Acordei e vi, no meio da noite
Alguém o meu sono velar
De asas, pulseiras e brincos
Em cima da cama a me olhar
Pensei que era sonho e sonhei
Que um anjo me vinha guardar
Debaixo de suas asas me aninhei
Assim fiquei até o dia acordar
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Sobriamente
Dizer sobriamente o que penso.
Pensar sobriamente o que eu digo.
Sobriamente pensar no que digo.
Dizer o que penso sobriamente.
Conceder sobriamente ao pensamento, o espetáculo de palavras, sobriamente treinadas pra ser campeãs
Expressar nada além do que sobriamente penso
Pensar nada além do que sobriamente desejo expressar
Fazer sobriamente o escrito, reverter-se não em meu favor,
Mas daquilo que quer meu pensamento sobriamente dizer
sábado, 22 de setembro de 2012
Laura
Estive hoje no Museu de Arte de São Paulo. Fui ver a exposição do Caravaggio e encontrei-me com Laura. Não a via desde sua visita ao estudio onde trabalho com fotojornalismo. Continuava com o mesmo entusiasmo da ocasião que a conheci.
Laura é uma jovem senhora elegante e culta. Gosta de arte e coleciona viagens pelo mundo. A vejo como uma personagem saida das telas de Monet, mas não tem uma sobrinha de renda, ainda. Prometi a ela presenteá-la. Laura usa roupas leves e esvoaçantes. Tem o semblante curioso, gestos delicados, e postura de quem está sempre se debruçando sobre si mesma. Laura tem um jeito de olhar por sobre os próprios ombros, descendo pelos braços parando nas mãos. Inclina a cabeça graciosa quase sorridente. Conversa comigo olhando para as mãos, ajeitando o colar de pérolas que desliza sobre o peito farto protegido por um exarpe tímida de seda transparente. Tem os pés nús a fala mansa e pausada, os lábios lentos mas prontos para arremessar as palavras. Compõe o texto de sua fala ao falar.
A convidei pra voltar ao estúdio. Ficamos de marcar.
Nos despedimos diante da Meduza, obra prima de Caravaggio, a nos olhar assutadora. Laura se despediu estendendo as mãos retirando uma das luvas de cetim, um abraço discreto, um até breve.
Acabo de chegar em casa. Estava pensando em Laura. Há algo nela que me inquieta. Talvez essa aparente solidão, ou sua enigmática figura de dama antiga, modelo das pinturas de Monet.
Era tarde e estava tensa da viagem, transito cansado e lento, lua escondida, vento demorado.
Havia pouco o que fazer, um banho, um chá, uma passeio pelo último texto sobre a pauta, e o dia vivia em mim, seu último momento. Quanto a Laura, virou refém do pensamento.
domingo, 16 de setembro de 2012
Tarde Inquieta
Eu escutava Clarice com mais uma e mais uma e mais uma de suas histórias. Juntava todas e escrevia essa.
Na varanda a tarde caia quente e seca. O ar parado mostrava um certo cansaço nas folhas do coqueiro que não tinham como balançar ao vento. As nuvens não se juntavam pra combinar a chuva esperada. Mais um dia se despedia acenando pra Clarice que aproveitava pra visistar seus aposentos mais secretos. Acomodou-se na cadeira de vime e mergulhou no aconchego do pensamento. Remexeu guardados e preciosidades do tempo, encontrou-se jovem, e reviu paixões. Releu poemas e revisitou sentimentos. O primeiro amor que não sabia ser o autor da marca dele na pele de Clarice, o desenlace e as buscas de sensações outras. Cada amor uma história de adeus, cada adeus um registro do caminho percorrido, cada caminho percorrido uma experiência.Clarice se emociona, se busca em cada história, se desenha protagonista de si mesma, da que era, que foi e que ainda quer ser ao menos fisicamente. O pensamento mudou e com ele os planos de felicidade. Mas Clarice insiste, é apaixonada pela que viveu tantos amores, sente saudades ainda que não expressa. Se ama aquela de cada história. Fico ouvindo. Ela me pergunta: Não se choca com minhas histórias? Não me acha meio maluca? Claro que não Clarice, é de sua coragem que fala quando conta sua história. Ela então se entrega a um sorrico quase riso inteiro e conta mais uma, e mais uma. Até parece que viveu muito mais pelo que cabe no seu repertório. A noite chega no calor da tarde e permanece quente. Me despeço dela. Vou para o meu quarto e arrumo os quadros na parede, uma das lâmpadas do conjunto de três no globo do teto, está apagada. Fico atenta ao efeito de sua falta na claridade e penso nas histórias de Clarice e o quanto elas iluminam sua identidade, mas uma lâmpada continua apagada e ela tenta recuperar sua luz recontando cada história. Quem sabe um detalhe que ficou esquecido possa transparecer e trazer a resposta que identifica essa mulher misteriosa e inquieta de si mesma.
