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quarta-feira, 14 de março de 2012

Como quero ser...

 
É como eu quero ser, pensava ela naquele dia repleto de perturbadoras leituras. Não tinha mais dúvidas sobre sua essência... era mesmo fruto da própria ficção... não cabia portanto em lugares concretos reais...partilhados...horários marcados, explicações dadas, complexos itinerários das relações...Se fazia completar-se em seus vazios, com a inspiração vinda das mais fecundas fontes, todas a preencher seus dias de mundo real e brincantes fantasia...É como eu quero ser, ela insistia. Onda feito véu de espumas a se estender interminável... Lembrou-se de quando tudo começara:

Era um entardecer feito dos silêncios, desses dias, em que as praias estão vazias, o céu nublado e um vento fino começava a gelar a pele, ardida do sol que não veio. Ia mais uma vez postar-se diante da imensidão do mar... para contemplar a teimosia de uma onda que lambia seus pés, derramando suas águas salgadas e fria, para  voltar correndo pra dentro dele, se encher de mais água, e mais forças, e vir novamente galopando  veloz, como a noiva pintada por Chagall cujo véu se estendia ao ritmo e velocidade do cavalo que a levava em fuga. A onda que ela via se espalhando sobre as águas era o véu de Chagall que a seduzia o olhar, e embriagava os sentidos inspirando o desejo insano de codificar aquela sensação... a onda então transbordante em seus véus de espuma branca, se fortalecia a cada metro percorrido  se arremessando contra uma pedra gigante, bem próxima de seu olhar observador, e que não se movia jamais. Pedra resistente aquela! Suportava todas as investidas da teimosa onda, sem se mover do lugar... sem nem mesmo se surpreender com cada partida e igual chegada mais e mais enriquecida de seus véus comandado pelo pincel e tintas de  Chagall.  Pensava ela, a pedra não tem como surpreender-se...vive com a certeza da onda que virá se espatifar derramando-se em lágrimas  fugidias escandalosa e determinada sobre ela...tentando em vão move-la do lugar. Todas as férias voltava ali pra conferir os efeitos da onda sobre a pedra e do mar sobre elas, pra sondar a praia que expectadora permanece sem preocupar-se com o tédio daquele espetáculo de uma único ato...tudo igual...foram horas, dias, anos inteiros reproduzindo tal imagem...

Se tornou  onda em todos os seus momentos de teimosia e persistência, se fez  pedra pra não deslocar-se da vida que tentava escapar-lhe a cavalo em fuga e sem  seus véus, se fez  mar, ilimitada em seus horizontes...virou riacho algumas vezes, em  pedra foi rude e preciosa,...mas permaneceu onda que se deixa engolir pelo mar  ela mesma, com seus sonhos,ideias e crenças que içam velas ao vento e a navegam mar afora a dentro...se arremessa contra a pedra dentro e fora dela, imóvel em seus propósitos de ser onda,mar,pedra, praia,lugar de ser, e ficar,  correr para areia, e voltar para o mar. Arrebentar-se na pedra de um jeito nunca igual,  e nos fragmentos,  novos sonhos  com véus de Chagall...

http://en.wikipedia.org/wiki/Marc_Chagall

terça-feira, 13 de março de 2012

sou mera brincante fantasia...

Somos personagens ou seres reais? Vivemos de fato ou somos ideias, ficção de nós mesmos?
Nossa poesia é mero código arrumado pra ter sentidos ao leitor, ou simplesmente sonho, fantasia, desejo de ser um dia...

Escrever eu prometo ... é a mais fácil que viver  pra realizar a promessa?Quem vai cobrar o que escrevi desejar?Eu mesma?Qual será o compromisso do escritor com as afirmações que faz / Limita-se a apoiar-se na liberdade poética? Criativa? Não tem mesmo que pensar sobre os efeitos de sua escrita?No leitor...nele mesmo o autor?

