Cheguei a Brne e fui direto para a praça central tinha um compromisso prometido... poucas pistas e referência que um amigo do Brasil me dera. Tratava-se de um tcheco artesão que trabalha com fio de prata... a pista, a descrição de sua cadeira bancada de trabalho onde modela o fio com a ajuda do martelo para finalmente dar forma a peça.Decidi que minha câmera ajudaria a localizá-lo...acionei o zoom percorrendo a praça focando cada canto dela...lembrei-me de outra situação onde utilizei do mesmo recurso para localizar uma colega de trabalho que se colara a parede no final da sala de reuniões...com minha câmera consegui tirá-la de lá...Da mesma forma acabei encontrando o artesão tcheco...estava lá com seu ateliê móvel, ou cadeira-bancada espremido entre duas outras bancas...fotografei e me aproximei. Ele levantou o olhar do trabalho que realizava...olhar azul esverdeado sorriu apontando as peças com seu esguio indicador que sutentava anel de sua autoria. Admirei sua criação...muito simples na verdade...sem excepcionalidade mas ele estava ali e meu amigo brasileiro esperava sua encomenda. Percorri os olhos sobre a produção toda...borboletas, pássaros, girafas, coelhos,...já quase ia desistir quando avistei o golfinho suspenso no pano de fundo por um alfinete. Me olhou com seu sorriso maroto...Tirei-o e estendi ao artesão demonstrando meu interesse... how much? Não me entendeu... combien ça coûte?Fui abrindo a carteira... mas vi que estava me cobrando em coroas eu só tinha euro...negociei em euro ele alargou o sorriso...deixei que ele retirasse o valor dentre as moedas que eu espalhei na palma da mão...foi contando com seus dedos longos...sorriu novamente...colocou num saco o golfinho e me entregou.Nenhuma palavra e fizemos um excelente transação ele e eu! Guardei o animalzinho na carteira e o trouxe para o Brasil. na semana que vem entregarei ao meu amigo.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Muro
| Muro do que sobrou do muro de Berlim (foto Suê 2011) |
Thermas Budapeste
O calor escaldante de 40º , o desconforto impedindo a concentração e a motivação pra qualquer coisa nessa Budapeste que só se mostrará amarela quando anoitecer...durante o sol fica assim precisando de muitas mãos de tinta! O desânimo se acerca lembrando a melancolia que assolou a população no século passado levando aos altos índices de suicídio. Pelo que conheço desta que estou, procuro imediatamente algo pra fazer num outro lado desse pensamento. Fui visitar as famosas águas termais, especialmente a que aparece num dos filmes da trilogia encenada por Julliette Binoche mergulhando numa das piscinas. Sem intenção de nadar ou usufruir dos banhos, atravessei a pé a ponte, mais alguns quilômetros e cheguei no suntuoso edifício imperial que se desmancha do passado para acolher o mundo globalizado...arquitetura exuberante... colunas em mármore e granito. Devidamente identificada fui direto aos aposentos reservados ao público feminino. Uma névoa de vapor pairava por todo ambiente...as piscinas de vários formatos e tamanhos com diferentes temperaturas e muita mulher de toda parte do mundo: indianas, tchecas, americanas, alemãs, orientais, polacas, ...vestidas apenas a parte inferior outras, parte nenhuma, e também as que vestiam muitos panos, outras cobriam enrolando a cabeça deixando o corpo nu,...entrei devagar para conhecer e não pude deixar de tentar um mergulho mas a água embaçava tudo...me contentei em banhar-me, imaginei Binoche, vi o lugar, senti alegria e gratidão pela oportunidade de estar ali. Passei então a deleitar o olhar pelo ambiente, as pessoas seus motivos e sentimentos ali mergulhados com seus corpos...olhei pra elas, olhei pra mim...como é bom sentirmos quantas somos e como somos...mulher é a coisa mais linda que existe além dos homens igualmente lindos!Somos um bicho tão delicado e frágil...vendo assim despidos mergulhados indefesos os corpos...Mas preciso focar o pensamento desviado para todos os lados...Num movimento pra me acomodar meu olhar se detém ancorando nela recostada em uma das bordas da piscina mais quente...olhar perdido...sorriso ausente...corpo flutuando desprendido da mente...Não pude deixar de inventar sua história, precisava conhecê-la. Estava ali para um tratamento de saúde sofrera de um mal neurológico. Era escritora e seu talento a arrastara para uma obsessão pela escrita e busca de inspiração criadora desenfreada, caracterizando o que beirava a esquizofrenia... De um caráter fadado às paixões avassaladoras, tinha o hábito de inventar desejos e sonhos e criar para eles personagens que habitavam seu imaginário e completavam o perfil do ente por quem se apaixonara. E assim, esse ser, nem sempre preenchia todos os desejos sonhados para ele, que passava a ser composto por outro e outro... assim ela ia se perdendo no universo de personagens, cada qual com sua identidade, até enlouquecer-se neles e com eles...Esse mal lhe consumia até que um dia encontrou no ser por quem se apaixonara, sua igual personalidade...esta qual musa inspiradora, deu vazão e margem a inspiração que alimentava tresloucadamente a escritora, em sua paixão pela escrita... abrindo assim uma fina fresta de luz em sua passagem para o precipício...soltou-se qual musas de Matisse voando deitadas sem asas...envoltas em véus e plumagens...agora ela estava ali diante de mim, flutuando nas águas quentes...sonhando com você...comigo...com tantas musas outras inspiradoras...que nos habitam escritoras... enlouquecem deixando marcas das poesias...impressas, encadernadas com laços de fita... feito de pedaços e uns cem mil personagens cantando aos nossos ouvidos a canção da liberdade. Fiquei mais um tempo mergulhada no calor dos pensamentos quando me pego quase plena taquicardia a sorrir em direção daquela mulher que serena a flutuar se aproxima e me pergunta quase cantando na sua linguagem...como vai Benjamin? Só então percebi que estava com saudade e que ela era eu longe de casa...perto de mim...