Na varanda a tarde caia quente e seca. O ar parado mostrava um certo cansaço nas folhas do coqueiro que não tinham como balançar ao vento. As nuvens não se juntavam pra combinar a chuva esperada. Mais um dia se despedia acenando pra Clarice que aproveitava pra visistar seus aposentos mais secretos. Acomodou-se na cadeira de vime e mergulhou no aconchego do pensamento. Remexeu guardados e preciosidades do tempo, encontrou-se jovem, e reviu paixões. Releu poemas e revisitou sentimentos. O primeiro amor que não sabia ser o autor da marca dele na pele de Clarice, o desenlace e as buscas de sensações outras. Cada amor uma história de adeus, cada adeus um registro do caminho percorrido, cada caminho percorrido uma experiência.Clarice se emociona, se busca em cada história, se desenha protagonista de si mesma, da que era, que foi e que ainda quer ser ao menos fisicamente. O pensamento mudou e com ele os planos de felicidade. Mas Clarice insiste, é apaixonada pela que viveu tantos amores, sente saudades ainda que não expressa. Se ama aquela de cada história. Fico ouvindo. Ela me pergunta: Não se choca com minhas histórias? Não me acha meio maluca? Claro que não Clarice, é de sua coragem que fala quando conta sua história. Ela então se entrega a um sorrico quase riso inteiro e conta mais uma, e mais uma. Até parece que viveu muito mais pelo que cabe no seu repertório. A noite chega no calor da tarde e permanece quente. Me despeço dela. Vou para o meu quarto e arrumo os quadros na parede, uma das lâmpadas do conjunto de três no globo do teto, está apagada. Fico atenta ao efeito de sua falta na claridade e penso nas histórias de Clarice e o quanto elas iluminam sua identidade, mas uma lâmpada continua apagada e ela tenta recuperar sua luz recontando cada história. Quem sabe um detalhe que ficou esquecido possa transparecer e trazer a resposta que identifica essa mulher misteriosa e inquieta de si mesma.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Poema para Tói
MUNDO FANTASIA
Suê Galli (1978)
Vem brincar de sonhar comigo
Vem voar pelo ar, pelo mar
Vem comigo
Esquecer deste mundo a maldade
Vem brincar de sonhar comigo
Anular toda a realidade
Já que somos pequenos demais
Vem sonhar de ser Rei
De ser dono da vontade
Bem mansinho, sem protestos mais
Vem me acontecer
Me fazer viver... Liberdade
Me tornar uma a mais
E depois veremos
O que é que se faz com o mundo
E se o mundo todo puder
Encantado
Todo fantasiado de amor!
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Clarice e Loren
Clarice estava exausta depois de mais
um dia de trabalho no novo setor da redação do New York Times... Contrato
pontual de três meses para escrever
episódios do universo fantástico, numa das colunas reservadas a cultura
literária. Como de costume Clarice fez seus próprios horários o que a mantinha muitas vezes por mais de 12 horas na
redação...hoje era um desses dias.