Permitir o amor liberto de grilhões da paixão na escrita é a mesma coisa que deixar a pipa, ao sabor do vento, estraçalhar-se nas torres, rasgar-se toda nos galhos, incendiar-se no fio elétrico? Ser cinza voando com sobras de eternidade...

Confessar o desejo de perpetuar no amor é mais fácil que juntar nossas coisas e partir sem direção que não a do coração sem juízo... a nos indicar caminhos íngremes intransponíveis pela razão...

Somos fruto de nossa própria ficção... Solitária ou repleta de momentos feitos de inspiração a percorrer cada dia desta vida sem ter nunca a certeza se somos real ou se mera e brincante fantasia...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Obsoletismo

Mais um roteiro caia sobre a pauta dos meus registros, ameaçado pelo obsoletismo que tem rondado dia a dia meus escritos...
O ritmo  da criação contraria o compasso da realização condicionada ao tempo, espaço e suas interlocuções...
Projetos de sonhos idealizados para concretizar utopias de uma existência que ultrapassa o simples viver...
Rumo ao viver significativo e potencial de fecundações outras, que não a do simples viver simplesmente a vida que nos foi dada...
Desta vez tratava-se da materialização das imagens de Montserrat em desenhos fotográficos...exigências que incluem outros lugares pra invenção... cumplicidades, co-autorias na criação de dois elementos, personagens sem lugar e tempo determinado, vivendo cada imagem numa superposição de corpos, pensamentos, almas...
Era preciso muito mais que um script pra ser roteirizado.
Era preciso penetrar a subjetividade do propósito...leitura apurada dos sentidos e das revelações que se mostram na inspiração movedora desse invento.
Por que Montessert Gudiol? Que mistérios guardam essa obra em seus vazios impenetráveis pelo expectador distraído, sonâmbulo da noite dormida aos pedaços...
Percebi de pronto as lacunas do propósito e vi nas personagens de Gudiol a indicação do caminho pra meu invento...deixei de lado a dupla de personagens costumeiramente grafados por ela, tomei a figura solitária e feminina.
Uma mulher no seu extremo da feminilidade, absorta entre as laterais do portal imaginário por onde atravessaria a margem do rio...
Foi por mim a escolhida...trouxe-a comigo retratando-me a mim mesma no tecido que a aquecia entre meus dedos a fiar e colorir  seu contorno e cenário, que lhe dei, com flores inexistentes nos catálogos oficiais, uma árvore sem folhas, e que não sombreia mas que acolhe e sustenta as parasitas, orquídeas floridas para sempre, a embelezar seu entorno contornado pela inspiração e beleza, elementos das quais jamais abandonaria.
Era preciso ainda que Ginógrafa viesse diversificando seus instrumentos da escrita e com eles tingisse, aguadas cores subtons, destonadas nuances, elementos escondidos no silêncio que habita mais um  sonho...transcrito e costurado entre tantos...salvo do obsoletismo, por que realizado na pintura, bordado, espectro literário...amadurecido para que o outro seja então retomado: a edição fotográfica das duas personagens entrelaçadas num vínculo fadado a perpetuar no ideário da artista, sem riscos do descarte da obra, da ideia, pelas limitações de mais um roteiro criado no afã da inspiração que remonta sonhos em larga escala de invenções, ritmos acelerados em descompasso com o tempo viável de suas realizações.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Genuflexão


Vivo assim... Sonho, invento, crio, levo sustos enquanto durmo... por que acordada me iludo... Desenho cada elemento do cenário que desejo em minha tela, cada cor no pincel do  pensamento... Acordo no meio da pauta em branco, caneta na mão palavras saindo pelas frestas da imaginação, inspiração sem rumo, territórios sem fronteiras... Fico assim quase sempre... Lanterna acesa... Desfocados sentidos... Corredor sem alvo certeiro... Arco em punho, flechas sem direção... Todos os sons me atordoam, justifico cada invento, explico cada aproximação... Tento viver assim derrubados meus  muros, paredes inexistente, sem cor,  sem limites, mas o que encontro é sempre enorme confusão, ideias sem pontas que se unam.... Rede desredada sem elos seguros que sustentem minha indelével arquitetura despojada de razão...lucidez incalculável...clausura sem  genuflexão...torre do sacrifício sem carrasco que não o de minha própria razão.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Quiçá

