viera. Seus efeitos, desdobramentos, retrocessos.
Nada mais me era imprevisível!

Estava pronta!
Sonhava agora com o inusitado
Desenhava ideias sobre o inesperado, a indignação, o espanto, a surpresa! O desconhecido.
Queria agora um encontro às escondidas do pensamento prévio, do planejamento metódico.

Um lugar novo, uma parada no ponto de taxi, do metrô, do café, da avenida... Ao lado do monumento dos incrédulos, abaixo das escadarias da fama, sobre os viadutos e elevados da noite escura, suspeita, ameaçadora.
Um encontro de suspense, quase doloroso, sinistro, sensual, enigmático.

Estava pronta!
Os últimos retoques no texto, na maquiagem, na bagagem de mão.
Em posse do mapa e linhas a percorrer demarcadas na parede, no peito, no coração.
Um endereço incompleto, um vazio inexplicável, uma torre a espreitar minha decisão.

Estava pronta!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Ele e Eu

Ele e eu
Ele é toda razão,
Ela é pura emoção
Ele calcula o tempo de amar
Ela se esquece da hora e perde o lugar
Ele Planeja cada centavo a economizar
Ela não sabe o preço, mas sabe da cor que vai combinar.
Ele prefere avião pra mais rápido chegar e aproveitar
Ela quer ir de carona sem pressa e hora pra chegar
Ele relaciona custo e benefício
Ela faz rima sem nenhum artifício
Ele faz amor e se vira pra descansar
Ela continua suspirando até o dia raiar
Ele tem planos estratégicos
Ela tem sonhos imagéticos
Ele usa terno e gravata
Ela saia de pano e bata
Ele faz planilhas e registra projetos
Ela desenha na areia e coleciona afetos
Ele acredita em vacina
Ela quer morrer de tétano
Ele tem dinheiros aplicados
Ela tem tintas, pinceis e bordados
Ele gosta de New York
Ela de Havana velha
Ele sofre do coração
Ela é alérgica...  a razão
Ele
Ela

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Os dados estão lançados!


Os dados estão lançados! Ouvi a voz estridente dizer olhando em minha direção... Sim o jogo havia começado e eu não tinha nenhuma estratégia em mente, ou aposta a fazer... Estava estagnada olhando tudo em volta, acima, abaixo dos pés das pessoas... atrás das cortinas do tempo...passado, presente, futuro incerto...tudo se confundindo em mim...Os dados estão lançados! Não tem volta e a ida, não me foi dado compreender. Todos me olham esperando que eu me mova... Ou me faça ouvir, uma palavra ao menos que confirmasse que eu estava ali... que dentro de minha casca havia alguma coisa, alguém habitando.  Olhava para os dados lançados sobre a mesa, pilhas de apostas amontoadas, o jogo interrompido por  minha causa, as pessoas enfurecidas com a apatia demonstrada por mim diante da sorte que cada um esperava ter para si... Olho para o alto e vejo a lâmina reluzente da guilhotina mirando minha cabeça... Os dados estão lançados! Uma ultima chamada e então tenho que fazer algo... Não posso fugir e nem ficar... não tenho apostas a sugerir, nem estratégias a desenvolver, nada a fazer...Me levanto, afastando-me lenta e decidida dirijo-me ao meio da sala, me volto o olhar para onde eu estava, de onde eu vinha,  pra me ver de longe...e então,  me compadeço de mim.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A brasileira nascida na Ucrânia: Clarice Lispector


Clarice Lispector, uma escritora disposta a desvendar as profundezas da alma, escolheu a literatura como rota de busca de si mesma em sua essência humana. Clarice nasceu no ano de 1920 na pequena cidade de Tchetchelnik na Ucrânia. Chegou ao Brasil com dois meses de idade e naturalizou-se brasileira posteriormente. Clarice teve sua infância em Maceio e Recife. Aos doze anos veio para o Rio de Janeiro onde  realizou sua formação em Direito, dedicou-se a carreira de jornalista e iniciou a carreira literária. Foi casada com Maury Gurgel Valente que se tornou diplomata brasileiro o que a fez viver muitos anos no exterior. Clarice teve dois filhos. Pouco antes de morrer, em 1977, ela decide se afastar da inflexão intimista que caracteriza sua escrita para desafiar a realidade com o seu dia a dia, trazendo personagens que em nada se parecem com ela. Essa extroversão de Clarice se manifesta na surpreendente obra ‘A hora da estrela’,  que trás a nordestina Macabéa, mulher miserável que mal possui a consciência de existir. Nesta obra Clarice trata do desamparo a que estamos todos entregues. Durante sua vida de escritora escreveu os romances: Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Maçã no Escuro (1961); A Paixão segundo G.H. (1964); Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973) e Um Sopro de Vida - Pulsações (1978). Escreveu a novela A hora da estrela (1977) e os Contos: Alguns contos (1952); Laços de família (1960); A legião estrangeira (1964); Felicidade clandestina (1971); A imitação da rosa (1973); A via crucis do corpo (1974); Onde estivestes de noite? (1974); A bela e a fera (1979). No gênero correspondência escreveu:  Cartas perto do coração (2001) - Organização de Fernando Sabino;
Correspondência - Clarice Lispector (2002) - Organização de Teresa Cristina M. Ferreira. Clarice escreveu também as crônicas: Visão do esplendor - Impressões leves (1975); Para não esquecer (1978) - contos inicialmente publicados em Laços de família; A descoberta do mundo (1984). Entrevistas: De corpo inteiro (1975). Na literatura infantil escreveu: O mistério do coelho pensante (1967) - Escrito em inglês e traduzido por Clarice; A mulher que matou os peixes (1968); A vida íntima de Laura (1974); Quase de verdade (1978); Como nasceram as estrelas (1987). Por fim as antologias: Seleta de Clarice Lispector (1975); Clarice Lispector (1981); O primeiro beijo & outros contos, de Clarice Lispector (1991); Os melhores contos de Clarice Lispector (2001) - Organização de Walnice N. Galvão e Aprendendo a viver (2004).
Clarice Lispector morre de câncer, no Rio de Janeiro no ano de1978 quando aparecem  três livros póstumos: Um Sopro de Vida com o subtítulo Pulsações, Para não Esquecer, uma coletânea de crônicas, e Quase de Verdade, entrevistas. - 1979: A Bela e a Fera, que reúne contos da juventude com os de pouco antes da morte da escritora. - 1984 : A Descoberta do Mundo, reunião das crônicas publicadas no Jornal do Brasil, de 1967 a 1973.
Clarice marcou presença na literatura brasileira com estilo e determinação.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

"entre parênteses"


Me vi assim, diante do "entre parênteses" no tempo, a espera do momento de tomar as rédeas da vida em minhas próprias mãos.
Abri  parênteses e inciei um novo percurso, sem delimitar a priori, o caminho e  nem o tempo que levaria pra fazê-lo sob os pés.
Desmontei montanhas de pensamentos, esvaziei centenas de gavetas, entulhos do tempo, fuligem do coração...chaminé dos sentimentos  esfumaçados, contidos guardados...sótão vazio, terraço suspenso, braços estendidos, mãos a espera da outra a entrelaçar os dedos num laço e então... passo ante passo, pé ante pé, sonho ante sonho.
Vou assim me levando em  aberto meu tempo, musica doce  na flauta, perspectiva indefinida, ainda, de fechar parênteses e voar livremente na pauta. Sem linha a me amarrar as pontas acelerando meus passos rumo ao ponto final.