Ainda agitada com as ideias textuais,
atravessando vielas do pensamento, tomou
um banho e vestiu-se com sua roupa confortável de dormir, na esperança de fazer
repousar o corpo enquanto a mente se mantinha escrevendo por mais algumas
horas.
Seu celular acusa mensagem. É Loren, seu amigo de inspiração poética e ficção filosófica. Loren acumula dentre suas preferências a música
brasileira. A mensagem dizia:
_ Olá Clarice! Vamos ver um show
comigo hoje? Trata-se de uma cantora
brasileira de voz e repertório que tenho certeza vai gostar. Aguardo seu
retorno. Abraços. Loren.
Clarice resolve ligar para Loren.
_ Olá Loren! Acabo de chegar da
redação...estou podre! Tomei um banho mas ainda não relaxei...estou terminando
uma ficção pra edição de amanhã...a que horas é o show?
_ Bem mais tarde...dá tempo de
descansar...é na Broadway onde tudo começa a meia noite...Vamos?
_ É penso que se conseguir descansar
podemos ir . Pode me acordar daqui umas duas horas?
_ Sim claro...descanse, tem tempo.
Passarei pra te pegar as 23hs.
_Ótimo... assim dá pra encarar. Ah
Loren...pode me trazer aquela calça sua que eu gosto? Aquela saruel indiana que sua admiradora fez pra você?
_ Sim claro não vou usar estou com
aquela sua que me emprestou da ultima vez...a samurai...vou com ela...tudo bem?
_ Pode usar...fica linda em você! Te
espero! Até mais tarde! Beijos.
Chegaram a Times Square, Manhattan em tempo de caminhar pela praça com seus estúdios onde concentra a maior indústria do entretenimento no mundo. Os inúmeros anúncios luminosos de publicidade, a noite, tornam-se uma atração peculiar. Clarice estava animada...refizera-se do cansaço...Loren estava feliz em usava a calça samurai de Clarice e a costumeira exarpe no pescoço exibia seu porte artístico mais que atletico...Clarice vestia uma calça modelo saruel indiano de Loren...Os dois viviam trocando as roupas...tinham gostos parecidos preferências iguais.
Chegaram ao teatro e não demorou ela estava lá...a filha encarnando a mãe. Maria Rita/Elis Regina numa reconciliação em tempo de fazer 30 anos da separação...
Clarice e Loren ficaram na intimidade da companhia um do outro...juntos abraçados...como se a cantora estivesse ali unicamente pra cantar a eles...a noite se despediu com a musica, o show de iluminação e o gestual performático da cantora que reencarnava a mãe em cada agudo...
Clarice e Loren acordaram juntos.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Anjos e epitáfios
Combinamos, Clarice e eu de sairmos numa tarde dessas, cinzentas promissoras de chuva, para fotografar os anjos dos túmlos do cemitério tradicional de Paris...e fomos.
Tomamos o metrô e descemos bem próximo do Père-Lachaise...Clarice estava mais interessada nos epitáfios e nas fotos antigas dos mortos ali sepultados, eu nas imagens dos anjos debaixo do ceu cinzento. Pelos corredores que espremiam os túmulos, o chão úmido mostrava a ausência do sol...Ele por sua vez, por mais que se esforçasse não conseguia chegar ali...tão fechado o lugar...Clarice quis ver o Muro dos Federados, dirigentes da Comuna de Paris fuzilados em maio de 1871, ficamos um bom tempo paradas ali...Clarice anotava em seu bloco os dizeres em homenagem aos federados...saimos depois para buscar outras celebridades como, Rousseau, Isadora Ducan, Oscar Wilde, Kardec, Piaf, e tantos outros...Os anjos que capturei com minhas lentes eram todos envelhecidos e escuros...num contraste com o ceu cinza claro dava uma certa melancolia ao olhar demorado. Voltamos pro hotel e terminamos a noite revendo nosso feito...eu com minhas fotos e Clarice com suas anotações...
Assinar:
Postagens (Atom)