domingo, 4 de setembro de 2011
Eterno genitor
Você estava comigo não faz muito tempo...ainda sinto seu olhar dentro do meu...você me faz falta...seu colo...sua voz...sua memória e ensinamentos...amanhã é o nosso aniversário de vida e de morte...você não me ensinou a lição que mais preciso agora que não o tenho mais...sinto falta de sua severidade a me sacudir a razão...falta de me sentir de castigo pela sua mão de guia e descobridor dos melhores caminhos pra me conduzir segura. Você não me deu tempo, eu não acreditei que iria partir sem mim... fiquei cantando pra você, fiquei lendo Trótsky, perdi tempo de falar do meu amor, da minha gratidão e da falta que você me faria se um dia...se um dia não o tivesse mais perto de mim dos meus olhos, das minhas mãos, da sua voz, do seu riso e suas histórias. Você me deixou e aos meus amores que presenciou a construção e me ajudou sábio a entender o que não há explicação...Não sei mais ser nada depois que se foi...fico me procurando por ai...sem rota...queria você comigo amanhã...ainda que fosse pra optar pela vida... escolheria estar com você...fiquei aqui perdida ...vem me achar...hoje tive entre as mãos seu presente do meu último aniversário...um álbum com 150 letras e partituras das músicas que gostava... com todos os dados e ficha técnica...lembra?Queria que eu conhecesse o que há de melhor em MPB de todos as épocas...queria que eu cantasse, tocasse no violão...cantarolou cada uma das que eu não conhecia...fazendo o ritmo com as mãos...ah que saudade daquele seu jeito de fazer percussão com as mãos sobre a mesa...seu ritmo era sempre o mesmo pra qualquer música ríamos muito com você e você brincava com seu jeito monorritmado...Meu presente seu, uma encadernação que organizou pra mim com todas as músicas, me contou na ocasião que um amigo ajudara pesquisar na internet e imprimir pra você...meu amor...meu eterno genitor. Neste aniversário amanheci de presente também uma encadernação...feita de fragmentos de uma outra eu... com letras, músicas, fotos e poesias...me fez lembrar o quão perdida estou de mim mesma e sem você pra me achar... genitor querido...vem me visitar no meu sonho nesta noite de amanhã, vem?
sábado, 3 de setembro de 2011
Ècrivain
Eu deliciosamente a observava... estava mais uma vez situando o pensamento quando ouve uma voz metálica perguntando-lhe sobre seus apontamentos...o que tanto escreve...trabalha pra algum jornal...editora...pra que afinal? Ela responde qualquer coisa no seu francês genérico na esperança dele desistir da curiosidade. Pensava ela sobre como fazer para aliviar a curiosidade das pessoas que se perturbam tanto com sua presença, caneta, bloco de anotações e câmera em ação....afinal uma escritora ensaísta em férias que se dispôs atravessar para o outro lado do próprio oceano, não merecia ao menos privacidade para escrever? Como absorver toda a inspiração de cada paragem sem afetar os vizinhos de viagem que se esbarram nos lugares? Como calar os guias que se põem a falar sem pressa, para ouvir a brisa e os ruídos das cores e das habitações? Como escrever sem papel e caneta se os brancos da memória estão todos preenchidos com as perguntas curiosas daquele senhor? Percebeu que ele continuava tentando obter respostas...retomou seu verbo...você é jornalista ou de alguma ONG dessas que preservam culturas...veio pra ver o rio ou só quer ver Praga...já soube o que aconteceu aqui em 1964? Num esforço pra se manter gentil quase sufocada tenta a última comunicação de basta: mira...Je suis artist écrivain... no hablo, no parlo...I don’t exist...I am nothing...You don’t see me...mêu me deixa em silêncio por favor...não vê...estou escrevendo...sabe como...me entende? Ele sorri e ela quase enfurecida percebe que a curiosidade só aumentou. Fiquei atenta para não perder um movimento sequer... por um instante achei que ela perderia a razão...mas não. Levantou-se desviando, acenou com a cabeça se despedindo ao mesmo tempo agradecendo e prosseguiu sua jornada a procura de um silêncio... lugar pra deixar fluir o pensamento, e um ombro de apoio ao seu braço suspenso caneta e papel e se possível um riso querendo se deitar...
