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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Prosa fractal



foto arte Suê/2011
No alvorecer fica ela na praia contando as ondas descritas na observação detalhada de Calvino, absorto em suas pantufas desaparelhadas investigando as causas do barão partido ao meio e a vingança do cavaleiro inexistente a remar contra a corrente das marés, cujas ondas se quebravam antes mesmo das idéias se formarem da cabeça percorrendo pelos pés. Nas tardes lentas e mornas procura ensandecida por Emílio, projeto fictício de Rousseau, perdido nos laboratórios e experimentos do saber pra ser sábio, aceito e no mundo viver. No anoitecer precoce apressada visita com seu traje inoportuno o mundo das sombras oportunizado por Platão e falar com ele sobre as não certezas de explorar ou não a caverna prisioneira dela mesma e sem razão. Madrugada jovem começada encontra-se ela numa de suas janelas com Cervantes a cavalo seu Quixote, figura triste, errante a brindar pela vitória contra os moinhos de ar. Sobra ainda parte dela madrugada a madurar quase finda, mais um breve introspectar: viajar com navegantes, mares nunca dantes navegados, na companhia de Pessoa o Fernando, seu poeta mais que amado, sem nenhum padrão o infante, por Felipa de Lencastre desejado, a conferir última nau. Olha ela finalmente, pela fresta da manhã prematura sem moldura nem pintura vê a praia, canta um verso pra Clarice que Lispector a espreitar por sobre espectro, sombrio e funesto, que vinha dentro dela, no fundo do próprio mar de desejos e lampejos de mulher de além mar.

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