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domingo, 29 de maio de 2011

Singularidade

Foto - Suê 2010 - Lyon França.
Cadeira a minha espera para um chá.
 Em meio a multidão sou mais um a caminhar em marcha de  protesto. Nela dezenas de milhares de pessoas interditam a maior avenida da capital do maior estado do maior país do mundo...
Da multidão, não sou apenas uma parte, tornei-me ela... e nela não consigo ver o horizonte, não tenho perspectivas...sou mantida nesse estado...a espera de um dia  conhecer-me...como multidão...ou fragmento dela...
Na caminhada repetindo palavras de ordem, sou levada pelos passos grudados nos meus...
A multidão estendida num zoom ao contrario, se fecha em mim, limitando-me aos vizinhos caminhantes, restringindo-me a visão à pessoa da frente, da direita e da esquerda, seus corpos... seus pés.
Experimento a louca sensação de estar engolida por ela, a multidão...em suas entranhas me revolvo debaixo do céu aberto lutando pelo ar...tento reconhecer meu entorno, mas para isso tenho que me voltar, mudar de lugar, arriscar  perder a referência dos lados e da frente, perdendo a direção de mim mesma... desaparecendo em multidão...


Como construir a visão da multidão nela entranhado?


Tentando fixar o olhar no mais próximo de mim, avisto uma coluna erguida sobre um elevado a um metro do chão. Num impulso desloco-me e subo. Do ponto mais alto experimento a visão da totalidade descolada das referências, liberta das palavras de ordem e da direção... vejo a multidão estendida se perdendo da vista...experimento a sensação do todo...limiar do conhecimento...

Melancólica, percebo que estou só com  meu olhar aventureiro a desenvolver a solitária experiência, sensação e leitura sobre a visão da multidão....dela em mim tornando-me coletivo...e minha singularidade a perde-se nela...
Mais tarde retomei essa aventura e constatei que estar entranhado na multidão é uma condição imposta a ela própria: a multidão, para que não consiga reconhecer-se, avistar-se em suas singularidades... ser multidão é assustador...ameaçador...nela tudo pode acontecer e por isso nada de fato significativo e transformador acontece...

Pensei então na escola e o quanto ela nos mantém entranhados na multidão, vendo muitos pés e as poucas cabeças que nos circundam... vivendo sem o conhecimento sobre nós mesmos, nossa potencialidade e poder de criação e transformação....

A mim só me resta deixar a escola, sentar na varanda e tomar um chá...

Foto Suê Saint-Rèmy - Sul da França
Vista interior de muralha medieval, janela por onde ví o céu, o sol, a liberdade, minha singularidade...
  

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