Nefertiti
Entre os escombros do antigo Egito ameaçada de virar gesso nas obras de novas construções, de beleza indizível, meiguice no olhar enigmático e sedutor, a escultural Nefertiti é salva pelo olhar sensível do arqueólogo alemão apaixonado pela história da arte e perpetuação da cultura. Arrebanhada pelos historiadores que recuperam sua história e artistas restauradores, a jovem mulher é revestida e proclamada deusa da beleza. Encontrei-a num aposento de vidro isolado dos demais compartimentos num dos museus de Berlim. Na entrada uma placa pedindo silêncio em respeito a deusa que repousa de sua jornada sobrevivente de escombros, sem um dos olhos e partes de sua pele danificada, detalhe que não maculam sua grandiosa beleza. Aproximei-me dela, nos olhamos... percebi que querida conversar... cheguei mais perto e fixei em seu olhar, fez-me um sinal pedindo que eu começasse a falar queria acostumar-se com o quebrar daquele silêncio imposto sem ter sido consultada...Perguntei-lhe se era feliz e então contou-me toda sua história, que dela, nem a metade se contava nos registros. Logo imaginei... disse a ela compadecida... é típico...de novo essa palavra que inaugura tantos momentos de minha conversação...outros lugares e pessoas...típico dos que reproduzem a história de acordo com interesses e ideologias...Ela quis saber sobre mim e então, cuidadosa para não cansá-la, falei apenas que vivia bem longe dali, que gostava de inventar as coisas nas quais acredito e amo e que nem sempre se fazem existir...Ficou muito interessada, movimentou-se delicadamente inclinando-se em minha direção...olhei em volta para me certificar de que os seguranças não nos viam ou que ninguém, armado de uma camisa de força entrasse para me resgatar...tive pena dela e de mim por ter que falar assim tão as escondidas...sempre as escondidas... vê-la naquele pedestal de pedra frio muralha intransponível redoma de cristal, endeusada, silenciada, condenada a uma adoração transeunte...volátil...curiosa e sem compaixão. Mostrou-se desejosa de vir comigo, falou quase sussurando: me leva consigo...me inventa outra, livre dessa que estou desde sempre... eu não pude negar-lhe, por isso a trouxe aqui nesta rápida escrita. Ficará entre outras que lhe farão companhia sempre que sentir-se só...será visitada e tocada olhar e beleza pelos leitores criarte que buscam... e se buscam leitura, sem pretensão nenhuma...Encontro em Viena
Estava mais uma vez diante do monumento ao menino prodígio da Áustria, fotografando o som que vinha do concerto ambiente...no hall uma fonte jorrava uma água que floria o lugar com seu perfume molhado refrescando os quase 40 graus naquela tarde de Viena na Áustria de Mozart. Sentei-me pra apreciar outro ângulo de olhar então aproximou-se sentando-se ao meu lado um homem jovem saído do cartaz que informava sobre o concerto da meia noite...trajado a caráter, delicado e belo dirigiu-se a mim com mesuras de um nobre, pedindo pra ficar apreciando com o meu olhar a fonte...me veio um aperto de saudade misturado com felicidade e tristeza...olhei para ele e seu olhar sorriu docemente para o meu...eu desconfiava sobre quem era...mas queria perpetuar aquele momento de invenção e descoberta...Ele desviando-me da certeza...alimentando cúmplice de mim...a demora pela minha descoberta...continuava com o seu olhar desarrumando tudo dentro de mim...eu já quase não tinha mais dúvidas mas ainda insisti...quem sabe não seja Vivaldi, afinal também nos conhecemos de certa forma...Ele continuava com seu olhar bailando nos lábios...Mozart veio em meu socorro elevando o volume de sua música, a água que floria da fonte jorrando pelo ar o perfume colorido me era estonteante...o silêncio de dentro se fez ruído ensurdecendo a voz...e num grito mudo balbuciei seu nome dentro de mim e ele então abriu um sorriso largo e comprido, matreiro quase infantil saiu correndo me puxando e depois largando minha mão afundando-se no teatro escondendo-se provocando minha busca...logo vi que conhecia bem o teatro que descansava vazio a espera do espetáculo da meia noite com Mozart em pessoa. Desapareceu entre as cortinas de veludo pesadas, deixando uma pista balançando numa delas...Ele sabia que não tínhamos todo o tempo que queríamos pra que aquela busca fosse demorada e torturante o necessário para que o encontro fosse explosivo de aplausos da platéia que nos assistia dentro de nós...num leve toque nos tecidos que desciam feito cachoeira de cetim endurecido pelo tempo, e vejo sua mão enluvada abrindo passagem para mim...vou até ele nos olhamos aproximando os lábios e falamos baixinho: Você aqui? Sim estava te esperando...Desde quando? Desde de sempre... Por que aqui e nesse personagem? Por que é o que você reconhece...E o que quer afinal? Ser apenas seu...Não sei como fazer isso fora de mim...Sabe sim, sabe como...pode se quer...serei você em mim seu sempre Benjamin...
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