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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pérola

A pérola desprendeu-se do pingente...  pêndulo que dançava de um lado para outro no colo daquela mulher que desejava o colo da pessoa amada mas que distante dela, lia seu jornal sem notá-la. A ela restava alimentar sua pérola, cintilante esfera alva, produto de moluscos, estranhos predadores que invadem e atacam o organismo da ostra, como vermes ou grãos de areia que se transformam  gema ou pérola.  Coisa morta,  vira objeto de joalheria, de desejo, vaidades, demonstrações de afeto que não convence sozinho precisa dela a jóia... e no aniversário de qualquer coisa ela ganha de presente no estojo de veludo para ser esquecido nele com as demais, ano após ano. Mas ela compadecida daquela pérola solitária desdenhada pelo colar com suas mais de 40 iguais a ela, tirou-a daquele ambiente hostil e colocou no pescoço. Passou a conversar com ela projetada no espelho todas as manhã ao  perfumar-se para sair em busca de alimento para ambas. O  da pérola passou a ser também o dela. Ambas mortas a  pérola e ela...vagavam cada uma no seu lugar e ponto de observação. Inseparáveis. Naquela tarde a pérola resolveu que uma delas, ao menos uma, se libertaria daquela prisão morta viva morta...desprender-se e buscar outro lugar para ficar. Já há algum tempo vinha procurando até que um dia percebeu sua existência e como nele chegar. Desprendeu-se e foi descendo, descendo como se num desfiladeiro sem fim, porém suavemente, deslizando quase que num balé aquático, experimentava a sensação de ser única, no aconchego da ostra novamente, viva, líquida e morna seu novo eterno lar. O pescoço nú da perola ausente sentiu-se revestido de  suave sensação de bem estar, uma insustentável levesa de tornar-se com ela de novo viva na ostra.

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