Provisoriedade, sentimento que impede definições e verdades...estado d'alma nem sempre provisório ou passageiro.
Provisório lugar de desencontro, desacerto, incertezas, desconforto.
Provisória permanência, provisória afirmação, 
Provisória  por que indefinida a questão.
Temporária provisoriedade, duplicata de sentidos que não se completam e nem se duplicam por que provisórios...
Provisório desejo de não ser mais...
Definitiva certeza sobre a provisoriedade da indefinida paixão...
Provisória lembrança que se recusa eternizar a memória... Provisória explicação enquanto pra definitiva não há comprovação...
Provisória indecisão sobre o ir ou ficar...rir ou chorar, sobre a escolha provisória do que ser, saber e negar
Provisória inspiração da poesia jamais provisória
Provisória agonia quiçá provisória!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Cativeiro

Fiquei parada no meio da rua esperando, com minha bagagem de pintura na maleta de madeira, cavalete  desmontado preso na caixa, panos e telas, blocos de canson, carvão, estiletes e pinceis, meus livros de ficção, notebook e CDs.  Tudo que eu precisava pra passar um mês num cativeiro caso eu fosse sequestrada. Fiquei ali um tempão, choveu, abriu sol, anoiteceu, esfriou, amanheceu novamente... Nenhum seqüestrador disponível... Não foi dessa vez... Quem eu esperava também não veio me buscar, tenho ficado assim ultimamente esperando pessoas que não chegam, descobrindo coisas que não acontecem, lendo romances que não terminam, vendo filmes sem enredo, ouvindo musica no pensamento, pois meu aparelhos de som queimou na tomada duzentos e vinte volts, meu telefone não tem tocado e as mensagens não chegam mais. Fiz um novo desenho e resolvi bordar tudo em vermelho. Costurei um nu em minha camiseta e fui nadar antes da chuva. Quando voltei, encontrei comigo no meio da rua...estava lá ainda esperando a mim mesma que ao que parecia, tinha me metido em algum novo lugar desconhecido...um lugar desconhecido faz isso com quem chega nele pela primeira vez...era o meu caso.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Estava pronto

Eu estava sem nenhuma ideia pra escrever naquele dia...isso era sinal de algo muito estranho...pois ideias não costumavam me faltar...abri um arquivo novo e fiquei olhando em torno...meu escritório nunca estivera tão bagunçado...os livros utilizados na última pesquisa ainda estavam soltos pela bancada, folhas de rascunho exibiam o processo criativo conturbado da última publicação...anotações de referências, links e capsulas de informações se exibiam em pedaços improvisados de papeis pelos espaços...no chão deitavam sinais da desordem sobre a mesa...na pasta de arquivos eletrônicos vários ensaios nominavam de em construção textos começados...ideias desconexas, guardadas, registradas, valorizadas num tempo em que a falta de ideia poderia acontecer como hoje...abri um deles em busca de algum contato, inspiração, olhei mais uma vez meu entorno e fixei no menino que  dormia no meu tatame, exausto, primeiro dia de aula, tantas novidades inquietantes, incertezas...estava ali a ideia que eu precisava...me aproximei dele e vi que transpirava, o acordei, ofereci-lhe água mas ele se recusava a abandonar a preguiça que o tirara daquele percurso que transitava entre surprêsa e  dor...o desconhecido e a decepção de não saber ainda o que ia acontecer, dia após dia...insisti pra ir dormir na cama mas ele se acomodava se enroscando nas almofadas... preferia ficar...voltei ao meu texto e vi que ele estava pronto.